domingo, 21 de janeiro de 2018

Veredicto do túmulo vazio

A tumba em Talpiot

Esse é um daqueles textos antigos que a gente tem, às vezes, a sorte de encontrar. A minha versão veio de um folheto em inglês guardado nalguma sala desde 1982. Parte do texto traduzi do site Petsbrief, de Patrick Frank van der Heijden. A primeira versão desse trabalho foi publicada como um folheto evangelístico da Church Pastoral-Aid Society em 1970 e foi re-publicada muitas vezes depois. Ele examina as evidências a favor e contra a Ressurreição, colocando o leitor como membro do júri. Até onde sei, essa é a primeira versão em português.

O AUTOR

Val Grieve era graduado em direito da Universidade de Oxford. Ele atuou como advogado em Manchester, Inglaterra, por mais de 25 anos. Antes de sua conversão ao Cristianismo aos 18 anos, era ateu e um dos principais fatores em sua conversão eram as evidência da fé Cristã.

A QUESTÃO MAIS IMPORTANTE DO MUNDO (CRISTÃO)

A questão mais importante é se Jesus Cristo ressuscitou e está vivo hoje. A Ressurreição é o coração da fé Cristã. Se você lê atentamente todas as 13 mensagens no livro de Atos, todas essas mensagens têm uma coisa em comum: Jesus está vivo e está mudando a vida das pessoas. A palavra Ressurreição é mencionada mais de 100 vezes no Novo Testamento e quase todos os livros se referem a ela. O Cristianismo é sobre isso, que Cristo não só viveu e morreu, mas no 3º dia ressuscitou dentre os mortos. Sem a Ressurreição não há evangelho. "Se Cristo não ressuscitou, sua fé é fútil" (1ª Coríntios 15.17).

A Ressurreição torna o Cristianismo único. Em nenhuma outra religião, encontramos seus seguidores dizendo que seu fundador é Deus, que Ele ressuscitou e está vivo alterando a vida das pessoas.

A Ressurreição é a resposta a duas grandes questões sobre a vida:

1. Este universo é apenas um sistema fechado ou existe um ser eterno por trás de tudo? A resposta da fé Cristã a isso é que não só existe um Deus, mas Deus veio a este mundo na pessoa de Jesus Cristo. Jesus afirmou isso quando disse: "Quem me vê, vê o Pai" e "eu e o Pai somos um" (João 14.9 e 10.30). Além disso, Jesus profetizou que Ele iria morrer e depois ressurgir no 3º dia. A Ressurreição é a grande prova de que essas afirmações de Jesus eram verdadeiras e que Ele não era outro senão o próprio Deus. "Ele foi declarado com poder para ser o filho de Deus por Sua ressurreição dentre os mortos" (Romanos 1.4).

2. Existe vida após a morte? Jó perguntou: "Se um homem morrer, ele viverá novamente?" (Jó 14.14). Como disse George Bernard Shaw¹, as estatísticas sobre a morte são muito impressionantes: 100 dentre 100 pessoas morrem! Agora, se Jesus realmente ressuscitou dos mortos, essa velha questão já foi respondida de uma vez por todas. Há uma vida após a morte porque alguém, a saber, Jesus, voltou dos mortos e nos disse o que é a vida além do túmulo. Jesus afirmou que todos aqueles que têm fé Nele viverão para sempre.

O JÚRI

Antes de começar, é necessário definir o que os advogados chamam de prova-padrão. Suponha que você se envolveu em um acidente de carro e alguém terminou ferido. Você pode ser julgado e um júri terá de decidir se você foi negligente ou não. Como eles podem fazer isso? Num caso como esse, estão lidando com probabilidades. O júri deve decidir o que é mais provável de ter acontecido.

Uma das tarefas do júri é ser imparcial. Não é possível olhar para aparência e jeito de alguém e decidir se ele é culpado. Um bom exemplo disso é o caso do escritor francês Ernerst Renan, que em seu livro “A vida de Jesus” denunciou a farsa da ressurreição de Cristo. Ele começa com a pressuposição “Não existem milagres, então a Ressurreição não aconteceu!”. Tal raciocínio não seria tolerado em um júri imparcial, pois ele precisa demonstrar cada afirmação.

Um júri deve produzir um veredicto. Na verdade, o que um júri não faz é julgar. Essa tarefa fica para o juiz, que deve proferir uma sentença baseado no veredicto do júri. Mas o júri precisa analisar as evidências e, de forma imparcial, definir o que aconteceu e quais são as responsabilidades de cada um.

OS FATOS

Devemos examinar e decidir se Jesus Cristo ressuscitou dos mortos. Quais são os fatos sobre Cristo? A história nos diz 3 coisas:

1. Ele viveu há mais de 2000 anos.

2. Ele foi crucificado.

3. Três dias depois, seu corpo havia desaparecido do túmulo onde havia sido enterrado.

Esses fatos são corroborados pelos testemunhos oculares contidos no Novo Testamento. Não podemos descartar esses testemunhos dizendo que os escritores eram Cristãos. Nós também temos a evidência de não-cristãos. A primeira menção de Cristo e dos Cristãos está na notícia policial daqueles dias. O historiador Tácito² escreveu em cerca de 115 d.C. sobre o incêndio de Roma e a tentativa de Nero de por a culpa nos Cristãos. Ele nos diz que Cristo, a quem eles seguiam, foi executado por sentença do procurador Pôncio Pilatos quando Tibério³ era Imperador. Além disso, o historiador judeu Flávio Josefo* fala de "Jesus, o chamado Cristo".

"Naquele tempo, havia um homem sábio que se chamava Jesus. E sua conduta era boa e ele era conhecido por ser virtuoso. E muitas pessoas dentre os Judeus e as outras nações se tornaram seus discípulos. Pilatos condenou-o a ser crucificado e morrer. E aqueles que se tornaram seu discípulo não abandonaram seu discipulado. Eles relataram que ele apareceu três dias depois de sua crucificação e estava vivo”.

Por fim, há evidências sobre Jesus na arqueologia. Em 1945, um professor israelense descobriu um túmulo selado em um subúrbio fora de Jerusalém. Dentro havia 5 caixas de ossos**; pelo seu estilo e uma moeda encontrada lá, é claro que o túmulo estava fechado desde aproximadamente 50 d.C. Em duas das caixas, o nome de Jesus aparece claramente em orações a Ele. Essas orações apontam para Jesus como “o Filho de Deus ressuscitado, que pode ressuscitar da morte”$.

O QUE ACONTECEU COM JESUS?

A questão vital é: “O que aconteceu com Jesus? Como seu túmulo ficou vazio?” Existem apenas quatro respostas possíveis: fraude, desmaio, ilusão e milagre.

Fraude

A primeira explicação sobre como o túmulo de Jesus ficou vazio nós encontramos no evangelho de Mateus. Depois que Jesus foi crucificado, os Judeus pediram a Pôncio Pilatos para que uma guarda romana fosse montada fora do túmulo, caso alguma coisa acontecesse. De acordo com esta explicação, o guarda adormeceu, os discípulos vieram de noite e roubaram o corpo de Jesus.

Da história romana, conhecemos muito sobre o exército romano e sua disciplina militar. Uma guarda romana era uma unidade de segurança de 16 homens. Se um homem na guarda falhasse em seu dever, ele seria executado, junto com os outros 15. Em vista disso, parece incrível que toda a guarda romana tenha adormecido ao mesmo tempo.

Se os discípulos roubaram o corpo de Jesus, qual foi o motivo de deixarem as roupas para trás? Especialmente com o tempo com um prêmio, e a guarda romana adormecida no lado de fora!

Por trás de quase todos os crimes, há um motivo. Qual foi o motivo aqui? Quase todos os primeiros discípulos morreram por sua fé, nos anos seguintes. Por que eles fizeram isso? Não tinham nada a ganhar, senão tudo a perder.

Se o corpo fosse roubado, mais cedo ou mais tarde alguém teria dito a verdade e traído os discípulos. Isso nunca aconteceu, e nenhum lugar nas vizinhanças foi jamais venerado como o túmulo de Cristo.

Essa explicação sobre fraude é ainda contrária ao que sabemos sobre os discípulos. Seu número era pequeno. Eles estavam deprimidos, com medo e sem líderes. Parece inconcebível que eles de repente tenham se tornado corajosos e ousados o suficiente para enfrentar a guarda romana no túmulo e roubar o corpo de Jesus.

Desmaio

Jesus não teria morrido na cruz, mas desmaiado de exaustão. Depois disso, Ele teria acordado no túmulo e, quando Ele emergiu, os discípulos erroneamente teriam concluído que Ele ressuscitou dos mortos. Esta explicação também recebeu um toque moderno pelo Dr. Hugh J. Schonfield em seu livro “The Passover Plot” [A farsa da Páscoa”]. Ele disse que, quando Jesus gritou na cruz "Tenho sede", Ele estava drogado com vinho. Novamente, Jesus parecia morto, embora este não fosse o caso.

Jesus realmente morreu na cruz? Ele estava drogado? Os fatos não suportam essa teoria. Os soldados romanos conheciam bem seu trabalho. Pilatos nunca teria dado permissão a José de Arimatéia para enterrar o corpo de Jesus a menos que ele estivesse absolutamente seguro de que Jesus estava morto. O Dr. Hugh J Schonfield também ignora um detalhe muito importante. João, em seu evangelho, nos diz que um dos soldados romanos perfurou o lado de Jesus com uma lança "e saiu sangue e água" (João 19.34). Pode haver sangramento após a morte. Qual é a explicação do sangue e da água? Professor de Cirurgia da Universidade de Bristol afirma que:

"Como resultado da agonia espiritual e física sofrida por Cristo, uma condição de dilatação aguda do estômago pode ter se desenvolvido e a lança liberaria fluido aquoso do estômago e sangue do coração e dos grandes vasos do tórax. Escusado dizer que tal ferida seria instantaneamente fatal se a vítima ainda não estivesse morta".

Se Jesus acordou no túmulo, Ele devia estar numa condição de extrema fraqueza: Ele sofrera uma flagelação romana, fora crucificado e deixado pendurado na cruz ao longo do calor crescente do dia, estava ferido de lança, sem comida ou água por 3 dias. Então Ele teria forças para mover uma enorme pedra e escapar dos guardas lá fora? Então, como foi que, nesta condição, Ele conseguiria convencer alguém de que Ele havia derrotado a morte e a sepultura?

Jesus deve ter perpetrado uma enorme fraude ao se apresentar como alguém ressuscitado dos mortos. A explicação anterior nos deixa com discípulos fraudulentos, mas esta nos deixa com um Jesus fraudulento. Por motivos como esses, o desmaio deve ser descartado.

Ilusão

A ilusão surge muitas vezes devido a alguém que espera demais algo, e eventualmente ele acredita que aconteceu. Os discípulos esperavam que Jesus se levantasse dos mortos. Essa expectativa levou à ilusão. O todo foi o cumprimento dos desejos e foi "completamente imaginário".

A suposição básica é que os discípulos esperavam Jesus levantar dos mortos. Mas o caso é o inverso. A Ressurreição pegou os discípulos de surpresa. Eles se assustaram e foram incrédulos. A verdade é que não foram os discípulos que se convenceram de que Jesus estava vivo - foi Jesus quem teve de convencê-los.

Segundo os psiquiatras, existem certas leis que delírios devem obedecer: (1) Apenas tipos específicos de pessoas, como os altamente imaginativos, sofrem com eles. Aqui todos os tipos de pessoas afirmam ter visto Cristo. (2) Ilusões são muito individuais e extremamente subjetivas. É altamente improvável que duas pessoas tenham o mesmo ao tipo ao mesmo tempo. Mas aqui temos umas 500 pessoas que viram Cristo vivo ao mesmo tempo (1ª Coríntios 15.6)! (3) Ilusões costumam aumentar de intensidade e ocorrer regularmente por um longo tempo. Mas aqui, elas pararam abruptamente após 40 dias e não foram relatadas novamente.

Manter a idéia de que os discípulos estavam sofrendo de ilusão é ignorar completamente as evidências. Qualquer explicação sobre como a tumba de Jesus ficou vazia deve cobrir todos os aspectos possíveis. Essa explicação não cobre. Se os discípulos estivessem sofrendo de ilusão, tudo o que os Judeus precisavam fazer era apresentar o corpo de Jesus. Eles não fizeram isso, pois não havia corpo para apresentar. A tumba estava vazia, e a pergunta “O que aconteceu com Jesus?” permanece não respondida.

Milagre

Essa foi a resposta dos primeiros Cristão à nossa pergunta “O que aconteceu com Jesus?”. De acordo com eles, Jesus retornou dos mortos, deixando a tumba vazia. Ele então apareceu para eles, mudando suas vidas. Um milagre aconteceu. Quais são os fatos, então? Que evidências existem da Ressurreição de Jesus? Há mais evidências do que as pessoas imaginam, e são de 3 tipos.

A EVIDÊNCIA DIRETA DOS DISCÍPULOS

A evidência mais direta é das testemunhas que viram ele após sua ressurreição, e isso é exatamente o que encontramos nas páginas do Novo Testamento. Ela reporta não menos que 12 aparições de Cristo a indivíduos nomeados. A evidência nesses testemunhos é particularmente impressionante quando notamos 6 detalhes:

1. O número de pessoas envolvidas. Devia haver pelo menos 550 pessoas que viram Ele após a Ressurreição.

2. Os relatos da Ressurreição são independentes uns dos outros. Numa leitura superficial, parece haver pontos de discordância, mas uma avaliação mais cuidadosa mostra que são complementares, e não contraditórios. Isso é exatamente o que se esperaria de testemunhos independentes. Qualquer júri desconfiaria de relatos que concordam palavra por palavra.

3. As testemunhas falam de avistamentos em 1ª pessoa ou sobre pessoas que viram diretamente Jesus após a Ressurreição. São testemunhos diretos e não estórias repassadas.

4. A evidência das testemunhas é empírica, baseada em observação e experimento e não em teoria. Os primeiros discípulos nos deixaram escrito que eles viram Jesus por eles mesmos e, como já mencionado, uma vez em que Ele apareceu para 550 pessoas, pelo menos. Eles ouviram Cristo conversar com eles e aqueles indo para Emaús dialogaram com Ele por mais de 2 horas, além de tocar Nele. Maria Madalena e outros “abraçaram Seus pés” (Mateus 28.9). Seus 3 sentidos – visão, audição e tato – estiveram envolvidos.

5. As testemunhas concordam entre si. No Direito, o relato de uma testemunha é suficiente para comprovar um fato. A corroboração por outros testemunhos, embora não necessário, é esperado para que algo possa ser aceito como prova. È o que temos aqui. Cada um conta sua versão do mesmo fato, e a evidência de um se soma com a evidência dos demais.

6. As testemunhas da Ressurreição incluem homens e mulheres de características variadas, cujas evidências seriam aceitas por qualquer júri. Algumas vezes foi dito que tais testemunhas eram pessoas simples, que acreditavam em qualquer coisa. Também já foi dito que Jesus só apareceu a Seus discípulos. Esse não é o caso e uma das grandes testemunhas da Ressurreição foi o apóstolo Paulo%. Ninguém poderia dizer que Paulo era uma pessoa simples. Além disso, ele era o que chamaríamos hoje, no Direito, de Procurador. Paulo também não era um dos discípulos. De fato, ele era o inimigo nº 1 dos Cristãos.

2. EVIDÊNCIAS CIRCUNSTANCIAIS

As evidências diretas se referem aos fatos ligados à pergunta “Jesus voltou dos mortos?”. As evidências circunstanciais são diferentes. Elas se referem a outros fatos a partir dos quais uma resposta pode ser inferida. Há 4 coisas que não podem ser explicadas a menos que a Ressurreição de Jesus tenha acontecido.

1. A vida de Jesus. É extremamente difícil acreditar que uma pessoa comum volte da morte. Mas Jesus não era comum. Mesmo pessoas descrentes na Ressurreição foram e são impactadas por seus ensinamentos e caráter. O filósofo ateu Bertrand Russel disse: “Há muitos pontos em que eu concordo com Cristo bem mais que os Cristãos!”. Também Albert Einstein, notório cientista Judeu, disse: “Nenhum homem pode negar que Jesus tenha existido, nem que suas falas tenham sido belas. Nenhum homem pode ler os Evangelhos sem sentir a presença atual de Jesus. A Sua personalidade pulsa em cada palavra. Eu sou Judeu, mas admirador da figura luminosa do Nazareno.

De alguma forma, embora cada um deles seja hostil à Igreja, eles são amigáveis com respeito a Jesus Cristo. Mesmo nestes dias, Jesus é considerado único por comum acordo; o maior homem que já viveu. Sendo assim, não é tão difícil acreditar em outra coisa única sobre ele; a saber, que Ele ressuscitou dos mortos. O ensino e a vida de Cristo exigem o milagre de sua ressurreição.

2. Mudança nos discípulos.

A crucificação de Jesus destruiu seus discípulos. Os deixou atordoados, sem líder e em completo desespero. Todas as suas esperanças foram encerradas. De repente, esses mesmos discípulos foram completamente mudados. Pedro negou em três ocasiões que ele conhecia Jesus; cerca de 50 dias depois, no Pentecostes, este mesmo Pedro arriscou sua vida ao dizer com coragem a toda Jerusalém que ele havia visto Jesus ressuscitado dos mortos. Tomé, sempre questionando e procurando provas, era incrédulo. Uma semana depois, Tomé viu Jesus e gritou: "Meu Senhor e meu Deus". A mudança em sua vida certamente não era o cumprimento de um desejo. Tomé não esperava ver o Cristo ressuscitado, e ainda assim ele viu. Algo tremendo deve ter acontecido para transformar vidas dessa maneira. A mudança nos discípulos demonstra o milagre da ressurreição de Cristo.

3. A existência do Cristianismo.

O Cristianismo é histórico e exige uma explicação. Qualquer explicação desse tipo deve lidar com quatro fatos básicos sobre a Igreja primitiva:

1. Sua origem: dentro de 7 semanas após a morte de Jesus, os 1os Cristãos começaram sua missão na própria cidade que o crucificou. Imediatamente depois de ouvir que Jesus estava vivo, mais de 3000 se tornaram Cristãos. Pouco depois, outros 5000 homens acreditaram, bem como um grande número de sacerdotes. Algo fenomenal deve ter acontecido para gerar tal impacto. Sem a Ressurreição, o Cristianismo nunca teria saído do pequeno grupo de seguidores.

2. Seus membros: ouvimos muito hoje sobre o preconceito racial, mas isso não é novidade. Na verdade, no tempo de Cristo, o preconceito dos Judeus contra os gentios era muito pior do que qualquer coisa que temos hoje. No entanto, desde o chamado de Paulo os membros da Igreja primitiva foram Judeus e gentios. Eles eram um em sua experiência com o poder do Cristo vivo. Como isso poderia acontecer sem o milagre da Ressurreição?

3. Sua adoração: os Judeus mantiveram o 7º dia, sábado, como seu dia de adoração, mas desde o início, os Cristãos mantiveram o domingo. Essa mudança foi notável, sobretudo porque a Igreja primitiva era composta principalmente de Judeus convertidos, que eram observadores fanáticos do sábado. O que, então, causou essa mudança súbita nos seguidores da Lei de Moisés? A resposta é encontrada em um documento inicial do segundo século, conhecido como Epístola de Barnabé: "Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus." Somente a Ressurreição pode explicar a manutenção do domingo como um dia de adoração.

4. Seu crescimento: o Cristianismo é um dos maiores movimentos da história do mundo. Isso só pode ser explicado por um impacto inicial de movimentação e energia colossais. A existência do Cristianismo requer o milagre da ressurreição de Cristo.

4. A experiência dos Cristãos

Desde o primeiro domingo de Páscoa até hoje, há uma sucessão ininterrupta de milhões que podem testemunhar que suas vidas foram revolucionadas pelo contato com o Cristo vivo. Ricos e pobres, educados e sem educação, pessoas de diferentes origens, nacionalidades, culturas e temperamentos se unem em testemunhos uniformes sobre a Ressurreição. O Cristianismo real não é história antiga, mas eventos atuais. Jesus ainda está vivo hoje, mudando a vida das pessoas e a experiência dos Cristãos ao longo das eras confirma isso.

3. EVIDÊNCIAS REAIS

A evidência direta dos discípulos de que viram Cristo, juntamente com a forte cadeia de evidências circunstanciais que acabamos de examinar, constituem evidências extremamente fortes a favor do milagre da ressurreição. Também podemos adicionar evidências reais. Mas qual é a evidência real da ressurreição de Cristo? A evidência mais real da Ressurreição deve ser o próprio Cristo. Se Cristo ressuscitou da morte, isso significa que Ele está vivendo hoje e que podemos experimentar o Seu poder em nossas vidas. Esta é a maior e mais convincente prova de todas. As evidências mostram que é razoável acreditar no milagre da Ressurreição. Mas um encontro com o Cristo vivo leva o assunto a um estágio além. Se Ele realmente ressuscitou dos mortos, então podemos encontrá-Lo por nós mesmos e saber sem sombra de dúvida que Ele está vivo e é o próprio Deus. Podemos passar da razão para a experiência e conhecer Jesus para nós mesmos.

SEU VEREDICTO

Como vimos no início, um membro de um júri tem dois deveres. O primeiro é ser imparcial e o segundo é dar um veredicto. Não podemos ser neutros. É o maior fato da história do mundo ou o maior engano de todos os tempos. Não há meio termo. A questão mais importante no mundo é: "Cristo ressuscitou dos mortos?" Nossa pergunta original, "O que aconteceu com Jesus?" Ainda é válida. A fraude, o desmaio e a ilusão parecem ter sido descartados. A única resposta razoável é que o milagre da Ressurreição ocorreu. Na verdade, a evidência para isso é tão esmagadora que um ex-juiz chefe da Inglaterra, Lord Darling, disse uma vez:

"Nenhum jurado inteligente no mundo pode deixar de ter um veredicto de que a história da Ressurreição é verdadeira". 

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¹George Bernard Shaw (1856–1950) foi um teatrólogo Irlandês/Britânico famoso pelo seu ativismo e crítica políticos. Obras suas como Homem e super-homem, Pygmalion e Santa Joana construíram o imaginário Europeu sobre os acontecimentos políticos na 1ª e 2ª Guerras. Em 1925, recebeu o Nobel de Literatura.

²Publius Cornelius Tacitus (56-120 d.C.) foi senador e historiador do Império Romano. Do que chegou ao presente de seus trabalhos estão “A vida de Agricola” (98 d.C.), “A origem e o lugar da Germania” (98 d.C.), “Diálogos de oratória” (102 d.C.), “Histórias” (105 d.C.) e “Sobre os excessos do Divino Augusto” (117 d.C.). Essas duas últimas obras contam a história Romana desde a morte de Augusto (14 d.C.), filho de Júlio César que se auto-intitulou deus, até a Revolta dos Judeus (70 d.C), quando Roma passou por uma profunda crise política que terminou, inclusive, com a destruição de Jerusalém. Outros trabalhos de Tacitus, que não sobreviveram no original, foram copiados em partes por historiadores seguintes.

³Tiberius Caesar Divi Augusti Fīlius Augustus foi imperador de Roma de 14 a 37 d.C., sucedendo Augusto justamente no período em que Jesus viveu. Herodes Antipas, rei da Galiléia, construiu a cidade de Tiberíades nas margens do mar da Galiléia (na verdade um imenso lago) em sua homenagem. A construção da cidade foi a principal fonte de emprego de pedreiros e carpinteiros na região, por muitos anos.

*Titus Flavius Josephus nasceu com o nome Yosef ben Matityahu (37-100 d.C.), sendo Judeu de família nobre. Ele ficou conhecido por seu trabalho como historiador romano em Jerusalém, tendo escrito a maioria do que sabemos sobre os Judeus do seu tempo (os livros do Velho Testamento deixaram de ser produzidos desde a ocupação grega de Canaã, em 300 a.C.). Principalmente, Josephus registrou os conflitos relacionados ao surgimento do Cristianismo (aprox. 40 d.C.), o Grande Incêndio de Roma (64 d.C.) e a destruição de Jerusalém (70 d.C.). Seus principais trabalhos foram “A guerra dos Judeus” (75 d.C.), uma adaptação da obra “Contra Platão, sobre o Universo”, “Antiguidades dos Judeus” (94 d.C.), “Contra Apion” (97 d.C.) e “Autobiografia” (99 d.C.).

**Caixas de ossos: era costume entre os Judeus re-utilizarem os túmulos. Geralmente as pessoas eram enterradas envoltas em bandagens com resinas perfumadas, colocadas em cavidades naturais ou escavadas nas rochas que ficavam fora das cidades, depois seladas com uma pedra grande e cobertas com cal. Quando outro familiar morria, o túmulo era aberto e os ossos do antigo ocupante eram colocados em caixas de pedra ou cerâmica com inscrições feitas pela família, deixadas dentro da cova.

$ A descoberta foi feita por Eleazar Lipa Sukenik (1889-1953), numa escavação em Talpiot, Jerusalém, que encontrou tumbas do séc. 1 a.C. ao séc. 1 d.C. As inscrições nas caixas de ossos foram estudadas por muitos anos. Elas mostraram se tratar de uma abundância de pessoas usando o nome Jesus, naquela época. “Jesus, aquele que ressuscita”, como Sukenik interpretou inscrições que julgou equivalentes, mostrou serem diversas formas de escrever nomes próprios, referindo-se a Jesus filho de Judas e Jesus filho de Aloth, por exemplo. Apesar dos nomes, não havia outras evidências nas caixas revelando se tratar de uma comunidade Cristã como conhecemos. Ver Tekton e Truth-be-known.

% Paulo ou Saulo de Tarso (trata-se apenas de uma pronúncia diferente) era Judeu de família nobre, educado para ser Fariseu (guarda da lei e do Templo) entre os nobres Romanos. Seu conhecimento do grego, da filosofia e de autoridades Judias como Gamaliel mostram que se tratava de um membro da elite. Além disso, Paulo foi mandado a Damasco (Síria) como perseguidor romano dos Cristãos dotado de toda autoridade, ou seja, ele gozava de postos no governo imperial. No caminho, Paulo foi derrubado do cavalo por uma luz ofuscante, na qual conversou com Jesus e recebeu a missão de propagar Sua igreja para todos os povos.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Jesus naturalista

"Worlds without end", do artista Greg Olsen

Esse texto foi escrito sobre a base do belíssimo livro Celebrating the Wonder of Creation, de Martin R. De Haan II, RBC Ministries, 2004. Quando li a obra, antes mesmo que ela fosse organizada em um livro, teve um impacto profundo em mim. Recomendo a todos.

Hoje, faz parte da educação (em quase todo mundo) a noção de que somos responsáveis pela conservação do ambiente. Essa preocupação surge sobretudo porque a Natureza (personificando ela) sustenta e também vitimiza sobretudo as populações mais pobres: os danos ambientais se refletem na qualidade da água consumida, nos parasitas e toxinas a que as pessoas são expostas, nas terras que podem ser habitadas e cultivadas. Embora a religião seja uma forma de organizar como as pessoas interagem, em geral a relação dos homens com o ambiente é uma consequência e um foco secundários da religião. A participação Cristã nesse movimento, por exemplo, só começou após 19 séculos, com a Igreja Apostólica da Armênia plantando 100 hectares de floresta, baseada na necessidade de “cuidar da Criação”. Essa postura da Igreja Apostólica Armênia é mantida até hoje.

Uma força religiosa dentro do “Movimento Ambiental”, desde o final do séc. 20, foram os grupos New Age, que tentam recuperar elementos de crenças nativas (não Cristãs) das Américas e da Europa. Em especial, podemos citar a comunicação com espíritos ou entidades da Natureza que igualam homens, animais, plantas, etc e lembram, de alguma forma os cultos de Baal e Asherah na Canaã antiga (ver texto História do nome de Deus). Como resultado da luta Judaica contra esses cultos no séc. 7 a.C. e depois a luta Cristã contra os deuses celtas (associados a locais sagrados) no séc. 5 d.C., restou a imagem do cuidado ambiental sendo um culto pagão à Terra. Mas há uma diferença entre cuidar da Terra “porque ela é seu deus” e cuidar da Terra porque ela “pertence a Deus”. E tal diferença NÃO ESTÁ na forma como você trata a Terra, e sim a Deus. A Bíblia, claro, condena fortemente a 1ª prática, bastante comum nos tempos do Velho Testamento.

Porventura não sois filhos da transgressão, descendência da falsidade, que vos inflamais com os deuses debaixo de toda a árvore verde, e sacrificais os filhos nos ribeiros, nas fendas dos penhascos? (Isaías 57.4,5)

Volta, ó rebelde Israel … Somente reconhece a tua iniquidade, que transgrediste contra o Senhor teu Deus; e estendeste os teus caminhos aos estranhos, debaixo de toda a árvore verde, e não deste ouvidos à minha voz, diz o Senhor. (Jeremias 3.12,13)

De fato, à medida que o Catolicismo marcou a cultura medieval Européia entre os sécs. 4 e 10 d.C., a Natureza tornou-se um representante de Satã, uma tentação sensorial aos homens para afastá-los da espiritualidade. Florestas, lobos, corujas e corvos foram mencionados muitas vezes como imagens do demônio, na literatura da Idade Média. Basta lembrar as lendas e fábulas Européias. A Natureza era vista como maldita desde a queda do homem (Gênesis 3.17) e seu uso era utilitário, ou seja, para satisfazer os desejos dos homens.

No séc. 21, entretanto, as evidências de sofrimento humano associado com danos ambientais fez grupos Cristãos se filiaram ao movimento ambientalista, o que foi chamado de “Esverdeamento dos Evangélicos” e também causou grandes divisões entre os Cristãos. Alguns abraçaram a missão de cuidar da Criação, outros negaram até mesmo a interferência humana nas transformações climáticas recentes, pois estas seriam obras de Deus.

Raízes da repulsão ao cuidado ambiental

No VT, árvores eram sinais de segurança e fertilidade da terra. Por diversas vezes as nações são equiparadas a árvores que crescem ou caem, grandes ou pequenas, com animais abaixo de si ou pássaros em seus galhos. E o destino de tais árvores inequivocadamente pertence a Deus. Apesar disso, o VT também deixa claro que a função das árvores é servir aos propósitos dos homens:

Quando sitiares uma cidade por muitos dias, pelejando contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo, colocando nele o machado, porque dele comerás; pois que não o cortarás (pois o arvoredo do campo é mantimento para o homem), para empregar no cerco. Mas as árvores que souberes que não são árvores de alimento, destruí-las-ás e cortá-las-ás; e contra a cidade que guerrear contra ti edificarás baluartes, até que esta seja vencida. (Deuteronômio 20.19,20)

Ao mesmo tempo, o texto bíblico dá a entender que tudo que é vivo sobre Terra, ligado ao homem ou não, depende de Sua bênção:

Não temas, ó terra: regozija-te e alegra-te, porque o Senhor fez grandes coisas. Não temais, animais do campo, porque os pastos do deserto reverdecerão, porque o arvoredo dará o seu fruto, a vide e a figueira darão a sua força. E vós, filhos de Sião, regozijai-vos e alegrai-vos no Senhor vosso Deus, porque ele vos dará em justa medida a chuva temporã; fará descer a chuva no primeiro mês, a temporã e a serôdia. E as eiras se encherão de trigo, e os lagares transbordarão de mosto e de azeite. (Joel 2.21-24)

Preocupações religiosas com a terra

É muito discutível se podemos chamar plantações de Natureza, mesmo sendo plantações de árvores. Mas certamente todos os povos que dependiam de plantações pediram a benção de seus deuses sobre a produção agrícola. Os romanos faziam isso pedindo a Robigus proteção contra as pragas do trigo. Na mesma data de início da Primavera, no séc. 5, os Cristãos de Roma implantaram os "dias de rogação", com peregrinações por entre as lavouras para pedir a benção de Deus sobre as culturas e agradecendo a Ele por Sua provisão. Esta prática foi comum na América do Norte até o século 19.

Só bem recentemente os homens estenderam sua preocupação às terras não plantadas. Em seu ensaio "A idéia de uma sociedade Cristã” (1939), T. S. Eliot¹ escreveu: "Uma atitude errada em relação à Natureza implica, em algum lugar, uma atitude errada em relação a Deus". No caso do ambiente bíblico, as terras de Jerusalém secaram consideravelmente desde os tempos de Davi (1000 a.C.) pela elevação geológica do terreno, mas também pelo retiro de madeiras durante as batalhas em Canaã. Os montes provedores de pinheiros próximos a Tiro e Sidom foram muito desmatados pelos Fenícios e mais ainda pelos Gregos. Por isso, não há como negar que houve, entre o Velho e o Novo Testamentos, um dano grande à Natureza, que não é de forma alguma abordado na Bíblia. A observação de danos ambientais aparentemente nunca surgiu entre os Judeus, Gregos e Romanos, ainda que uma leitura dos textos bíblicos torne claro que tal devastação seria perceptível ao homem moderno.

Por exemplo, os carvalhos mencionados em Gênesis 12.6 não são mais citados depois, assim como a floresta ao norte de Jerusalém nos tempos de Davi (2ª Samuel 18.6) e os bosques frondosos a que Isaías e Ezequiel se referem. No Novo Testamento, as únicas árvores silvestres mencionadas são os sicômoros/figueiras à beira das estradas. Nenhum bosque natural ou floresta é mencionado.

Questionamentos

Se pensarmos que a deterioração do ambiente leva ao empobrecimento dos solos, escassez de alimentos e piora na qualidade da água, o homem moderno poderia se preocupar com isso, e não os moradores de Canaã nos tempos bíblicos, mas e quanto a Deus? Teria Ele se ofendido tanto com o culto de Asherah que fechara os olhos para o Seu povo destruindo Sua obra impune- ou inconscientemente, com prejuízo para as próprias gerações futuras?

O célebre mandamento “Amai ao teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 19.19, Marcos 12.31, Lucas 10.27, não tem em João) poderia, dado o que sabemos hoje sobre a interação entre as pessoas e o ambiente, incluir a preservação ambiental. Talvez a preservação da Natureza fosse até um ponto importante desse mandamento. Mas, ao mesmo tempo, o Apocalipse de João fala sobre a destruição desse mundo e sua substituição por outro, melhor, onde os filhos de Deus viverão (Apocalipse 21.1). Logo seria gentil, mas não necessário, nos preocuparmos com o ambiente.

Pela mesma palavra [de Deus] os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios … Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada … Naquele dia os céus serão desfeitos pelo fogo, e os elementos se derreterão pelo calor. (2ª Pedro 3.7-12)

Isentando a Bíblia

Em outras palavras, a Bíblia não traz instruções, não aprova nem desaprova objetivamente investir esforços para preservar o ambiente, apesar das implicações sérias na vida das pessoas. Algumas interpretações simples disso seriam (1) Deus ignora as interações entre ambiente e pessoas; (2) Deus não interfere ou não se importa com o que fazemos uns aos outros; (3) os autores bíblicos nunca lidaram com problemas ambientais; (4) não importa conservar ou não, mas como isso é feito.

A primeira afirmação é facilmente contestada por passagens do Êxodo onde Deus conduz Seu povo para uma terra cuidada por Ele mesmo e Moisés institui regras que são descaradamente medidas sanitárias (ex. não consumir a carne de certos animais vetores de parasitoses, sepultar os mortos longe do acampamento, banhos de purificação, etc).

A segunda afirmação bate diretamente contra o caráter legislativo de vários livros do Velho e Novo Testamentos, às vezes super-valorizado pelas Igrejas Protestantes de hoje, como eram pelos Fariseus e Saduceus.

Quanto à terceira afirmação, o VT associa pestes, fome, sede, etc com punições divinas (por ex. as que foram invocadas sobre o Egito e sobre Jerusalém), não indagando qualquer causa humana para elas. No NT, centrado no mundo Romano, uma das poucas fomes na Judéia anotadas (ver Atos 11.28-30) se deu em 45-46 d.C., no curto reinado de Claudius. Ao invés de indagar causas, o texto bíblico apresenta reações da Igreja. Essa visão “anterógrada” do NT (isto é, do acontecimento para frente) também norteia a quarta afirmação, onde importam as escolhas feitas nas ocasiões de calamidades, não o que gerou elas. Tal mudança (observar respostas ao invés de causas) tem a ver com a vinculação dos textos bíblicos primeiro à realeza Judaica (de forma que os governantes eram responsáveis/causadores dos problemas ambientais) e depois a um grupo submisso, os Cristãos, vítima das decisões Romanas nas quais não tinha participação.

O texto bíblico, quando muito, vê as catástrofes ambientais como ferramentas de Deus para punir o Seu povo, excluindo por completo a participação humana (ex. exploração excessiva de recursos, superpopulação, má higiene, mal uso do solo, etc). A responsabilização das pessoas pelo ambiente, na Bíblia, simplesmente não existe. Ela está substituída por uma responsabilidade humana quanto ao culto correto/nacional de Deus, enquanto o próprio Senhor organiza o que chamamos de Natureza. Para os povos pagãos (ex. Cananeus, para não ir muito longe), a Natureza era uma manifestação viva de seus deuses, de forma que a ação religiosa e o cuidado ambiental eram quase a mesma coisa. Não impressiona a preocupação com áreas naturais ter nascido dentro do Paganismo e dentro do Cientificismo (séc. 18), mas não no Cristianismo.

Extrapolando as Escrituras

Não só o Cristianismo, mas também o Islamismo deixa de conter em suas Escrituras mais fundamentais a semente de uma ação ambiental. Apesar disso, num e noutro parece que os ideais partilhados foram além das Escrituras.

E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa. Se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes. ... Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5.40-44)

E, vendo Jesus que ele [o jovem rico] ficara muito triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! (Lucas 18.24)

E [os Cristãos] perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. (Atos 2.42)

O ideal de vida simples e comum, longe de riquezas, aparece desde escritos pós-bíblicos muito antigos, como o Pastor de Hermas. Nesse livro, é desenvolvida a idéia de que Deus ouve somente aos pobres. No séc. 4, o conceito de simplicidade e do luxo como inimigo da fé foi aperfeiçoado por Santo Agostinho e norteou o modo de vida ao longo de toda Idade Média. Esse ideal de “dividir, ter somente o necessário”, embora não claramente ligado à proteção ambiental, se vincula a ela pelo fato de que as grandes devastações, mesmo na Antigüidade, estiveram ligadas à cobiça por poder ou riquezas. Essa exploração desnecessária do ambiente é movida pelos ricos/poderosos no sentido de obter mais do que lhes é necessário e pelos pobres no sentido de compensar o que lhes é tirado pelos ricos, conforme defendido por Richard Foltz, estudioso de cultura do Oriente Médio.

Desse modo, ao minar tanto a distinção de classes quanto o enriquecimento, a prática Cristã (e entendamos isso fora da Igreja) favoreceu indiretamente a conservação ambiental. O mesmo ocorreu no Islã: embora o al-Quran não aborde diretamente o tema, também os ensinos de Maomé revelam uma preocupação com sustentabilidade, qualidade de vida e respeito pela Criação. Nos Hadiths, ou ensinamentos do Profeta, há instruções sobre não jogar excrementos nas águas, não permitir que animais o façam, não desperdiçar água mesmo para purificações rituais, manter a fertilidades dos solos, substituir cada árvore velha derrubada por uma nova, etc. Apesar da base ambientalista mais aprimorada que os Cristãos, que assistiram a depredação da paisagem bíblica, os Islâmicos também participaram na devastação das Cruzadas e, recentemente, assistiram o desaparecimento do mar de Aral (Cazaquistão / Uzbequistão) pelo desvio de rios, a desertificação na África sub-saariana pela retirada de florestas, a queima dos depósitos de petróleo no Oriente Médio, a destruição das florestas na Indonésia e Malásia, além do bombeamento de água subterrânea para agricultura na Arábia Saudita, o que resultou em progressiva salinização do solo. Em outras palavras, nem o Cristianismo ou o Islamismo tiveram atuação ambiental significativa. Quanto a outras religiões, como Induísmo e Budismo, não encontramos uma história de reservação diferente. Aparentemente, somente as tradições pagãs (em sua maioria desaparecidas) foram significativas em proteger os recursos naturais.

No séc. 13, em plena Idade Média, uma contribuição ao ambientalismo Cristão foi dada por Giovanni di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis. Após iniciar um movimento de pregação entre os leprosos e os mais pobres da região de Assis, na Itália, ele desenvolveu uma liturgia baseada na irmandade de toda Criação - homens, plantas e animais - perante Deus, o que dava um novo sentido ao “dominar” do texto de Gênesis. Além disso, a imagem e semelhança de Deus deveria cuidar, e não explorar os demais seres. Apesar de não ser uma prática Cristã até a atualidade, não é difícil entender a inspiração de Francisco:

Então disse Deus: "Cubra-se a terra de vegetação: plantas que dêem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies". E assim foi. … Deus fez os animais selvagens de acordo com as suas espécies, os rebanhos domésticos de acordo com as suas espécies, e os demais seres vivos da terra de acordo com as suas espécies. E Deus viu que ficou bom. Então disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão". Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gênesis 1.25-27)



Tudo o que tem vida louve o Senhor! (Salmo 150.6)

É a partir da grandeza e da beleza das criaturas que, por analogia, se conhece o seu autor. (Sabedoria 13.5)

Seu é tudo o que existe nos céus e na terra; e todos quanto se acham em Sua Presença, não se ensoberbecem em adorá-Lo, nem se enfadam disso. Glorificam-No noite e dia, e não ficam exaustos. (Sura 21.19-20)

[Pedro] Olhei para dentro dele e notei que havia ali quadrúpedes da terra, animais selvagens, répteis e aves do céu. … A voz falou do céu segunda vez: ‘Não chame impuro ao que Deus purificou’. (Atos 11.6-9)

Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas. (Romanos 1.20)

A percepção de Deus através da Criação certamente impõe uma restrição ao uso utilitário dos recursos naturais. Essa percepção aparece sutilmente no Judaísmo, no Islamismo e apareceu no modo simplório dos Benedictinos (séc. 6 d.C.). Como regra, os Benedictinos organizaram a vida medieval sobre um sentido de humildade que refreou bastante a exploração ambiental característica dos tempos Romanos. Francisco foi educado dentro dessa visão.

Grande parte da influência dele sobre o Cristianismo (ele é, no Catolicismo, a 3ª figura mais reverenciada, depois de Maria e Jesus) se deu a partir da popular obra Fioretti (Pequenas flores), de Frei Ugolino Brunforte, no final do séc. 14. A obra apresenta 53 pequenas lendas/estórias sobre a vida de Francisco, muitas das quais envolvem milagres como desafiar e amansar um lobo perigoso. Essa coleção de textos resgatou uma ligação religiosa entre o homem e a Natureza na época, permitindo um vislumbre de ambientalismo enquanto as florestas da Europa e do Oriente Médio eram derrubadas pela nascente nobreza. Francisco também absorveu valores do contato com o Islã nos reinos Mouros e nas terras envolvidas nas Cruzadas. Mas sua influência foi limitada pelo seu tempo: muitos historiadores vêem Francisco, Anselmo de Canterbury² (séc. 11), Hugh de Lincoln³ (sec. 12) e Ramon Lull* (séc. 13) como mentes libertas do pensamento medieval.

Hoje, os Cristãos envolvidos com movimentos ambientais reforçam o fato de que Deus apreciou Sua criação mesmo antes de fazer os humanos e, portanto, a Criação é valiosa a Deus mesmo sem o homem. Outro argumento está na legislação Mosaica sobre a terra não poder ser vendida em absoluto, pois não pertence ao homem (Levíticos 25.23). De forma análoga à maldição sobre a terra por causa de Adão, em diversas ocasiões Deus arrasou a terra para punir os homens e, assim, o destino de um e outro estariam ligados. Infelizmente, mesmo quando vemos pessoas poderosas se filiando ao Cristianismo, não vemos a adesão delas no sentido de reverter sequer explorações trabalhistas (isto é, de humanos sobre humanos), quanto mais de reverter explorações ambientais. Isso significa mais ou menos que o Cristianismo aceita inimigos da filosofia Cristã (que não é claramente ambientalista), ao invés de moldá-los.Tal cisão entre a filosofia e a prática Cristãs não é diferente noutras religiões, exceto as mais pagãs.

Compartilharemos o mundo com as gerações futuras

Guardai e buscai todos os mandamentos do Senhor vosso Deus, para que possuais esta boa terra, e a façais herdar a vossos filhos depois de vós, para sempre. (1ª Crônicas 28.8)

Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel. (1ª Timóteo 5.8)

Na década de 1980, costumava-se chamar a geração mais nova de "Geração do Eu" ou "Geração do agora". Via-se uma atitude perturbadora entre os jovens que, em essência, era "Eu quero tudo, e quero agora". Considerando a ganância e o materialismo que a geração mais jovem viu nos adultos do anos 1980, as milhares de horas de exposição ao consumismo, a perda de interesse na história, a desintegração dos valores familiares e religiosos, é compreensível que eles se caracterizem pelo Egocentrismo. Isto é, uma preocupação maior com o Eu do que com o restante do mundo.

Contraste isso com o que chamamos Altruísmo - a preocupação com o bem-estar dos outros. Quando os valores de fé em um Deus eterno, compaixão pelos outros, auto-sacrifício e a esperança no futuro desaparecem da cultura geral, há poucas chances de que o Altruísmo sobreviva. Na verdade, a maioria das pessoas hoje provavelmente teria dificuldade em até mesmo definir o termo Altruísmo sem enviesar para uma auto-proteção.

Como as passagens das Escrituras acima indicam, deve haver uma preocupação Cristã quanto a prover seus filhos e deixar para eles uma herança de fé e boa terra. O filósofo-fazendeiro Cristão, Wendell Berry, um consagrado escritor e ambientalista norte-americano, escreveu uma série de livros que ressaltam o amplo significado da terra, animais, vizinhos e familiares na comunidade. Seu trabalho é devotado à manutenção auto-sustentável das pequenas comunidades. Em vários livros e artigos, ele questiona o desdém que as pessoas tiveram e têm com suas terras e os prejuízos que isso trouxe a elas mesmas, bem longe do serviço de mordomos da Criação. Estas palavras do livro "Para que existem as pessoas?" fazem pensar com mais cuidado no nosso legado:

Não precisamos criar um "mundo do futuro". Se cuidarmos o mundo do presente, o futuro receberá nossa justiça completa. Um bom futuro está implícito nos solos, florestas, pastagens, pântanos, desertos, montanhas, rios, lagos e oceanos que temos agora. A única "futurologia" válida disponível para nós é cuidar dessas coisas. Não precisamos inventar o "futuro da raça humana"; temos a mesma necessidade que sempre tivemos - amar, cuidar e ensinar nossos filhos.

Em “Unsettling of America”, Berry diferencia “exploradores” de “cuidadores”: os primeiros usam a terra e se mudam atrás de novos recursos, enquanto os segundos entendem cada lugar como sua casa, onde um equilíbrio precisa ser mantido. E ele alerta que os primeiros ainda predaram os segundos em toda história, sob o impulso colonialista e capitalista. Em outro livro, "Another turn of the crank", ele escreve:

Não sei de nada que questione tão fortemente a nossa capacidade de cuidar do mundo como nossos atuais abusos. Como podemos cuidar de outras criaturas, nascidas como nós, se abandonarmos as qualidades de cultura e caráter que formam as crianças? Seja qual for o motivo, estamos conduzindo uma espécie de guerra contra elas. Estão sendo abortadas ou abandonadas, abusadas, drogadas, bombardeadas, negligenciadas, mal criadas, mal alimentadas, mal treinadas e mal disciplinadas. Muitos deles não encontrarão nenhum trabalho digno, ou nenhum trabalho de qualquer tipo. Herdarão um mundo diminuído, doente e envenenado. Nós jogamos sobre eles não apenas nossos pecados, mas nossas dívidas. Nós criamos ante eles milhares de maus exemplos - governamentais, industriais e recreativos - sugerindo que o caminho violento é o melhor caminho. E então temos a hipocrisia de ser surpreendidos quando eles carregam armas e usam elas.

Eu gostaria de pensar que ele descreveu não-cristãos. Mas como dito acima, a Bíblia é sutil o suficiente em sua pregação ambiental para que poucas mentes tenham visto essa mensagem e menos ainda a tenham a posto em prática. Tenho medo de ver muitos desses comportamentos e atitudes entre nós. Estamos muito longe de ser a comunidade que protege o presente e assegura o futuro, indiferentes a Deus ou certos de que Ele nos deu toda a Criação para usufruirmos irresponsavelmente. Enquanto vigiamos o retorno de Cristo em qualquer momento, não podemos nos desculpar do dever de entregar a Criação de Deus a nossos filhos. E numa forma capaz de prover-lhes o mesmo que deu para nós.

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¹ Thomas Stearns Eliot (1888-1965) foi um dos maiores poetas modernos da língua inglesa, desde sua mocidade. Após sua conversão ao Cristianismo, ele produziu trabalhos de profundo intimismo e análise das relações entre as pessoas e os lugares onde vivem.

² Anselmo de Canterbury (Inglaterra), Anselmo d’Aosta (Itália) ou Anselme du Bec (França) foi um filósofo Cristão muito atuante na política medieval. Seus trabalhos sobre a natureza de Deus misturavam as lógicas de Aristóteles e de Santo Agostinho, sendo precursores da Reforma Protestante no que se refere à Graça como favor imerecido. Ele não foi propriamente um ambientalista, mas deu significação religiosa ao ambiente quando usou fartamente imagens da Natureza para seu raciocínio, tomando como exemplos peixes, moinhos, gado, etc, assim como castelos, servos e coroas.

³ Hugh bispo de Lincoln ficou famoso, na Idade Média, por desafiar o rei da Inglaterra e cuidar das populações mais desfavorecidas, como leprosos e Judeus, ao invés de endossar guerras. Também não se tratava de um ambientalista, mas suas medidas de proteção aos pobres resgataram valores Cristãos havia muito estavam esquecidos, de forma a preservar áreas onde as populações mais carentes habitavam.

* Ramon Lull ficou famoso por sua argumentação Cristã e pacifista junto aos Islâmicos, na Idade Média. Ao mesmo tempo, ele levou para a Europa diversos valores Islâmicos como o cuidado de áreas naturais, pois se tratavam de presentes de Deus aos homens.

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Escritos sem papel
  1. Altman N, Sacred water: the spiritual source of life, cap. 2, ed. Hiddensping, 2002.
  2. Any mentions of Environmental protection in Bible?, Christianity Stack Exchange, 2013.
  3. Berry W, Another Turn of the Crank: Essays, cap. “Conserving forest communities”, Counterpoint Press, 2011
  4. Berry W, The unsettling of America, Ed. Counterpoint, 1977.
  5. Carr S, Anselm of Canterbury - a writer to discover, Placefortruth.org
  6. Christian views on environmentalism - wikipedia
  7. Chuvieco E, Religious approaches to water management and environmental conservation. Water policy, 14(S1), 9-20, 2012.
  8. Eliot TS, The idea of a Christian society, 1939.
  9. Francis of Assisi - wikipedia
  10. Goldberg GJ, New Testament parallels to the works of Josephus, The Flavius Josephus home page.
  11. Haan MR, Celebrating the Wonder of Creation, RBC Ministries, 2004.
  12. Harden B, The greening of Evangelicals, Washington Post, 6 fev 2005.
  13. Hermas, Pastor de Hermas.
  14. Kula E, Islam and environmental conservation. Environmental Conservation, 28(1), 1-9, 2001.
  15. Mahoney K, Bible Verses About Protecting the Environment, ThoughtCo., 2017.
  16. Oosthoek KJ, The Role of Wood in World History, Environmental history resources, 1998.
  17. Sorrell RD, St. Francis of Assisi and Nature: tradition and innovation in Western Christian attitudes toward the environment, Introduction, Oxford University Press, 1988.
  18. St. Hugh Of Lincoln, The Oxford Companion to British History, 2002.
  19. The famine which took place in the reign of Claudius, Church History - Eusebius Pamphilius, Biblehub.com
  20. Ugolino B, Little flowers of St. Francis of Assisi (Fioretti), séc. 14.

sábado, 23 de dezembro de 2017

O Cristianismo negro - 1ª parte

No mapa da esquerda, a cor verde mostra áreas Islâmicas (verde mais intenso = percentual maior da população sendo Islâmica) e a cor azul mostra áreas Cristãs da África. Estão em branco as áreas de maioria com religiões tibais/tradicionais. São nomeados os principais rios do continente. Kush: uma das rainhas Candace e sacerdotes; Cartago: o grande porto da cidade; Alexandria: a grande biblioteca; Axum: cena do evangelho de Abba Guerima; Faras: um bispo e a figura de São Pedro (clara), seu patrono.

Um discurso muito tradicional a respeito dos negros, especialmente no Brasil, se refere, no campo religioso, às tradições do Candomblé e até mesmo da Umbanda. Fala-se do Candomblé como uma religião Africana mãe (esquecendo a pluralidade de culturas do continente Africano). Por isso, ao resgatar suas bases históricas, os negros brasileiros quase inevitavelmente recaem sobre o Candomblé como símbolo de identidade. Muito raramente se fala (e de fato isso não é ensinado, pelo menos no Brasil) o quanto os negros de todo mundo, mas especialmente da África e dos Estados Unidos, contribuíram para o curso histórico do Cristianismo e do Islã. Aqui, tentarei reunir brevemente algum material sobre essa participação crucial dos negros no Cristianismo, deixando outros debates (não menos importantes) para outras ocasiões.

Em primeiro lugar, tendemos a associar a identidade negra com a África. Isso é quase uma verdade. Embora de maioria negra com etnias variadas (ex. Zulu no sul, Somali no extremo leste, Niger no norte, ao sul da Espanha, Bantu na região do rio Congo, Sudanês na região do Mar Vermelho, etc), a África também é habitada por povos brancos. A foz do rio Nilo sempre foi uma região muito farta em caça, pesca e agricultura. Por isso, muitos povos das vizinhanças da África tentaram e conseguiram se fixar na região, em especial os Semitas (Cananeus, Hebreus, Persas, etc) e os Gregos. Por isso as terras baixas do Sinai e do Egito são até hoje habitadas por povos “de pele clara”. Uma referência à aparência clara e bronzeada de sol dos povos Semitas pode ser vista no livro de Cânticos (Cânticos 1.5,65.10,11).

Afastando-se da foz do Nilo, prevalecem os povos negros. E então vemos o continente africano também dividido por grandes desertos, demarcando regiões como Norte (faixa costeira junto ao Atlântico e Mediterrâneo, ao norte das montanhas Atlas), Nilo (extremo nordeste), Etiópia (extremo leste), Sudeste (planícies dos rios Zambezi, Limpopo e Orange) e as grandes planícies dos rios Congo e Niger (ao sul do Saara). Cada uma dessas 6 regiões se desenvolveu mais ou menos isoladamente.

Costa norte, Nilo e Etiópia

A região do Nilo (formalmente Egito, na parte baixa, e Núbia, na parte montanhosa) foi uma das primeiras a avançar cultural e tecnologicamente em todo mundo. Pelo menos a partir de 2000 a.C. já existiam governos locais submissos a pelo menos um governo central, chamados Baixo Egito e Alto Egito (Núbia). Entre os grandes faraós, houve sucessões de famílias reais brancas (do Baixo Egito) e negras (do Alto Egito). O que mais conhecemos do Egito dos faraós corresponde ao tempo em que o Alto Egito expulsou os Semitas, tornou-se dominante e estendeu seu poder político até Canaã. É bem provável que a esposa Egípcia de Salomão (em aprox. 1000 a.C.) fosse uma princesa Núbia.

Por volta de 600 a.C., os Gregos fundaram a cidade de Cirene, no norte da África, atual Líbia. Em 300 a.C., liderados por Alexandre (o Grande), conquistaram Canaã e depois o Egito. Começa nessa época o Período Intertestamentário (entre o Velho e o Novo Testamentos) dos quais a Bíblia Católica guarda registro, mas não a Bíblia Protestante. Foram anos de dominação descritos nos vários livros dos Macabeus (alguns dos quais são apócrifos), que contam sobre movimentos religiosos e políticos numa Israel controlada por estrangeiros. Como os textos da Torá são vinculados à realeza Judaica, vários desses textos nunca foram reconhecidos. No Egito em especial, a cidade portuária de Alexandria se tornou um símbolo de desenvolvimento urbano, sendo elogiada em quase todos os livros da Antiguidade (ainda mais porque são livros gregos).

Muitos Judeus foram transferidos de Canaã para Cirene, para formarem um posto de defesa da região Norte, sobretudo contra os Romanos. Séculos mais tarde, Cirene iria liderar a difusão do Cristianismo na costa norte.

Outra jóia da região Norte foi a cidade de Cartago, fundada por navegadores Fenícios (os habitantes cananeus das famosas cidades comerciantes de Tiro e Sidom). Quando Alexandre invadiu a Fenícia, os ricos comerciantes de Tiro mudaram-se para Cartago, que cresceu até ser o pior oponente de Roma: um de seus príncipes, Hannibal Barca, liderou um exército de elefantes em 218 a.C. desde o norte da África até a Espanha e daí, por detrás dos Alpes (imagine elefantes caminhando pelas montanhas nevadas), para atacar Roma pelo norte. Além disso, Cartago desenvolveu o posto marítimo mais avançado da antiguidade, tornando-se um polo de desenvolvimento urbano. Em 146 a.C., Roma atingiu seu poder máximo quando finalmente derrotou Cartago. Apesar disso, logo Cartago se tornou uma metrópole romana no norte da África, e viria a ser um dos propagadores do Cristianismo.

No séc. 4 d.C., a Cartago Cristã produziu um de seus maiores legados. Aurelius Augustinus de Thagaste (tanto seu nome Aurelius, como de sua mãe, Mônica, são nomes das tribos Bérberes). Ele  seria o futuro bispo de Hippona Regia, tendo estudado e começado seus trabalhos em Cartago. De lá, ele se tornou um dos teólogos mais influentes do Cristianismo Romano. Santo Agostinho, como viria ser chamado, defendeu a composição do homem como um ser de natureza espiritual e mortal, onde uma e outra teriam se tornado inimigas após o pecado de Adão. Agostinho foi um grande inimigo do aborto induzido pois, além do assassinato, tal prática favoreceria a natureza mortal/pecaminosa do homem. Em seus livros “Confissões” e “Cidade de Deus”, ele apresenta primeiro a natureza vil do homem e, depois, coloca a Graça como a única forma (e não dependente do homem) de contornar tal natureza. Isso o colocou contra figuras importantes do seu tempo como Pellagio, os Donatistas (para quem os sacramentos eram criações divinas poluídas pelos homens) e os Coptas, para quem Jesus tinha uma natureza completamente distinta dos homens. Agostinho foi, sem dúvida, a origem da vida simples e devota dos monges característicos da Idade Média, além de embasar parte da Reforma Protestante no séc. 16. O próprio Martinho Lutero foi um monge eremita Agostiniano.

Norte “branco” da África

Quando Jesus nasceu e o Cristianismo teve seu início, Alexandria (então comandada pelos Romanos) era um dos centros intelectuais do mundo, graças a sua famosa biblioteca. Após a morte de Jesus, o apóstolo João Marcos seguiu para lá, fundando o 1º centro Cristão na África. Aproveitando as estradas romanas para enviar evangelistas, em 150 anos Alexandria se tornou o centro de uma Diocese Católica no norte da África contando com cerca de 400 comunidades. Cartago e Cirene rapidamente se uniram ao Cristianismo, como oposição ao domínio Romano. O livro de Atos nos conta sobre os Cireneus ouvindo a pregação do Evangelho:

E constrangeram um certo Simão, Cireneu, pai de Alexandre e de Rufo, que por ali passava, vindo do campo, a que levasse a cruz. (Marcos 15.21)

E havia entre eles alguns homens Chíprios e Cireneus, os quais entrando em Antioquia falaram aos Gregos, anunciando o Senhor Jesus. E a mão do Senhor era com eles. (Atos 11.20,21)

E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão, o negro, Lúcio Cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo. (Atos 13.1)

Quando a perseguição aos Cristãos se intensificou após uma revolta dos Judeus em 115 d.C., muitos líderes de Alexandria fugiram para Cartago e Cirene. Um dos mártires associados a essa perseguição foi Perpétua, uma jovem nobre de Cartago que, recusando-se a adorar os deuses romanos, foi presa e torturada até a morte na arena da cidade em 211 d.C. Em pouco tempo, as tribos Bérberes e negras do norte da África, que comandavam a região da Tunísia até o Marrocos, haviam aderido ao Cristianismo. Além disso, dada a forma como o Cristianismo se desenvolveu no norte da Europa (isto é, desvinculado de uma autoridade central), muitos historiadores acreditam que os 1os catequizadores partiram de Alexandria.

Norte negro da África

As primeiras referências à África Negra aparecem com Moisés tendo uma esposa cuxita (Números 12.1) e Salomão sendo visitado pela rica rainha de Sabá (1ª Reis 10.1). Sabá era a capital da Núbia, reino montanhoso nas terras mais altas do Nilo. Após a decadência do Novo Império (séc. 8 a.C.), os Núbios fundaram 25a dinastia do Egito, elevando Sabá a capital de um imenso império. Não por acaso, a palavra Egípcia para ouro é “nub”. Por volta de 520 a.C., o poderoso rei persa Cambises II/Xerxes, protagonista das estórias de Heródoto, havia invadido o Baixo Egito para reclamar a herança de sua mãe, uma princesa Egípcia. Cambises partiu dali para invadir a Núbia, mas foi repelido violentamente.

Cambises instruiu-os [seus emissários] sobre o que deviam fazer na Etiópia, enviando-os para lá com presentes ao rei: um traje de púrpura, um colar de ouro, braceletes, um vaso de alabastro cheio de essência e um barril de vinho de palmeira. … [O rei Etíope respondeu] “Levai a ele este arco de minha parte e dizei-lhe que o rei da Etiópia o aconselha a vir fazer-lhe guerra com forças bem numerosas e quando os Persas puderem vergar um arco igual a este, tão facilmente como ele … Continuando, perguntou-lhes como se alimentava o rei dos Persas e qual a idade mais longa entre eles. Os espiões responderam que o alimento básico do rei era o pão e esclareceram-no sobre a natureza do fermento. Acrescentaram que a idade mais avançada entre os Persas era de 80 anos, ao que ele retrucou não admirar que homens que se alimentavam de esterco vivessem tão pouco … Respondeu ele que a maioria [dos Etíopes] chegava a 120 anos, atingindo alguns idade mais avançada; que se alimentavam de carne cozida, sendo o leite sua principal bebida. … Conduziu os emissários à prisão. Todos os presos estavam agrilhoados com correntes de ouro, pois, entre os Etíopes, o mais raro e mais precioso de todos os metais é o cobre. (Heródoto, História, Tália XX a XXIII)

Apesar da derrota, Xerxes re-nomeou a capital com o nome de sua irmã, Meroe, e tal nome foi aceito como tratado de paz pelos Kushitas/Núbios. O reino de Kush era possivelmente politeísta, mas foi apontado como Judeu por vários historiadores antigos. Tal reino subsistiu até o séc. 4 d.C., mantendo relações de tolerância limitada com o Baixo Egito dominado pelos gregos e depois pelos romanos.

Kush/Meroe

Logo após a morte de Jesus, encontramos um nobre Núbio (ou Etíope, segundo a denominação grega) abraçando o Cristianismo:

E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem Etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos Etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, tinha ido a Jerusalém para adoração. Ele regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías. (Atos 8:26-28)

Tratava-se de um nobre seguidor do Judaísmo, possivelmente convertido a partir dos profetas e pregadores de Alexandria. Aqui, Candace não é um nome próprio, mas um título das rainhas do reino de Kush/Núbia/Etiópia (a denominação varia de acordo com quem escreveu os relatos sobre tal reino). Nos tempos de Atos, devia se tratar da rainha Amantitere (22-41 d.C.). Embora Kush/Núbia fosse um reino extremamente rico pelo seu ouro e fabricação das melhores armas do mundo antigo, o comércio de Alexandria com a Índia lentamente suplantou o comércio de Alexandria com a Grécia, o que empobreceu Kush e enriqueceu seus vizinhos mercadores navais, o reino negro de Axum, nas bordas do Mar Vermelho.

Reinos negros a leste do Nilo

Imitando o acontecido entre Filipe e o eunuco, em 333 d.C. o rei Ezana de Axum foi batizado Cristão por um de seus serviçais, que havia crescido junto com ele. Esse serviçal, Frumentius, foi consagrado bispo de Axum/Etiópia. No mesmo ano, Kush  foi invadido e anexado ao reino de Axum, formando um contínuo Cristão que se estendia, agora, por uns 10 000 Km de oeste a leste, desde a costa norte do Marrocos, circundando o Saara, até Cirene, Cartago, a diocese em Alexandria e agora a grande Axum, que ia do litoral leste até a nascente do Nilo.

Seguindo a conversão de Axum, ao longo do séc. 6, enquanto Roma se fragmentava e as estórias de Arthur e seus cavaleiros eram escritas, cada vez mais reinos negros ao sul do Egito, em direção à nascente do Nilo, se uniram ao Cristianismo: Nobadia (543 d.C.), Makuria (567 d.C.) e Alodia (580 d.C.). Tais reinos nasceram na margem leste do Nilo, a partir de povoados antes dominados pelos Kushitas. A primeira tradução da Bíblia grega foi feita no séc. 6, justamente para a língua Ge'ez, falada na Núbia e Axum.

A diocese de Roma era importuna ao ditar normas para o Cristianismo, mas era útil por repelir militarmente os “inimigos de Cristo”. Após um período de empobrecimento (com a riqueza agora indo para a diocese de Constantinopla), em 480 d.C. Roma finalmente caiu vítima dos povos Germânicos e Góticos (norte-africanos) que controlava. Embora um novo poder Cristão já estivesse em atividade na cidade/porto de Constantinopla, a fragmentação de Roma abriu caminho para um poderoso inimigo do Cristianismo: o Islã.

Chegada do Islã

Os povos Persas começaram a se unir ao Islã em 630 d.C., nas cidades sagradas de Meca e Medina. Em menos de 10 anos, toda Arábia estava convertida ao Islamismo. Até 650 d.C., o Islã havia chegado ao Egito. Quando finalmente Alexandria foi tomada e o patriarca Copta aprisionado, muitos líderes Cristãos fugiram para Cartago e os reinos Núbios. Apesar da tensões iniciais, a igreja Copta pôde se manter em Alexandria, com uma certa submissão e controle dos califas. Indo ao sul pelo Nilo, os Árabes se depararam com o mesmo povo guerreiro que repeliu a invasão de Cambises II/Xerxes no passado.

Houve duas grandes batalhas contra os Núbios, a partir do Nilo. Na primeira, os arqueiros de Makuria praticamente exterminaram os invasores (lembremos do desafio colocado pelo rei Etíope aos enviados de Xerxes). No 2º ataque, Makuria e Nobadia se uniram e a movimentação dos seus exércitos era tão rápida que até mesmo os invasores árabes ficaram impressionados:

"Um dia eles investiram contra nós e desejavam continuar o conflito com espadas. Mas eles foram rápidos demais e suas flechas nos cegaram. Mais de 250 soldados ficaram cegos. Nós finalmente pensamos que o melhor a fazer com tal povo era estabelecer a paz." (escritor árabe al-Baladhuri)

Nobadia, Makuria e Alodia

Em 651 d.C., foi firmado um pacto chamado Bakt, inédito no mundo Islâmico: os árabes do Egito respeitariam as fronteiras com a Núbia; os cidadãos de cada país poderiam viajar livremente ao outro país, sem todavia se estabelecer, tendo garantida a sua segurança; a mesquita em Dongola seria respeitada; a Núbia daria anualmente 360 escravos ao governador de Assuã (Egito); os árabes dariam à Núbia trigo, vinho e tecidos. Com tal pacto, que durou por 5 séculos, a Núbia Cristã se transformou no principal aliado dos Fatimidas, dinastia árabe que controlava o Egito. Enquanto isso, o Cristianismo era quase varrido do norte da África. Mesmo a grande biblioteca de Alexandria foi destruída, num dos eventos históricos de maior perda para o patrimônio cultural do mundo.

Em poucos anos, apenas 4 cidades do norte da África mantinham bispos Cristãos. Na Núbia, por outro lado, o Bakt gerou um enriquecimento considerável: os emissários Núbios eram vistos frequentemente em peregrinações a Jerusalém e grandes catedrais Católicas foram erguidas. Uma das maiores era a de Faras, capital de Nobadia, em cujas paredes de pedra foram encontradas pinturas retratando atividades dos nobres. Mais ao sul, Dongola, capital de Makuria, possuía muitas igrejas e um palácio real de 11 metros de altura, enfeitado com tijolos vermelhos, casas com canos hidráulicos e salas de banho aquecidas, além de grandes pinturas de nobres, anjos e santos em suas paredes, mesmo as das casas. Mais ao sul ainda, Soba, a capital de Alodia, tinha jardins, monumentos magníficos e igrejas que luziam em ouro e tijolos vermelhos. Além do ouro, os solos da Núbia também eram muito férteis, produzindo cevada, painço, permitindo as criações de animais, produção de peles e tecidos e uma arte ceramista muito valorizada no mundo antigo, sobretudo proveniente de Faras e Dongola.

Cinco grandes bispos Católicos (porém Coptas, não submissos a Constantinopla), com suas respectivas “cortes” eram da Núbia. Esses reinos Cristãos legaram ao mundo textos religiosos misturando grego, copta e Ge’ez: textos canônicos (fragmentos dos evangelhos), códices contando a vida e as palavras dos santos (por exemplo, o milagre de São Ménas*), a homilia (ensinamento) de Pseudo-Crisóstomo, livros de missa e uma ladainha endereçada à Cruz.

Na metade do século 9, apareceu lá um personagem que mais tarde seria lembrado nas Mil e Uma Noites, do séc. 18. A tribo Bedja, da Etiópia, começou incursões militares no território Núbio, o que interrompeu os valiosos pagamentos do Bakt. Como resposta, tanto o líder Bedja (Ali Babá - sim, ele mesmo) e o rei Georgios II de Makuria (a sucessão do trono era matrilinear, como em Meroe) foram chamados a Bagdá para negociar com o califa al-Mu’tasim. Foi um expedição sem precedentes, que durou 2 anos, de um rei Cristão ao centro do mundo Islâmico, e que inspirou muitas estórias. A paz foi estabelecida e Georgios retornou para Dongola com grandes presentes, sendo acompanhado em seu retorno pelo próprio patriarca de Alexandria.

Após a queda dos Fatimidas em 1170, as relações da Núbia com o mundo Islâmico deterioraram-se rapidamente. A idade de ouro da Núbia chegou ao fim aproximadamente na mesma época.

Axum

Em seu apogeu, correspondia ao lugar onde estão hoje o norte da Somália, Djibouti, Eritréia e costa do Sudão, além do Yemen e sul da Arábia Saudita, do outro lado do Mar Vermelho. As origens do reino de Axum são controversas: vários historiadores apontam uma descendência do antigo reino negro de Da’amot, outros falam em uma migração de Kush e outros ainda se referem aos Hyksos. Talvez todos estejam em parte corretos. Por exemplo, a tradição Católica aponta Axum como o destino final da Arca da Aliança. O que sabemos com certeza é que, logo no séc. 1 a.C., quando Cartago foi derrotada e começou expansão Romana, Axum despontou como uma potência comercial ao mediar as rotas marítimas entre Roma, Arábia e Índia. Até o séc. 3 d.C., Axum era tão poderosa quanto Roma, Pérsia e a China.

No séc. 4 d.C., o rei Ezana tornou-se Cristão e aliou-se com a florescente Igreja de Bizâncio (Roma Oriental), Cartago e Núbia. Cidades portuárias como Axum (a capital), Yeha, Hawalti-Melazo, Matara, Adulis e Cohaito despontaram como centros de venda de marfins, ouro, incenso e especiarias. Junto com isso foram levantadas grandes catedrais Católicas sobre bases de 1 a 2 metros de granito. No séc. 6 d.C., Axum e Constantinopla (capital de Roma Oriental) sofreram duramente com a Praga de Justiniano (peste negra), sinal de havia fluxo de pessoa entre as duas metrópoles e uma era quase tão povoada quanto a outra. Além disso, a relação inicial com o Islã era muito favorável: durante a disputa entre Maomé e os Persas, Axum acolheu não só o profeta mas todos os seus partidários.

Se fordes à Abissínia [Axum], encontrareis um rei sob o qual ninguém é perseguido. É um país de justiça onde Deus vos dará o alívio de vossas misérias” (Maomé)

Nada sobrou de pinturas de Axum, seja porque não existiram ou porque não resistiram ao tempo. Dos textos, por outro lado, devemos grande parte da tradição Cristã a esse reino. Os monges de Axum traduziram textos considerados apócrifos por outras Igrejas, como o Livro de Henoc, o Livro dos Jubileus, a Ascensão de Isaías, o Pastor de Hermas e o Apocalipse de Esdras. Somente as cópias em Ge’ze nos sobraram, da antiguidade. Ainda, preservaram obras teológicas como Querillos, as Regras de São Pacômio e o Physiologos, uma coleção de notícias semilendárias sobre os animais, plantas e minerais, acompanhadas de conclusões morais.

Apesar do início amigável, tanto Axum quanto os califas disputavam os portos comerciais no sul da Arábia. Por isso, um dos motivos (e o principal) da decadência de Axum foi o enrijecimento dos reinos Islâmicos e as cada vez mais freqüentes quebras dos tratados de paz (por um e outro lado). Para se ter uma idéia, no séc. 15 o Islã teria chegado até o sul da Espanha (criando a dinastia dos riquíssimos reis mouros de Córdoba) e até Constantinopla, uma das cidades mais poderosas do mundo, seria tomada. Mas, no final do séc. 7, a perda de espaço comercial já forçou Axum a intensificar seu investimento em agricultura. Como os solos eram pobres e as técnicas de cultivo primitivas, a produção de alimentos declinou assustadoramente rápido.

Os Bedja (de Ali Babá) também foram em parte responsáveis pelo desmantelamento de Axum. Suas expedições militares forçaram o povo a migrar para regiões mais montanhosas, com solos mais pobres. A capital foi transferida para Ku’bar (até hoje não encontrada). No final do séc. 10, praticamente apenas a tradição religiosa da velha Axum se mantinha, sendo aos poucos absorvida nas tradições pagãs dos povos próximos não convertidos pelo Islã. Uma rainha Etíope desconhecida (há inúmeros nomes para ela) parece ter dado fim ao que sobrava de Axum:

No que concerne ao país dos abissínios, há inúmeros anos ele é governado por uma mulher; ela matou o rei dos abissínios que era conhecido sob o título de Hadānī. Até hoje ela domina com toda independência seu próprio país e os arredores do território do Hadānī, no sul da Abissínia. É um vasto território, sem limites determinados, cujo acesso é difícil em razão dos desertos e isolamentos” (Ibn Hawkal)

Ao despejar Abba Petros (Pedro) devidamente eleito, ao aceitar Minas, o usurpador, os reis que nos precederam violaram a lei (...). Por causa disso, Deus se enfureceu contra nós (...). Nossos inimigos se levantaram e levaram muitos de nós como cativos. Eles queimaram o país e destruíram nossas igrejas (...) nos tornamos errantes (...). O céu cessou as chuvas e a terra não mais nos dá os seus frutos (...). Atualmente, somos como ovelhas abandonadas e sem um guardião” (carta do rei de Axum ao rei de Dongola)

No séc. 11, quando começaram as Cruzadas**, cidades da Etiópia como Lalibela assombraram os cavaleiros europeus por possuírem igrejas (a maioria sem uso) e uma remota tradição Católica.

Fim da História

Até o séc. 15, a expansão Islâmica praticamente extinguiu o Cristianismo do norte da África. Por isso, os escravos do norte Africano que chegaram ao Brasil, a partir do séc. 18, eram Islâmicos, do Sudão, chamados "malês" (de "imali", ou "que adotou o Islã"). Apesar do domínio Islâmico na Idade Média, a Igreja Copta resiste até os dias atuais e até produziu santos Católicos. Além disso, tanto a teologia quanto a tradição Católicas devem muito ao que foi produzido em Cirene, Cartago, Núbia e Axum em seu período Cristão. E, no caso da Igreja Protestante, a obra de Santo Agostinho e o estabelecimento das primeiras comunidades na Europa baseadas em Alexandria trariam grandes mudanças, a partir do séc. 16.

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* Segundo a lenda, Ménas ou Minas foi um mártir Cristão, avisado de seu martírio por um anjo. Após ser executado, colocaram fogo em seu corpo, mas o corpo não queimou. Nem tampouco se decompôs ao ser transportado por muitos lugares. A tradição Copta associa vários milagres posteriores à proximidade de tal corpo.

** As Cruzadas foram um movimento liderado pela Igreja Bizantina (com sede em Constantinopla) para unir os reis Cristãos da Europa em prol da reconquista de Jerusalém. Embora Jerusalém logo tenha sido tomada pelos cavaleiros, durante séculos houveram batalhas e a cidade voltou ao domínio árabe em 1291, permanecendo assim até o início do séc. 20.

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Manuscritos perdidos dos 40 ladrões

Augustine of Hippo - wikipedia
Cambyses II - wikipedia
Christian nubia - Historium.com, history forums
Cyrene - Livius.org
Frumentius - wikipedia
Hannibal - wikipedia
Heródoto, História
Kandake - wikipedia
Kingdom of Aksum - wikipedia
Kingdom of Makuria and it's warfare - Historium.com, history forums
Mark JJ, Carthage - Ancient History Encyclopedia
O  Êxodo fora da novela - loungecba.blogspot.com
Ribeiro, LM.P. (2012). A implantação e o crescimento do islã no Brasil. Estudos de Religião, 26(43), 106-135.
Stefan Jakobielski, A Núbia cristã no apogeu de sua civilização, cap. 8, in: Mohammed El Fasi, História geral da África vol. 3, Ed. UNESCO.
Tekle Tsadik Mekouria, O chifre da África, cap 19, in: Mohammed El Fasi, História geral da África vol. 3, Ed. UNESCO.