domingo, 23 de fevereiro de 2014

O gadareno e os porcos


um trabalho ainda inacabado

Existe uma passagem do ministério de Jesus que sempre me chamou à atenção, e eu gostaria de compartilhar as dúvidas e mistérios sobre esse trecho. Não vou colar ela aqui, para que você se dê ao trabalho de ler as versões dela. Trata-se da expulsão de um (ou mais) demônios na terra dos gadarenos, mais propriamente numa região conhecida como Decápolis. Você pode encontrar tal passagem em Mateus 8.28-34, Marcos 5.1-20 e Lucas 8.26-39. Os 3 evangelistas sinóticos (que narraram cronologicamente a vida de Jesus) contam sobre esse episódio, mas sobretudo João Marcos dá atenção a ele. Isso é relevante, pois João Marcos em geral é o mais sucinto dos evangelistas.

Essa passagem tem múltiplas interpretações, algumas literais, outras figurativas, e certamente não há como esgotar o assunto aqui. Apenas seria bom expor algumas idéias.

O ocorrido se deu na região conhecida como Decápolis, que é um nome greco-romano. Não se trata de uma cidade, mas de um “estado” formado por 10 cidades independentes que contavam com muitos privilégios junto a Roma, como terem cada qual a sua moeda, etc. Esses privilégios eram concedidos justamente às cidades que disseminavam a cultura romana no Oriente, como o culto ao imperador. Faziam parte da Decápolis as cidades-estado de Gerasa, Scythopolis (chamada Beth-Shean, em Israel), Hippos (ou Sussita), Gadara (Umm Qais), Pella, Philadelphia (atual cidade de Aman, capital da Jordânia), Capitolias (Beit Ras, ou ainda Dion), Canatha (Qanawat), Raphana e Damasco (atual capital da Síria).

mapa de Decápolis

Jesus e seus seguidores haviam saído de barco de Cafarnaum, até o outro lado do lago de Genesaré (mar da Galiléia), desembarcando nalgum local que Marcos chama de “terra dos gadarenos”. Provavelmente não haviam construções ali, ou o nome exato do lugar seria conhecido. Alguns dizem que essa foi uma das raras andanças do Messias em território gentio, mas os conflitos militares na região sugerem que, na verdade, tratava-se de um território judeu, pelo menos politicamente. Lá chegando, veio ao seu encontro um “homem com espírito imundo”, que “morava nos sepulcros”, ao qual “ninguém podia prender”. Marcos relata que ele “andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, e ferindo-se com pedras”. Precisamos entender bem o que isso significa, pois fará toda diferença na interpretação dos fatos.

Tradicionalmente, fala-se em um indivíduo possuído por demônios, que seriam expulsos pelo Messias. No entanto, o fato de andar dia e noite, clamando e ferindo-se, faria qualquer profissional de saúde atual pensar em um esquizofrênico, lunático (termo medieval) ou simplesmente louco. São de fato comportamentos bem típicos! No tempo de Jesus, os judeus associavam tanto as doenças físicas (ex. lepra) quanto mentais (ex. esquizofrenia) à possessão por demônios. Estar doente tornava o indivíduo “impuro”, alguém em quem ninguém queria sequer tocar. Freqüentemente esse “impuros” viviam no campo, próximos às cidades, vageando por onde achassem comida (ver 2ª Reis 7.8). Um cemitério gadareno não seria local improvável para habitarem.

O culto aos mortos era comum em Roma e na Grécia, e talvez alguns gadarenos mais "romanicizados" fossem adeptos disso. Isso faria dos cemitérios locais sagrados, onde seriam deixadas oferendas (de forma semelhante ao que vemos hoje no xintoísmo japonês, santeria caribeña e umbanda brasileira). Já pos cemitérios judeus eram locais "impuros", de onde as pessoas se afastavam. Talvez por isso o profeta Isaías tenha escrito 700 anos antes:

Fiz-me acessível aos que não perguntavam por mim; fui achado pelos que não me procuravam. A uma nação que não clamava pelo meu nome eu disse: ‘Eis-me aqui, eis-me aqui.’ O tempo todo estendi as mãos a um povo obstinado, que anda por um caminho que não é bom, seguindo as suas inclinações; povo que sem cessar me provoca na minha frente, oferecendo sacrifícios em jardins e queimando incenso em altares de tijolos; povo que vive nos túmulos e à noite se oculta nas covas, que come carne de porco, e em suas panelas tem sopa de carne impura.

Esse povo diz: ‘Afasta-te! Não te aproximes de mim, pois eu sou santo!’ Essa gente é fumaça no meu nariz! É fogo que queima o tempo todo! Vejam, porém! Escrito está diante de mim: Não ficarei calado, mas darei plena retribuição; eu lhes darei total retribuição, tanto por seus pecados como pelos pecados dos seus antepassados’, diz o Senhor. ‘Uma vez que eles queimaram incenso nos montes e me desafiaram nas colinas, eu os farei pagar pelos seus feitos anteriores.

Logo que Jesus desceu do barco, Marcos conta que o endemoniado veio correndo ao seu encontro, questionando-o: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes”. Mateus acrescenta: “Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?”. Certamente o homem que se flagelava com pedras também se via como impuro e endemoniado, e realmente dizia 'Afasta-te!'. Não podemos afirmar que não fosse de fato um possuído, mas essa passagem chama a atenção, entre outras coisas, pelo comportamento estranho do “filho das trevas”: noutras aparições, o diabo e seus conservos são sempre sutis, ativos e manipuladores. Mas aqui ele corre na direção de Jesus e humilhando-se à vista de todos!

Alguns estudiosos, por outro lado, atentam que o pronto reconhecimento do Messias é uma característica de seres espirituais. Enquanto os homens ficaram por muito testando Jesus, esperando “sinais”, o diabo e os anjos rapidamente se manifestaram a Ele. E a sujeição a Jesus também é bem hipócrita: "não nos atormente antes do tempo”, dizia, mas o homem ali ESTAVA atormentado em todos os seus dias.

Como era hábito dos rabis que expulsavam demônios, Jesus perguntou o nome de quem tinha a sua frente. E a resposta não podia ser mais estranha: “Legião, porque somos muitos”. De fato, a palavra que aparece nos manuscritos gregos é LEGIO. Tratava-se de um nome usado especificamente para… solados romanos! Os judeus e gadarenos conviviam com as tropas romanas na região havia pelo menos 200 anos e ninguém chamaria de LEGIO a qualquer um, mas somente um militar romano.

No tempo de Jesus, haviam muitos movimentos populares contra Roma, a exemplo dos Zelotes em Jerusalém. Eram tempos turbulentos, e tornaram-se ainda mais turbulentos até o ano 70, quando Roma ordenou a destruição dos monumentos em Jerusalém, a começar pelo Templo. Nesses anos, a Judéia toda estava sendo fortemente patrulhada pela Legião X Fretensis (X = 10ª legião), formada por 5000 soldados, além dos oficiais. Essas “patrulhas” estavam lá justamente para assegurar a PAX ROMANA (os reinos subordinados não podiam guerrear entre si) e acabar com qualquer revolta popular. E o símbolo que os legionários carregavam nos escudos e bandeira era, curiosamente, esse abaixo:


Selo e bandeira da 10ª legião

Ok, é um porco selvagem. Na Itália dos romanos, era um símbolo de força militar (assim como a águia e o touro, outros símbolos de Roma). A 20ª legião - Val Victrix - também usava o porco nos escudos. Mas era um animal que os judeus e gadarenos conheciam, que estava associado às pestes, ao castigo divino e aos velhos inimigos Filisteus. Provavelmente era um animal criado sem restrições no lado oriental do Jordão (antiga terra dos amonitas e moabitas) e com toda certeza era usado como mantimento para as patrulhas e até para as cidades da Decápolis. Diversos estudiosos citam que referências aos soldados romanos na judéia até os nomeiam depreciatoriamente como “os porcos”.

Qual não é a surpresa em que o “demônio LEGIO” se importasse tremendamente por “ficar na região” e desejasse justamente “ir aos porcos”. Parece um linguajar militar! Aqui as opiniões divergem bastante: alguns estudiosos dizem que o possesso talvez fosse um soldado romano insano e querendo voltar aos seus 2000 compatriotas acampados. Outros estudiosos falam ainda da incrível semelhança que existe entre o porco, em grego THUS (Θΰç) e “sacrifício” (THUEIN = Θΰεiν), sugerindo que era formalmente um “animal de sacrifício”, da mesma forma que o carneiro era para os judeus. Portanto, a criação de porcos em território gadareno seria uma criação “cerimonial” ou “oferenda” aos deuses pagãos ou demônios DAQUELA TERRA. Os gregos, por exemplo, sacrificavam porcos a Ceres, deusa da terra, e o faziam em covas ou cavernas, que os judeus bem poderiam interpretar como túmulos. O mais comum é que se diga “ora, os porcos eram animais impuros”. Mas só eram impuros para alimentação! Os camelos e jumentos também eram impuros, segundo o código de Moisés.

O mais estranho, contudo, seria pensar em Jesus fazendo as vontades de um demônio.

Mesmo debruçando-se muito sobre as escrituras, não há explicações definitivas para esse estranho ocorrido na terra dos gadarenos. Só temos o texto bíblico, e ele não é revelador quanto a isso. O demônio/endemoniado/insano dizia-se possuído pela Legião e disse a Jesus que gostaria de ficar na região. Para isso ele deveria passar aos porcos/ir aos romanos. E Jesus consentiu!!!! Sem dúvida importava ao Messias curar esse homem, fosse de uma doença mental ou de uma possessão demoníaca. E ele não hesitou em dizer: “vai”, de forma que o tormento SAIU do homem.

Alguns dizem que se tratava de uma transferência, como no famoso “bode espiatório” que os judeus soltavam no deserto carregando todos os seus pecados. Não há de fato como fazer isso, mas era importante a eles sentirem-se livres do tormento! E talvez fosse necessário ao homem que a sua insanidade - o seu demônio interno - passasse aos porcos ou aos legionários, para que ele ficasse livre e limpo, como de fato ficou.

Os mais literais afirmam que o demônio Legião possuiu uma manada de porcos e, desesperados, os animais se lançaram de uma colina no lago de Genesaré. Embora os homens pudessem ser habitados por demônios e continuar vivos, isso não seria possível aos animais. Quanto ao seu desejo de ficar na região… ninguém sabe o que seria de Legião nesse caso. Jesus mesmo havia dito algo sobre os demônios expulsos: “Quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares secos, buscando repouso; e, não o achando, diz: ‘Tornarei para minha casa, de onde saí’. E, chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro" (Lucas 11.24-26). Nesse caso, que diferença faria irem aos porcos ou não?

Outros defendem que o suicídio dos porcos poderia ser um simbolismo para que o homem abandonasse sua devoção aos deuses pagãos, e poderia realmente tratar-se de ele (o insano) ter atacado uma manada de porcos cerimoniais que se jogaram no lago. Há ainda quem fale em um movimento do homem ou dos gadarenos contra o domínio romano, ou do abandono de sua vontade insana de voltar à 10ª Legião. Realmente não temos como saber, pois a Bíblia não fala mais dos gadarenos. O que sabemos é que a população do local, mesmo impressionada de ver o homem curado e calmo, não quis que Jesus permanecesse lá. Isso pode estar ligado tanto à destruição de uma manda de porcos sagrados quanto a problemas com Roma, de quem Gadara era uma cidade protegida e com muitos privilégios.

O que sabemos é que Jesus disse ao homem para ficar na Decápolis, e anunciar a todos o que Deus tinha feito. Além de deixar uma testemunha para a conversão dos gadarenos (que aconteceria nos 100 anos seguintes), Jesus talvez pensasse em não desafiar as autoridades romanas levando um legionário consigo. Mesmo se tratando de um insano, isso seria crime passível de morte.

Devo dizer que a teoria de um soldado insano é muito mais atraente do que um possuído habitando túmulos. Uma vez que Gadara estava sob controle do rei Herodes de Jerusalém e nos anos de conflito o Sinédrio se fez particularmente ativo no controle dali, é pouco provável que a cidade tivesse muitas práticas pagãs, mesmo romanas. Até hoje, Gadara (atualmente Umm Quais) tem bosques de carvalhos onde seria perfeitamente possível criar grandes manadas de porcos para a alimentação de soldados.

Com os conflitos contra o rei Nero que se iniciaram em 66 d.C., a cidade se aliou aos movimentos de libertação da Judéia e foi devastada pelas legiões 5ª Macedonica, 10ª Fretensis e 15ª Appolinara, sob comando do general Titus Flavius Vespasianus.

Ruínas de Gadara, na atual Umm Quais. Ao fundo, o lago de Genesaré.

Para finalizar, tendo deixado mais perguntas que respostas, deixo também uma frase particularmente significativa de C. S. Lewis quanto à sua conversão:

Na primeira vez que eu me examinei seriamente, encontrei o que me chocou: um zoológico de permissividades, uma bagunça de ambições, um viveiro de medos, um harém de ódios e paixões. Meu nome é Legião.

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CÊ PODE LÊ, PODE SIM

Duncan Heaster, The real Devil
frei Mauro Strabeli, Bíblia: perguntas que o povo faz, Ed. Paulus, 1990
James R. Brayshaw, livro Imagine no satan, cap. 9
Jona Lendering, Wars between the Jews and Romans: the War of 66-70 CE
The Vally Presbiterian Church - Bible Study Resources
Umm Quais - wikipedia

Um comentário:

  1. O demônio pediu para ir aos porcos e Jesus atendeu. Fico feliz de ver a bondade de Deus até com pedidos de demonios. Isso faz aumentar minha esperança. ...Acontece que eu quero melhorar minhas atitudes, pois espero não ficar tão endemoniado quanto ao gadareno.

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