domingo, 23 de julho de 2017

Sobre o ensino dos apóstolos

Reunião dos 12 apóstolos - Rússia, século 14

Esse texto faz parte de um material que aparece também em

A palavra Didache, Didaquê ou Didaqué significa literalmente “ensino”. Esse também é o nome de um dos livros mais antigos do Cristianismo e faz muito tempo que quero escrever sobre essa e outras obras. No entanto, é um trabalho detalhista e demorado estudar cada uma. Após o texto, nas referências, há um link para quem se convenceu a ler esse pequeno e importante livro. Espero que gostem!

O livro “Ensino dos doze apóstolos”, “Ensino do Senhor para os gentios pelos doze apóstolos” ou simplesmente Didache representa uma das primeiras elaborações do Cristianismo. Diversos estudiosos pensam que seja uma obra contemporânea dos Evangelhos ou até anterior a eles. O livro assume-se Cristão desde o título e traz basicamente instruções a comunidades Cristãs. Assim como os livros do Novo Testamento (NT), ele não traz a mínima referência à destruição de Jerusalém em 70 d.C. sendo, portanto anterior a esse ano.

A organização dos Evangelhos só ocorreu no 2º século, com o vínculo com Jerusalém drasticamente cortado (pela destruição da cidade e pela perseguição aos Cristãos) e quando as comunidades iniciaram um movimento de compilação e colagem dos vários manuscritos atribuídos aos apóstolos. Antes disso, havia diversas comunidades Cristãs nas proximidades de Jerusalém, Síria, Grécia e Roma que eram visitadas ocasionalmente pelos apóstolos (incluindo Paulo) e formavam novos líderes itinerantes (como Barnabé e Silas). O ensino nas comunidades (e também o funcionamento delas) era organizado a partir de cartas longas trocadas entre elas, algumas das quais alcançaram o status de epístolas (pequenos livros), mas também através de conhecimentos visionários supostamente fornecidos pelo Espírito Santo ou pelo Cristo.

Um ponto importantíssimo quanto à Didache é que as instruções práticas/rituais encontradas ali não são tão claras na Bíblia, como se ela fosse um manual ou guia de consulta. Quase todos os detalhes da vida Cristã que ela apresenta tornaram-se a práticas padrão nas igrejas. Mesmo que a Didache tenha sido abandonada como material de ensino no século 4, seu conteúdo já havia sido absorvido em documentos e práticas litúrgicas.

Quando o Edito de Milão institucionalizou o Cristianismo em Roma (313 d.C.), as comunidades Cristãs haviam crescido regidas por textos muito variados. A instituição Igreja, então, começou um movimento de descobrir quais desses textos eram “válidos”, “reais” ou canônicos. A Didache, um dos textos que tinha largamente orientado as comunidades dos 1º e 2º séculos, então, foi considerada incompatível com os textos canônicos. Os próprios textos canônicos, apesar disso, são discordantes em vários pontos...

Um ponto interessante da Didache é a estrutura de evangelismo que ela revela. O NT aparentemente apresenta Paulo como o apóstolo dos Gentios (não judeus) e os Doze como apóstolos dos Judeus (Gálatas 2.9). Como pouco mais do que as epístolas de Paulo sobreviveram até a centralização da Igreja, a teologia Cristão assumiu esse modelo. Entretanto, as histórias dos Doze revelam que apenas alguns deles permaneceram entre os Judeus após a destruição de Jerusalém e início da perseguição aos Cristãos. Na Didache, de forma diferente, os Doze são patriarcas da Igreja enviados a todas as nações, o que talvez seja uma forma mais correta de ver o movimento Cristão nos séculos 1 e 2.

Existem muitas dúvidas sobre a autoria da Didache. Desde que foi considerada inapropriada, a obra ficou relegada aos manuscritos contando a história da Igreja, sendo citada em partes por historiadores como Eusebius de Cesarea¹ e o antigo texto Doctrina apostolorum. Mas a Didache re-apareceu em 1883, traduzida pelo arcebispo Bryennios a partir de um manuscrito do séc. 11, contendo este e outros textos antigos. A sua origem provavelmente é Antioquia, na Síria, assim como o livro de Mateus. O texto não é assinado por alguém, mas leva o nome conhecido dos Doze. Como em bem poucos momentos desde a Ressurreição os Doze estiveram reunidos, acredita-se que o autor (ou os autores) na verdade usaram um nome conhecido para dar visibilidade à obra. Tal prática era comum na Antiguidade. Por outro lado, havia figuras célebres dentro da Igreja como Paulo, Barnabé, Silas, Pedro, João Marcos, etc a quem a Didache poderia ter sido atribuída. A referência simples aos Doze sugere que se trata de um texto forjado por uma ou mais comunidades Cristãs onde não havia um Profeta ou líder de influência. Tais autores provavelmente tiveram apenas um contato indireto com os Apóstolos. Esse na verdade foi o motivo para que a Didache não fosse aceita como parte dos livros bíblicos.

Boa parte do texto trata de como a Igreja deve receber os missionários, chamados de Profetas. Essa designação combina com o que é dito no texto, de que eles são “sumo sacerdotes” em contato direto com Deus. Em outras palavras, são visionários itinerantes. O texto recomenda que sejam mantidos pela Igreja por um número pequeno de dias e então exerçam algum ofício para conseguir seu sustento. Tal atitude protetiva quanto a verdadeiros e falsos profetas que desejavam se aproveitar da hospitalidade Cristã mostra que não deviam ser incomuns esses sujeitos. O próprio Paulo, um dos cabeças da Igreja, remete a esse trabalho dos mestres itinerantes:

Ali, encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que havia chegado recentemente da Itália com Priscila, sua mulher, pois Cláudio² havia ordenado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo foi vê-los e, uma vez que tinham a mesma profissão, ficou morando e trabalhando com eles, pois eram fabricantes de tendas. (Atos 18.2,3)

O cap. 15 da Didache trata, por outro lado, da relação com bispos e diáconos. Por isso, a Didache é particularmente interessante: ela retrata a Igreja num momento em que a hierarquia centralizadora (que se fixaria em Roma, Antioquia e Alexandria) começava a existir, mas convivia com a direção descentralizada típica da Grécia. Nesse momento em especial, outras contradições eram conviventes, como a referência a um símbolo Judeu, a videira de Davi (Didache 9.3), que aparece em Isaías e no Apocalipse de João, e a referência a vários mandamentos do Deuteronômio. A importância desses elementos numa epístola destinada aos Gentios está em que, apesar da insistência de Paulo em separar os Cristãos dos Judeus, outros apóstolos (como Pedro) e líderes posteriores viam no Cristianismo uma forma de “judaizar” os Gentios.

A forma como essa “judaização” era feita seguia o modelo de Deuteronômio 30.15:

Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição. (Deuteronômio 30.15)

Na Didache, o dualismo vida/morte aparece como modos de vida e morte, bem no início do texto. Embora o “modo de vida” seja bem semelhante ao Sermão da Montanha (Mateus 5), não há indicação alguma de que essa instrução venha de Jesus. De fato, o mesmo tipo de dualismo aparece como “luz e trevas” nos manuscritos de Qumran (não Cristãos) e até com o mesmo nome – modos de vida e morte – na epístola de Barnabé e no Doctrina apostolorum. Uma vez que Lucas ordena tais mandamentos de forma diferente em sua pesquisa sobre a vida de Cristo, é bem possível que eles sejam na verdade parte de um texto (ou conjunto de textos) de ensino religioso no século 1 que ficou conhecido como “documento Q”. Há evidências da existência de tal documento pelo aparecimento de muitas partes que se encaixam em vários textos (a Didache é um deles), mas nenhum manuscrito completo que tenha sobrevivido até a atualidade.

Ainda com relação à inserção da Didache entre os livros canônicos, em Atos 19:1-5 Paulo encontra em Éfeso, por volta de 50 d.C., alguns discípulos de João Batista, que provavelmente se identificaram com o Cristianismo. É interessante que João Batista não parecia liderar um movimento como o que se seguiu a Jesus, mas Éfeso era distante o suficiente de Jerusalém para se pensar em como havia discípulos de João Batista por lá. Talvez praticassem uma espécie de Cristianismo primitivo, bem depois de João Batista e mesmo de Jesus. Tal situação é semelhante à fala de João apóstolo em Cafarnaum:

"Mestre", disse João, "vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos." (Marcos 9.38, Lucas 9.49)

Repare que este que expulsava demônios em nome de Jesus nem ao menos era conhecido dos Doze. Talvez sequer tivesse tido um contato pessoal com Jesus. Muitos estudiosos sugerem que nos 1os séculos (como hoje também) existia um Cristianismo paralelo ou popular, bastante místico e rico em elementos judaicos, não centrado nos Doze ou qualquer personagem bíblico mais relevante. Se isso for verdade, a Didache pode ter surgido dessa fonte, assim como a Doctrina Apostolorum e talvez partes do livro de Mateus.

Algumas diferenças relevantes entre a Didache e o texto bíblico são quanto a esperar para saber a quem dar esmolas, cercar-se de pessoas (santos) que pensam da mesma maneira e o pão repartido sobre as montanhas, que foi reunido como a Igreja será. Além disso, os capítulos 8 e 9 são referentes à Eucaristia, que hoje se celebra como um ritual de purificação entre os Cristãos, lembrando as cenas da ceia com pão e vinho descritas em Marcos 14.22-26 e 1ª Coríntios 11.23-25. Essa ceia é bem diferente da descrita por João, o discípulo mais próximo de Jesus, contendo a carne e o sangue, e também Jesus lavando os pés dos discípulos. A Eucaristia da Didache, semelhante à ceia com pão e vinho, é descaradamente uma bênção antes e após a refeição existente no Judaísmo (sem nenhuma referência à morte e ressurreição de Jesus), o que novamente sugere um Cristianismo paralelo ou popular que foi misturado aos relatos dos apóstolos na composição dos livros canônicos.

Paulo fazia questão de separar os Cristãos dos Judeus, enfatizando que os preceitos do Judaísmo nada tinham a ganhar quanto ao ensino de Jesus. Ele chamava tais preceitos de “escravidão”.

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. (Gálatas 5.1)

A Didache, como um livro Cristão de forte influência judaica, por outro lado coloca a curiosa sentença:

Tenhais cuidado para que ninguém vos faca errar neste modo de Ensino, visto que é Deus que vos ensina. Pois se sois capazes de suportar o jugo do Senhor, sereis perfeitos; mas se não puderes fazer isto, façais o que sois capazes. (Didache 6.1-2)

Assim, ela mistura os preceitos divinos do Judaísmo com o ensino de Jesus (via Sermão da montanha), mas então, tendendo para o “jugo leve do Senhor” de Mateus 11:30, acrescenta que não é necessário ser estrito na observação de tais leis.

A VIDA CRISTÃ NA DIDACHE

Em seus estudos sobre os livros canônicos, Eusebius de Caesarea classificou a Didache como escritura espúria (não verdadeira). Outro estudioso do séc. 4, Methodius de Olympus considerou canônicos os 27 livros do NT atual, além do Apocalipse de Pedro, a epístola de Barnabé, a Didache e ainda o Sobre a Virgindade. Pouco depois, em 367 d.C., o bispo romano Athanasius apresentou os formatos atuais do VT e do NT. Ele agrupou os livros existentes em canônicos (os que são parte da Bíblia), rejeitados (aqueles que se averiguou serem falsos) e livros para serem proclamados, como por exemplo, instruções sobre o batismo. A Didache foi colocada nesta última categoria, com “os dois caminhos” sendo entendido como uma espécie de juramento ou contrato de batismo. De fato, na Didache, uma parte importante do texto é relativa aos preparativos para o batismo. Este deveria ser feito em água corrente (como o de João Batista), mas precedido de jejum tanto do batizador quanto do batizando. Sendo um batismo Cristão, entretanto, era feito para aqueles que jurassem quanto ao “modo de vida” e em nome do Pai, Filho e Espírito Santo.

Em seu brilhante artigo, Thomas O’Loughlin chamou a atenção para diversos elementos que deveriam estar em um livro Cristão – sobretudo para a época/local em que foi publicado - e estão ausentes da Didache. Primeiro, não há explicações doutrinárias, ao contrário das cartas de Paulo. Parece que a Didache foi escrita para leitores com um conhecimento certo do "evangelho" e de Jesus. Essa mesma certeza é aplicável aos batizandos, algo sem dúvida notável no meio do século 1 e entre uma população de Judeus, Gregos e Romanos. O batismo é até colocado como única condição para que tais pessoas participem da refeição Cristã e as bênçãos associadas com esta prática.

A vida em comum, os batismos, as refeições em grupo e as bênçãos antes/depois das refeições são destacadas na Didache como o centro da vida Cristã, ao invés de uma estrutura de cultos e reuniões sagradas eventuais. De fato, tais reuniões nem sequer são citadas.

Outro ponto importante é a relação entre os antigos e os novos na fé. A Didache cita a existência de mestres/profetas itinerantes, mas deixa claro que eles são recebidos e mantidos pelas comunidades quando ali estão, em geral por pouco tempo. Ou seja, tais mestres não são “os guias” das comunidades, como somos levados a pensar pela analogia com “o pastor de ovelhas” nas falas de Jesus. Os membros da comunidade Cristã da Didache não são ovelhas necessitadas de um mestre, ainda que os tenham como sumo-sacerdotes por um tempo. As comunidades da Didache se auto-organizam, batizam seus neófitos e, mais ainda, os colocam na mesmo posição dos mestres que os batizaram.

No livro de Mateus há uma idéia sugerida de que o discípulo jamais se iguala ao mestre:

O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor. (Mateus 10.24)

A Didache, por outro lado, não cita mestres além daqueles itinerantes – que são respeitados, mas não são membros da comunidade. Nem são eles quem fazem os batismos.

Nós Te agradecemos, Pai santo, por Teu santo nome porque fizeste um tabernáculo em nossos corações, e pelo conhecimento, fé e imortalidade, que modestamente nos tornou conhecidos através de Jesus, Teu Servo; a Ti seja para sempre a glória. (Didache 10.2)

O texto da Didache não era destinado a um grupo especializado de sacerdotes, mas para uso de todos os membros da nascente Igreja. Não pretendia ser "um documento de alto nível" explicando a fé ou pregando "o evangelho", mas com informações simples sobre a práxis cristã para que um indivíduo pudesse viver como discípulo dentro da comunidade. Esse membro comum poderia, com tal instrução, iniciar ele mesmo novos membros no grupo, mais ou menos como quando Filipe batizou o eunuco etíope a quem o Espírito o destinou (Atos 8).

Compartilhar um tempo comum é uma maneira fundamental de os seres humanos expressarem suas solidariedades. E se isso está ligado a estruturas de lembrança - como uma bênção em cada refeição - torna-se o meio pelo qual as pessoas absorvem a história da comunidade. Na Didache, dada sua simplicidade como livro ou epístola - é possível que a forma de o neófito aprender o que era fazer parte da igreja fosse literalmente através do tempo e eventos compartilhados. Isso coloca uma estrutura certamente diferente do que se desenvolveu no Cristianismo a partir do século 4 e após sua definição como elemento do Estado Romano.

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¹ Eusebius Pamphili foi bispo de Cesarea Maritima (norte de Israel) durante a publicação do Edito de Milão e ficou famoso por sua argumentação durante o processo de estruturação da Igreja como órgão do Estado romano.

² Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus, imperador de Roma de 41 a 64 d.C.

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LEITURA DE OUTROS TEMPOS

Didache - texto traduzido e numerado
Draper, J. A. (2006). The Apostolic Fathers: The Didache. The Expository Times, 117(5), 177-181.
O'Loughlin, T. (2011). The Missionary Strategy of the Didache. Transformation, 28(2), 77-92.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

História do nome de Deus

placa de pedra de Ur, do séc. 10 a.C., ilustrando o deus Baal

Em 1999, uma profunda discussão sobre a história hebraica surgiu quando o arqueólogo Ze’ev Herzog anunciou no jornal Ha'aretz Magazine em Tel Aviv os resultados de suas escavações. Buscando em Canaã pelos vestígios da antiguidade de seu povo, ele e seus colegas acabaram encontrando sérias divergências entre as evidências históricas e o Velho Testamento (VT). Dos tempos de Josué, Herzog não encontrou muitas das muralhas citadas no Antigo Testamento - nem sequer a fundação delas. Várias das cidades históricas tinham desaparecido e ressurgido ao longo dos últimos 1000 anos da Idade do Bronze, sem vestígios de grandes batalhas. Dos tempos de Davi e Salomão (séc. 10 a.C.), mesmo Israel não possuiu muralhas verdadeiras, que fossem capazes de resistir a um ataque. Mais bombástico ainda, Herzog só encontrou evidências de monoteísmo a partir do séc. 7 a.C., no reinado de Josias e época da destruição de Samaria pelos Assírios. Antes disso, YHWH, Baal, Asherat e até Moloch pareciam divindades quase igualmente cultuadas em Canaã. Algumas inscrições inclusive confundiam os deuses masculinos, colocando um e outro como maridos de Asherat, que parecia ser uma deusa mãe aparentada com In-nanna (Sumérios), Ishtar (Caldeus), Afrodite (Gregos) e Hathor (Egípcios).

O rei Josias se esforçou para reformar a religião hebraica, extirpando os altares e templos de outros deuses (2ª Crônicas 34.3). Segundo Herzog, o que ele fez na verdade foi unificar todos os cultos; apesar de a transformação parecer radical, talvez não fizesse muito mais do que eleger o próprio Josias como vice-rei ou governador de Deus aqui na Terra. Nessa posição, ele promoveu transformações significativas. E pelo motivo dessa unificação, provavelmente, o nome de Deus foi proibido de ser pronunciado por algumas dezenas de anos – eram vários nomes.

Na Bíblia atual, quase 2700 anos depois do rei Josias, Deus ainda aparece designado por diversos nomes. Mesmo se Herzog estiver errado, porque afinal Deus Se designou ou foi designado por tantos nomes diferentes? Seguindo a lógica de Jesus, que mudava nomes próprios como símbolo de um novo caminho da pessoa, será que Deus se modificou também enquanto o VT era registrado?

Os historiadores que se debruçaram sobre os textos bíblicos, desde a Antiguidade, em geral concordam com Herzog no sentido de que os vários nomes de Deus são sinais de re-edições dos cultos, como se uma divindade fosse lapidada para se conformar a outros tempos. Algo semelhante aconteceu com os deuses do Candomblé no Brasil e Caribe, fundidos aos santos Católicos. Na Idade Média, foram muitos os santos Católicos que nasceram de deuses pagãos da Europa. Na Cabala judaica, o panteão de anjos (não citados no Velho Testamento) também guarda fortes traços do politeísmo Europeu. No VT, chama a atenção o fato de que o nome final/oficial de Deus – Javé – é praticamente ausente dos nomes de lugares em Canaã. Se nomes teofóricos fazem referências a divindades, em Canaã a maioria deles contém El (ex. Yisra-El = El luta) ou Baal (ex. Baalbek = Senhor das fontes), justamente divindades demonificadas ao longo do VT. Como é possível que os conquistadores de Josué ou os reformadores de Josias tenham morado nesses locais? Para tentar responder algumas dessas perguntas, proponho regredirmos no tempo em busca dos antigos nomes de Deus.

PRONÚNCIA ATUAL

Num 1º passo, vamos até a Reforma Protestante (1507), quando Lutero traduziu para o alemão os textos gregos do VT e do NT. Ele usou como referência os textos sagrados dos Masoretas (do hebraico Mesorah = tradição), estudiosos da língua hebraica que iniciaram seus trabalhos no séc. 7 d.C. como copistas da Torah. YHWH (o nome usado no VT) é escrito com apenas consoantes e não tem pronúncia definida, por isso Lutero decidiu pela tradução Yeová/Jeová. Essa pronúncia se perpetuou em muitas traduções da Bíblia desde então. Se recuarmos um pouco mais nessa época de impérios, quando o Cristianismo era levado como bandeira em grandes invasões ou Cruzadas, por volta do séc. 10 os Católicos usavam uma tradução romana do VT onde Deus aparecia com os nomes Ieve, Iao, Ia até Iabe. A semelhança com Javé/Iavé, usadas no final da Idade Média, é clara. Algumas traduções em latim feitas a partir do hebraico traziam ainda Dominus (Senhor) ou o equivalente Adonai.

A ERA DAS SUBSTITUIÇÕES

Adonai e Dominus já são o que se chama de substituições, que consistem em alguém não escrever o nome de Deus, por considerá-lo sagrado demais. Essa prática nos leva para os séculos 2-4 d.C. Era o tempo da perseguição romana aos Cristãos, mas também um período crítico para os Judeus. O Novo Templo (erguido por ordem de Ciro da Pérsia a partir de 530 a.C. e reformado por Herodes, o grande, de Roma, em 20 a.C.) e a própria Jerusalém haviam sido destruídos por Roma. Os Judeus e os Cristãos estavam espalhados pelo Império, afastados de cargos políticos e organizando grupos de culto independentes. Sem seus lugares sagrados, os Fariseus e Saduceus dos tempos de Jesus foram substituídos por rabinos, estudiosos que deviam interpretar as Escrituras e orientar os homens quanto a sua aplicação. Pronunciar o nome de Deus (YHWH) foi considerado um pecado muito grave, de forma que tal nome era substituído na leitura e até na cópia dos textos por Ha Shem/Shema (O nome), Ha Magom (o Onipresente), Ha Mana (o Piedoso) ou Adonai (o Senhor). Alguns copistas simplesmente deixavam uma lacuna onde estaria o nome de Deus, por temor de escrevê-lo. Um dos mais citados rabinos, Maimonides (1135-1204), contudo, ensinava que YHWH era pronunciado abertamente na liturgia dentro do Novo Templo.

Quando Alexandre o grande invadiu o Oriente Médio (300 a.C.), um de seus generais-sucessores - Ptolomeu II - ordenou a tradução dos livros hebraicos do Pentateuco para o grego, tarefa que foi dada a 72 estudiosos. Eles produziram uma versão do VT conhecida como Septuaginta, que deu origem à versão romana dos livros, que foi utilizada pelas primeiras comunidades Cristãs na Síria, Grécia e Roma, nos séculos 2-4 d.C. Tais comunidades absorveram dos Judeus valores e tabus como a proibição quanto a escrever ou pronunciar o nome de Deus, de forma que nos livros Cristãos, assim como nos Judaicos, YHWH passou a ser substituído por Kyrios (Senhor) ou Theos (Deus). Alguns manuscritos mantiveram as letras hebraicas de YHWH.

A REFORMA DE JOSIAS

Josias foi um rei de Judá cuja referência só aparece nos textos bíblicos. Segundo as Escrituras, ele empreendeu por volta de 620 a.C. as reformas no Templo iniciadas pelo rei Joás cerca de 200 anos antes. Junto ao profeta Hilkias e profetisa Hulda, Josias recuperou textos sagrados guardados no Templo, que se referiam à história de Israel desde Moisés e os mandamentos de Deus, aparentemente esquecidos desde o reinado de Salomão. Josias ordenou a execução dos profetas de Baal, a destruição dos templos de Asherah (representada por vacas de ouro, 1ª Reis 12.28-30) em Bethel e Dan, assim como a exumação dos profetas de Baal e Asherah enterrados nos montes aos redor de Jerusalém.

As ações enérgicas de Josias mostram o quanto o culto de outros deuses (além de YHWH) era comum em Canaã, relembrando quando Moisés destruiu o bezerro de ouro forjado junto a Aarão durante sua estadia no Sinai. Por outro lado, a presença dessas divindades faz pensar que se passou muito tempo desde uma monarquia monoteísta como é relatado para Davi e Salomão. Na verdade, mal haviam se passado 200 anos, com o Templo em plena atividade. As mudanças aparentemente sérias feitas por Josias e as descobertas de Herzog sugerem que Josias fez mais do que uma reforma religiosa: ele contratou escribas para unir estórias e tecer o passado de Judá, mesmo que fossem bastante imaginativos quanto a isso, assim como Heródoto - o 1º historiador - foi em relação aos povos que visitou. A semelhança textual entre passagens do livro de Josué e os textos sobre Josias levaram vários historiadores a desconfiar seriamente que os autores de um e outro eram os mesmos escribas.

Josias morreu tentando impedir que os exércitos Egípcios cruzassem Canaã para chegar até a Assíria.

A CONSOLIDAÇÃO DOS REINOS DE CANAÃ

No séc. 9 a.C, logo após Salomão, quando as 12 tribos foram divididas entre os príncipes Judeus, Judá (reino do Sul) e Israel (reino do Norte) aproveitaram o vácuo de poder entre as retrações do Egito e da Assíria para estender as fronteira de seus reinos sobre os demais povos de Canaã. Isso significava estender também o deus de Judá e Israel (YHWH) sobre os deuses de outros povos, como Qemosh, de Moab. O rei Mesa/Mesha de Moab mandou inscrever uma estela de pedra com seus feitos militares e as batalhas que travou com Israel, referindo claramente YHWH como a divindade de seus adversários.

O VT refere a esse período como contaminante sobre os cultos de Judá e Israel, pois os empreendimentos militares também misturavam as populações dos Judeus com os demais habitantes de Canaã, levando para os Judeus deuses estranhos e abomináveis. Baal, por exemplo, era um deus da tempestade e da agricultura, costumeiramente adorado ao redor de postes (ou para-raios?) no alto dos montes. Outra figura introduzida foi Asherat/Asserá, uma deusa-mãe associada com os bosques, florestas e árvores sagradas. Enquanto alguns reis Judeus perseguiram tais cultos, outros como Akab/Ahab foram coniventes e até envolvidos com eles, a ponto de fixarem imagens e gravuras deles no Templo. YHWH, referido como a principal divindade dos Judeus e citado pelo menos 6800 vezes na Bíblia, era nomeado por uma palavra de pronúncia duvidosa ou inexistente, que significa supostamente “Eu sou” e não define nada sobre Deus em termos humanos.

Mesmo na época de Davi e Salomão (séc. 10 a.C.), algumas curiosas referências a Deus aparecem:

[YHWH] subiu sobre um querubim e voou; e foi visto sobre as asas do vento. E por tendas pôs as trevas ao redor de Si, das águas e nuvens dos céus. Pelo resplendor da Sua presença brasas de fogo se acenderam. Trovejou desde os céus [YHWH]; e [Elyon] fez soar a sua voz. Disparou flechas e raios. (2ª Samuel 22.11-15)

[Elohim] está na congregação de [El]; Ele julga no meio dos [Elohim]. ... Eu disse: Vós sois [Elohim], e todos vós filhos do [Elyon]. Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer um dos príncipes. (Salmo 82)

Elohim era uma palavra usada para designar Deus, terminada em –im como poucas outras palavras do hebraico no singular (ex. Efraim). Na Bíblia, Elohim é a 2ª forma mais comum do nome de Deus, aparecendo mais de 2500 vezes. Tal palavra não deixou de atrair a atenção de muitos estudiosos pois, oficialmente falando, Elohim significa “deuses”. Mais ainda, havia um deus da terra de Ur (de onde veio Abraão) chamado El/Elyon, senhor dos raios, que se reunia com os deuses menores (Elohim) e os enviava para a Terra, para habitar em meio aos homens. Para completar, muitos lugares sagrados em Canaã levam a terminação –El, como se pertencessem a um deus com esse nome. Esse deus era chamado de senhor dos leões; e a figura do “leão de Judá” não poderia trazer uma história mais curiosa. Para completar, El era casado com Asherat, a divindade perseguida pelo rei Josias. Segundo a mitologia dos Sumérios de Ur, os deuses El e Asherat tiveram 70 filhos, enviados para reinar entre os homens DE ACORDO COM OS NÚMEROS DE CADA NAÇÃO. Alguns nomes que aparecem entre tais filhos, em especial recebendo as terras de Canaã, são Baal e Yaweh!

Quando [Elyon] deu às nações a sua herança, quando dividiu toda a humanidade, estabeleceu fronteiras para os povos de acordo com o número dos filhos de Israel. (Deuteronômio 32.8)

As especulações sobre Abraão ter trazido de Ur as divindades locais não podiam faltar. No meio do caminho, entre Ur e Canaã, mais próximo dessa última, na terra que já foi chamada de Madiã e hoje sedia a Arábia Saudita, Elohim ainda derivou as palavras Elaha (idioma Arameu, séc. 5 a.C.), Alaha (idioma Sírio, séc. 2 d.C.) e depois Allah (idioma Persa/Árabe, séc. 5 d.C.). Se o parentesco dos nomes é o que parece ser, El/Elyon é também Allah, de alguma forma pai/ancestral de Baal e Yaweh, que são deuses irmãos, ambos “senhores dos exércitos”.

ENTRE OS FILHOS DE RÁ

Em termos de Quem era o deus dos Israelitas no início de Canaã, podemos pensar em duas épocas: antes e depois do estabelecimento da monarquia. Antes dos juízes e reis iniciando com Saul, havia cidades-estado com deuses locais, derivados principalmente da cultura de Ur (Suméria). Com a chegada dos Hyksos, valores do Egito foram misturados aos deuses de Canaã, favorecendo divindades regionais e até nacionais. Em nossa proposta de ir rumo aos tempos mais remotos, vamos primeiramente falar da influência Egípcia em Canaã, ou seja, da época do início da monarquia.

A primeira referência Egípcia em Canaã evidentemente é o controverso Moisés. Como já discutido em outro texto, o Moisés bíblico parece ser uma fusão de vários personagens, o que de fato seria esperado se as estórias sobre ele tivessem sido reunidas ou costuradas nos tempos de Josias (648-609 a.C.) e não na época dele mesmo.

O Moisés mais antigo (aprox. 1500 a.C.), líder de um grupo Hykso que partiu do Egito após perder batalhas contra os faraós de Thebas, certamente era seguidor de Baal. Esse deus aparece nas inscrições dos palácios e templos Hyksos, lá no Egito. O segundo Moisés, sacerdote da 18ª dinastia do Egito (aprox. 1350 a.C.), adorava o deus-sol Aten e deixou sua terra em busca dos territórios aliados mais distantes, pois os sacerdotes Egípcios reestabeleceram o politeísmo e extirparam todos os traços do culto de Aten. Os sacerdotes eram ligados à realeza e esse talvez seja o Moisés (seu nome era justamente Moshe) associado com as riquezas registradas no livro do Êxodo, bem estranhas para um povo de escravos que foge pelo deserto.

Tomai do que tendes, uma oferta para o Senhor; cada um, cujo coração é voluntariamente disposto, a trará por oferta alçada ao Senhor: ouro, prata e cobre, azul, púrpura, carmesim, linho fino, pelos de cabras, peles de carneiros, tintas de vermelho, peles de texugos, madeira de acácia, azeite para a luminária, especiarias para o azeite da unção e para o incenso aromático. E pedras de ônix e pedras de engaste para o éfode e para o peitoral. (Êxodo 35.5-9)

Além disso, Moisés era um líder militar. Essa atuação provavelmente se deve ao general Mermoses (= filho de Mer), enviado na mesma época de Moshe para pôr fim a uma rebelião na terra de Kush/Núbia ao sul do Egito. Lá estavam as minas de ouro que forneceram à 18ª dinastia seus grandes tesouros. Há vestígios do exército de Mermoses perto dali, na Etiópia, onde o general Egípcio casou-se com a princesa da poderosa cidade-estado de Sabá. Com a expulsão dos sacerdotes de Aten, Mermoses certamente tornou-se inimigo da nobreza de Thebas e não é impossível que a Etiópia tenha fortalecido relações com reinos mais distantes, como Canaã. Talvez até Mermoses e sua família tenham migrado de uma terra a outra. Na Bíblia, encontramos passagens que de repente se conectam:

Miriã e Arão começaram a criticar Moisés porque ele havia se casado com uma mulher cuxita. (Números 12.1)

A rainha de Sabá soube da fama que Salomão tinha alcançado, graças ao nome do Senhor, e foi a Jerusalém ... Disse ela então ao rei: "... Bendito seja o Senhor, o teu Deus” ... E ela deu ao rei quatro toneladas e duzentos quilos de ouro e grande quantidade de especiarias e pedras preciosas. E nunca mais foram trazidas tantas especiarias quanto as que a rainha de Sabá deu ao rei Salomão. (1ª Reis 10)

Num tempo de guerras entre impérios, seria bem improvável uma rainha viajar tão longe levando uma considerável riqueza e em direção a um reino desconhecido. A influência da cultura Egípcia sobre Israel, supostamente levada pelos vários Moisés, faz-se notar na grande semelhança entre os 10 Mandamentos e um trecho do Livro dos Mortos, conjunto de orações escritas em tumbas para encomendar os espíritos ao Outro Mundo:

Eu não cometi pecado. Não cometi assaltos com violência. Não roubei. Não matei homens e mulheres. Não roubei grãos. Não tirei ofertas. Não roubei as propriedades dos deuses. Não menti. Não levei comida embora. Não proferi maldições. Não cometi adultério. Não me dediquei aos homens. Não fiz ninguém chorar. Não comi o coração. Não ataquei nenhum homem. Não sou um enganador. Não roubei terras cultivadas. Não fui um espião. Não caluniei ninguém. Não fiquei bravo sem justa causa. Não descartei a esposa de nenhum homem. Não me poluí. Não aterrorizei ninguém. Não transgredi a lei. Não fiquei irritado. Não fechei os ouvidos às palavras da verdade. Não blasfemei. Não fui violento. Não agitei de conflitos. Não agi com pressa indevida. Não criei discussões. Não multipliquei minhas palavras ao falar. Não errei. Não fiz nenhum mal. Não fiz feitiçaria contra o rei. Nunca parei o fluxo da água. Nunca levantei a minha voz. Não amaldiçoei os deuses. Não agi com arrogância. Não roubei o pão dos deuses. Não tomei os bolos khenfu dos espíritos dos mortos. Não arruinei o pão de crianças, nem tratei com desprezo o deus da minha cidade. Não matei o gado pertencente a um deus.

Mesmo pensando-se nos tempos de Davi e Salomão, principais figuras da monarquia de Israel, não demorou que os historiadores também reparassem numa incrível semelhança entre o Salmo 104 e o Hino a Aten, do tempo do faraó Akhenaten, do sacerdote Moshe e do general Mermose, cerca de 150 anos após o Êxodo (veja as referências, no final do texto). Basicamente, o Salmo apenas re-nomeia o Deus do hino como YHWH.

ENTRE OS FILHOS DE UR DOS CALDEUS

Falemos agora sobre o longo período pré-monarquia. Para começar, a nomeação de “Ur dos Caldeus” no texto do Gênesis é um sinal de que os autores do texto não eram tão antigos assim. A cidade-estado de Ur, próxima à foz dos rios Tigre e Eufrates, existe desde aprox. 3800 a.C., sendo uma das mais antigas conhecidas. Lá reinou o poderoso Sargão em 2000 a.C., de quem derivou a estória sobre o nascimento de Moisés. Os Caldeus, por outro lado, são um povo que somente se organizou na região de Ur por volta de 1000 a.C., bem depois do Êxodo. Os Caldeus ficaram especialmente conhecidos por seu notório rei Nabucodonosor, que comandou a invasão de Israel em 600 a.C.

O Gênesis nos conta que Abraão chegou em Canaã sob o comando de Deus, saído de Ur. A mitologia de Ur, assim, é a referência mais antiga que temos sobre o(s) deus(es) Israelitas em Canaã. Essa mitologia traz, inclusive, uma versão do Dilúvio. A principal divindade de Ur era El, o Criador, nascido quando o Céu e a Terra se separaram. Furioso, o Céu começou a destruir seus filhos (deuses) sobre a Terra, mais ou menos como El Shaddai exterminando os filhos dos anjos com os humanos (Gênesis 6). Entre esses deuses estavam El e Asherat/Baalat. El atacou o Céu com uma lança e castrou seu pai, ao mesmo tempo afugentando-o. Ele teve então 70 filhos com Asherat, destinados a comandar as nações na Terra. Entre tais filhos estavam Yam (senhor do mar), Mot (a morte), Baal (senhor dos relâmpagos) e Yaweh (senhor do fogo). Reparemos que, no Pentateuco, Yaweh/YHWH faz sua aparição a Moisés num arbusto em chamas, solicita depois que os sacrifícios sejam queimados e finalmente incendeia o altar feito por Elias. Isso para não falar das "línguas de fogo" sobre os apóstolos, no livro de Atos. Tanto Baal quanto Yaweh receberam Canaã como reino, e talvez isso explique Sua forçosa convivência e as intermináveis disputas dos sacerdotes de um de outro nos tempos das monarquias de Israel.

Yam e Baal duelaram pela sucessão de El na hierarquia dos Elohim (deuses). Exército divino contra exército divino, Baal venceu e cortou Yam em pedaços, espalhando-o pelo mundo. Assim surgiram os diversos mares. Baal então casou-se com a própria mãe Asherat e sua mãe/esposa convenceu El a erguer-lhe um palácio. Com seu castelo pronto, Baal começou a tomar todas as cidades humanas e chamou Mot para aterrorizar os que ficassem contra ele. Mot se ofendeu com a ordem e ameaçou devorar Baal, mas o deus-sol transfigurou um jovem humano para a semelhança de Baal, de forma que Mot aniquilou o ser errado.

El interveio pelo filho, mas Mot afirmou que não sabia onde a alma de Baal estava. Asherat, furiosa, lutou com Mot e o destruiu. Quando Baal reapareceu, El refez Mot e requisitou a paz entre os irmãos. Baal ofereceu seus próprios súditos (humanos) a Mot, que novamente se enfureceu, mas foi advertido por El que não deveria tocar no Seu sucessor. Yaweh e os outros deuses somente são citados na mitologia quanto às terras que herdaram.

El se tornou um deus-patrono de Canaã, citado nos nomes de grande parte das cidades, especialmente as mais antigas. Baal e Asherat, também nomeadores de cidade antigas como Byblos, foram cultuados como o deus das tempestade e a deusa dos bosques, respectivamente. O nome de Yaweh, por volta de 3000 a.C., era associado à rota das caravanas de Madiã que passavam pela região vulcânica do oeste da Arábia, onde haviam minas de ouro (a terra de Ofir citada no Gênesis).

O DEUS DAS MONTANHAS

Quando Deus se apresenta a Abraão, pouco depois de 2000 a.C., Ele chama um habitante ou nobre de Ur bem no tempo do poderoso rei Sargão e quando Ur era apontada pelas lendas Sumérias como o ponto de contato entre a Terra e o mundo celestial. Para esse fundador afortunado, Ele se apresenta como El Shaddai. O mesmo nome é usado no livro de Jó, considerado o mais antigo de toda Bíblia.

El claramente é uma referência ao patrono de Ur. Shaddai é uma palavra derivada da língua de Ur, vinda de Shadu (montanha), aparentada com o hebraico Shadé (área selvagem) e o árabe Shaddid (forte). Uma antiga cidade da Síria, entre duas montanhas, usava o nome Shaddai. A palavra era usada no hebraico antigo para especificar fronteiras ou limites, e mais tarde o deus que impunha limites ou delimitava a terra, o céu e as águas, ordenando o caos do mundo. Na Babilônia de Nabucodonosor, um esquema parecido colocava o deus Marduk lutando contra o dragão Tiamat, símbolo do caos. Também Baal combatia Yam, o mar. A referência ao "deus da(s) montanha(s)" reaparece depois inúmeras vezes, no Zeus (também chamado Jove!) dos gregos, com Moisés no Sinai, na recitação do Alcorão, nos deuses Incas, etc.

RESUMO DA VIAGEM

Shaddai provavelmente é o nome mais antigo de deus, associado a uma força ordenadora do mundo que reside nas montanhas sagradas. El criador se tornou El Shaddai, o ordenador e Elyon, aquele que está acima dos deuses. Futuramente, se tornaria o Allah dos Muçulmanos. Dele vieram Baal e Yaweh, guerreiros dos raios e do fogo, que foram misturados pelos vários Moisés ao Aten senhor/criador do Egito. Josias fez a opção por manter o nome YHWH, mas de fato uniu os cultos de El, Aten, Baal e Yaweh, extirpando o nome de Asherat. YHWH (pronúncia Javé) permaneceu, por muitos séculos, como a forma do nome de Deus. Finalmente, Jesus introduziu Abba (pai), que baseou o Cristianismo com Ele mesmo sendo representante e parte de Deus. Mais tarde, temendo pronunciar o nome divino, apareceram formas de substituição como Adonai, Shema, Ha Shem, Kyrios, Theos e Dominus. Longe de desafiar o monoteísmo, essa “linhagem” talvez nos torne mais humildes ao ver que Deus se mostrou ou foi visto de formas bem diferentes pelos homens ao longo do tempo.

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PAPÉIS AMARELADOS

Bethel – wikipedia
Budge EAW, Egyptian book of the dead, The papyrus of Ani – holybooks.com
El (deity) – wikipedia
El Shaddai – wikipedia
Elohim – wikipedia
Elyon – wikipedia
Herzog Z, Deconstructing the walls of Jericho, Ha'aretz Magazine, Oct 29, 1999.
I am that I am – wikipedia
Josiah – wikipedia
Masoretic text – wikipedia
Tetragrammaton – wikipedia
The hidden history of Jehovah – hiddenmisteries.org, 2004
Ur - wikipedia
Yaweh – wikipedia

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Êxodo fora da novela

canal Bahr Yussef, em uma foto de 1885, colorida à mão

A história do Êxodo sempre inspirou muita discussão, tanto pelo sentido religioso de um pacto feito com Deus quanto pelo sentido militar em que definiu territórios de clãs ou grupos tribais na Canaã antiga. Tento apresentar aqui mais uma teoria (e nenhuma delas é nova) sobre o Êxodo e seu desenrolar.

ABRAÃO
A relação dos Israelitas com o Egito é antiga. O pacto de Deus Todo-poderoso com Abraão foi “de você farei nações, de você procederão reis” e “toda a terra de Canaã darei como propriedade perpétua a você e a seus descendentes” (Gênesis 17). Esse pacto foi selado com Abraão e Sara mudando seus nomes, assim como Abraão circuncidando a si mesmo e a Ismael, seu filho com Hagar, uma serva Egípcia. A referência a essa serva é muito interessante, pois a influência do Egito sobre Canaã antes do Novo Império (supostamente no período Pós-êxodo, a partir de 1550 a.C.) era nenhuma. Assim, o 1º descendente a herdar o pacto com Deus foi, de certa forma, um Egípcio.

Ismael, tido como patriarca pelos muçulmanos, recebeu a promessa de ser prolífero, pai de uma grande descendência, de 12 príncipes e um grande povo (Gênesis 17.20). Por causa disso, hoje os muçulmanos são o grupo mais numeroso a praticar a circuncisão. Isaque, tido como patriarca pelos judeus, foi o ancestral das tribos que conquistaram Canaã a partir do Egito (Com ele [Isaque] estabelecerei a minha aliança, que será aliança eterna para os seus futuros descendentes, Gênesis 17.19)

Abraão deixou tudo o que tinha para Isaque. Mas para os filhos de suas concubinas (como Quetura, que gerou várias tribos árabes) deu presentes; e, ainda em vida, enviou-os para longe de Isaque, para a terra do Oriente (Gênesis 25.5,6).

CHEGANDO AO EGITO
Tudo começa com a chegada dos Israelitas ao Egito. Jacó/Israel, herdeiro de Isaque, teve filhos com Lia e Raquel (irmãs) e com suas respectivas escravas Zilpa e Bila, gerando assim 12 clãs. José e era um dos filhos de Raquel e foi vendido pelos irmãos para uma caravana de Ismaelitas de Midiã vindo de Gileade (terra de Moab), com camelos carregados de especiarias, bálsamo e mirra, que eles levavam para o Egito (Gênesis 37.25). Essa passagem mostra os Ismaelitas como um grupo étnico reconhecido, assim como sugere o Egito como um centro comercial. Lá no Egito, após muitas aventuras, José alcança status e casa-se com Asenet, filha de Potifar, capitão da guarda do faraó (Gênesis 39.1) ou sacerdote da cidade de Om (Gênesis 46.20) (também referida como Iwnw ou Awen), de quem nascem os chefes de clã Manassés e Efraim. Para o Egito também foram os 11 irmãos de José, transferindo assim toda a linhagem real de Jacó/Israel de Canaã para Goshen, ao leste do delta do Nilo, supostamente em um período de estiagem severa.

A Bíblia é controversa ao dizer que os Israelitas ficaram 400 anos no Egito (Gênesis 15.13) e ao mesmo tempo que se trataram de 4 gerações (Gênesis 15.16). Mesmo que o tempo de vida dos descendentes de José e seus irmãos tenha sido muito dilatado (e a Bíblia coloca personagens centenários para isso, apesar da delimitação feita na época do Dilúvio, Gênesis 6:3), teríamos que acreditar que cada chefe tribal gerou um sucessor apenas nos últimos anos de sua longa vida para poder contar só 4 gerações (usualmente 120 anos) e não 10-15 gerações. Como veremos a seguir, a instabilidade de poderes políticos no Egito favorece pensar numa estadia mais curta dos Hebreus por lá, especialmente se estivessem aliados às altas classes do governo (nobreza, guarda, sacerdotes e escribas).

SEMITAS NO EGITO
A palavra Semita faz referência a Sem, um dos filhos de Noé. Atualmente, essa palavra é usada para designar os povos da Ásia Ocidental, como Turquia, Irã, Iraque, Síria, Jordânia, Israel, etc. Em certo ponto da história antiga (~ 1800 a.C.), muitos comerciantes Semitas deslocaram-se para o leste do Baixo Egito, para a terra de Goshen. O Egito era então formado mais ou menos por duas regiões: uma extensa planície fértil entre a 1ª cachoeira e a foz do Nilo, onde o rio se reparte em muitos braços,  como no Pantanal brasileiro, chamada Baixo Egito; e outra montanhosa, onde o Nilo é um rio único, acima da 1ª cachoeira. Não havia um poder central, mas diversas cidades-estado com seus faraós e hierarquias de poder entre si.

Lentamente os Semitas dominaram o comércio entre as cidades-estado Egípcias. Por volta de 1720 a.C., haviam transferido para os seus chefes de clãs e estruturaram um poder político próprio, que não apenas desafiou os governantes locais mas assumiu o comando de cidades, enquanto as famílias reais Egípcias duelavam entre si. Logo ergueram uma cidade-estado própria, que denominaram a nova capital do Baixo Egito, chamada Avaris (ou também Hut Waret, Hawat Wurat, etc). O nome significava “grande casa”, pois Avaris contava com imensos depósitos e um porto capaz de ancorar 300 navios de carga.

Os “novos nobres” (na verdade descendentes de clãs reais Semitas que se instalaram no Egito) eram comerciantes e ocuparam-se muito mais de substituir o poder político anterior e formar rotas comerciais do que em conquistar militarmente as terras vizinhas. Em algumas décadas seu poder se estendia até o Alto Egito, comandado pela cidade-estado de Thebas, acima da 1ª cachoeira. Cidades prósperas como Xois, no delta do Nilo, simplesmente estabeleceram tratados de tributos a Avaris ou nem isso, se tivessem produtos ou rotas comerciais a oferecer. Xois, por exemplo, produzia vinhos famosos, vendidos às famílias reais de toda costa do Mediterrâneo. Esse comércio de vinhos contou com a bênção de Avaris e ganhou o apoio de uma frota de navios subindo o Nilo até Thebas e além, para a o reino da Núbia/Cush ao sul. Os navios dessa época eram veleiros com quilhas, uma tecnologia antes desconhecida no Nilo. No Alto Egito, ainda, o comércio de produtos da região costeira (como as tintas de conchas, usadas nas pinturas dos palácios Egípcias que vemos até hoje) chegaram em grande parte levadas por terra, com a introdução de um animal muito comum na Palestina, mas então jamais descrito ou pintado na África: o burro.

Os Semitas não eram adeptos de erguer estátuas dos seus reis ou deuses, de forma que a 15ª dinastia do Egito contrasta muito com o Novo Império e suas estátuas de pedra colossais. Mas uma obra dos reis Semitas persiste até hoje: um grande canal cavado paralelamente ao Nilo, a oeste, se estendendo por metade do Egito e desembocando em um imenso lago artificial, o lago Méris, na depressão de El-Fayoum. Esse canal drenava água do Nilo mesmo nas épocas de baixa e a conduzia por canais menores para as áreas de cultivo a oeste. O nome do canal principal, mantido por gerações de faraós posteriores, é muito sugestivo: Bahr Yousef, ou filho/braço/ramo de José.

Os reis/faraós Semitas foram chamados, pelos Egípcios, de Hyksos. O povo Semita era chamado Aamu. A palavra Hykso aparece em escritos muito posteriores e não se sabe se era, na época deles, um nome em uso. Trata-se mesmo de um nome com significado duvidoso: o historiador Egípcio Manetho, da época de Alexandre o Grande (300 a.C.), interpretou a palavra como “reis pastores”, mas também como “pastores cativos”, apesar de saber que se referia a um grupo de reis. Os Hyksos reinaram no Baixo Egito por 200 anos, havendo depois uma evacuação de todo seu povo, à medida que o poderio militar da nobreza de Thebas cresceu. Manetho, por exemplo, fala em 480 mil Semitas deixando o Egito. Flavius Josephus (ou também Yosef ben Mattityahu), historiador romano-judeu do século 1 d.C., leu os documentos de Manetho e viu nesse movimento o Êxodo das Escrituras.

De fato, quando a Bíblia fala em 600 mil homens Israelitas e suas famílias saindo do Egito, não há como negar a semelhança dos eventos. A grande questão é se o José bíblico esteve no Egito antes, durante ou depois dos Hyksos. Se fosse antes, dificilmente as Escrituras não falariam sobre um reino Semita, especialmente quando José fala sobre vacas, que são animais tipicamente pastoreados na planície do Nilo. Se fosse depois, José e sua família jamais seriam bem-vindos: quando Thebas expandiu seu poder militar e unificou o Egito sob seu governo, inaugurando o Novo Império, o Egito se tornou uma nação conquistadora e repeliu ferozmente até nações mais bélicas, como os Assírios, no leste. Curiosamente, quase tudo que sabemos sobre a riqueza do Egito vem do Novo Império, cuja arte, metalurgia, armas e carruagens foram levados para lá pelos comerciantes de Avaris, que Thebas tão duramente combateu. Somos mais ou menos forçados a pensar que José e seus irmãos, chefes tribais de Canaã, fizeram parte do movimento Hykso de ocupação política. De fato, isso se parece muito com José entrando para a nobreza Egípcia e levando seus familiares para ocupar terras. Não se fala em ocupação militar nem na Bíblia, pois tudo indica que a chegada e o estabelecimento dos Hyksos foi bastante pacífica.

ÊXODO
A grande pergunta dos historiadores sempre foi “Como interpretar historicamente o Êxodo?”. Alguns problemas antigos quanto a isso são (1) não há qualquer escrito Egípcio sobre a escravidão de Israelitas e, bem ao contrário, os Egípcios parecem ter sido contrários à posse de escravos; (2) não há qualquer relato Egípcio sobre as 10 pragas; (3) não há qualquer relato Egípcio sobre a perseguição aos Israelitas pelo deserto; (4) a distância entre a cidade de Ramsés - supostamente o ponto de partida do Êxodo - e Jerusalém é suficientemente pequena para ser percorrida em alguns dias de caminhada; (5) as cidades de Canaã contra as quais o livro de Josué registra grandes batalhas deixaram ruínas pequenas, a maioria sem evidência de muralhas, e os resquícios de incêndios ou devastações são muito antigos e espaçados no tempo por até 1000 anos. Aqui, defendo a idéia (nem um pouco original ou mesmo recente) de que o texto do Êxodo é, na verdade, algo como uma colcha de retalhos, juntando histórias de diferentes fontes e diferentes tempos. Perdido esse valor histórico (infelizmente não vejo outra saída para isso), ainda me parece poderosa a idéia de um relato contando sobre as vidas, costumes e contatos com Deus que nortearam a construção de um povo. Afinal, o próprio Jesus falou sobre Moisés.

Moisés é um personagem singular na história bíblica. Ele, Aarão e Miriã/Maria eram filhos de Amram e sua esposa Jocabed, ambos Israelitas (Freud defendia uma idéia diferente, afirmando que Moisés era Egípcio). Jocabed era irmã de Caat, pai de Amram. Caat era filho de Levi, o irmão de José que fundou uma misteriosa dinastia destituída de terras. Ou seja, Moisés era, conforme a profecia feita por Deus a Abraão, a 4ª geração após José (Gênesis 15.16). Pensando em vidas humanas normais, isso coloca Moisés 100-150 anos após José. Seria tempo suficiente para a chegada dos nobres Cananeus ao Egito em 1650 a.C. e sua expulsão pelos faraós de Thebas em 1550 a.C. Além disso, sabemos que a história de Moisés aglutinou a lenda sobre o nascimento de Sargão de Acádia, na Assíria, uns 1000 anos antes.

Como dito antes, Manetho cometeu uma confusão ao interpretar a palavra Hykso, pois no idioma Semita que usavam, podia significar pastor, estrangeiro ou cativo. Curiosamente, a exata mesma confusão ocorria com a palavra Canaã. Assim, é possível que os escritores do texto do Êxodo tenham interpretado que Israelitas no Egito eram “cativos”, quando podia significar “pastores” (pois Thebas mesmo pagava aos Hyksos para cuidar de seus rebanhos de vacas no delta do Nilo) ou simplesmente “estrangeiros”. A Bíblia de fato é muito pobre ao descrever a vida dos Israelitas como escravos, não apresenta nomes de locais nem de governantes. O que coincide entre a história e o texto do Êxodo, de forma ainda que fabulesca, talvez seja a perseguição dos Egípcios aos Israelitas.

PARA FORA DO EGITO
Manetho falava de reis como Ahmés/Ahmosis I atacando Avaris de tal forma que as mulheres ficaram estéreis e a cidade foi arruinada. Mas ele não viu esses eventos; pior, os Egípcios tinham o mal hábito de registrar a história como convinha e não como realmente foi. Tutankhamen, por exemplo, que foi um peão dos sacerdotes de Thebas e morreu aos 20 anos sem jamais ter ido a uma batalha, teve seu túmulo todo decorado com cenas de batalhas e vitórias militares fictícias. Quanto a Manetho, as ruínas de Avaris mostram que as muralhas foram reconstruídas durante vários anos. O primeiro faraó de Thebas a conduzir um ataque à cidade, Seqenenre Tao (ou Taa) morreu com um golpe de lâmina no lado direito do rosto, em batalha. E mesmo após a queda de Avaris, há sinais de que os Hyksos mantiveram o controle comercial do Baixo Egito por outros tantos anos. Assim, é possível que, à semelhança de Manetho, o Êxodo bíblico retrate como uma fuga apressada o que foi um movimento lento de desocupação das terras e substituição do poder por uma nova monarquia. Ainda, é provável que tenha sido um movimento de evacuação dos “pastores” ou ainda dos “estrangeiros”, mas não dos “cativos”.

De qualquer forma, é estranho que o Êxodo não faça qualquer referência a Avaris, a cidade forte dos Hyksos e sua capital. Apesar disso, fala-se de Ramsés, ou mais propriamente Pi-Ramsés, uma cidade do Novo Império erguida pelo faraó de mesmo nome ao lado e sobre as fundações da antiga Avaris, usando seus grandes silos de grãos e até mesmo as estruturas do palácio real. Escrito bem depois da partida dos Hyksos, os autores do Êxodo provavelmente se depararam com a grande Pi-Ramsés e suas estruturas elaboradas (de tijolos!) contendo muitos símbolos Semitas. Na Bíblia, os tijolos são citados como fruto do trabalho dos Israelitas, o que provavelmente se deveu às grandes obras que alguma testemunha encontrou, mais tarde. Os tijolos nunca foram um material de construção típico do Egito, mas sim da Caldéia, entre os grandes rios Tigre e Eufrates, de onde saiu Abraão.

Os Egípcios desmantelaram algumas estruturas da cidade, como seu templo, para usarem as pedras nos assoalhos de Pi-Ramsés. Nas inscrições que seriam eternizadas, chamaram os Hyksos de horda do leste que desrespeitava os deuses. Até compuseram uma mítica batalha entre Hórus, o vingador filho de Rá/Osíris e Set, um deus da tempestade forjado a partir de Baal, a divindade dos Hyksos. Nessa batalha, Hórus derrota Set e o expulsa para o deserto oriental. Até Apep/Apophis, o último rei Hykso, teve seu nome demonizado na forma de uma criatura da noite que duelava com Rá para devorar o Egito.

[Jacó a José] [dize ao Faraó] que teus servos criam rebanhos desde pequenos, como o fizeram nossos antepassados. Assim lhes será permitido habitar na região de Goshen, pois todos os pastores são desprezados pelos egípcios. (Gênesis 46.34)

RUMO A CANAÃ
Se o deus dos Hyksos era Baal, exatamente onde entra Javé nessa história? Uma teoria é que os Hyksos, tal como mostra a variedade de registros que deixaram, eram um povo misto, formado por dois ou mais grupos étnicos dos Semitas. Isso explicaria conflitos estranhos como os envolvendo Madianitas: Moisés passou um tempo em Madiã, até se casou e teve filhos com uma Madianita, era aconselhado por um sogro sacerdote de Madiã, mas empreende extermínios e até guerras contra os Madianitas!

Outra teoria significativa é de que houve, como numa colcha de retalhos, vários “Moisés”: um sacerdote Egípcio cultuador do deus Aten, um sacerdote Madianita cultuador dos deuses El e YWH e um legislador-lider político Árabe, provavelmente seguidor dos deuses El e Baal. Essas três lideranças (e talvez pelo menos o Egípcio, mais recente de todos, se chamasse realmente Moisés) teriam sido associadas a uma mesma pessoa nos tempos de Ezekias (aprox. 690 a.C.), Josias (aprox. 620 a.C.) ou Esdras (aprox. 460 a.C.), quando a história dos Israelitas foi colocada em textos. O aparecimento de Javé como motivador e guia do Êxodo teria a ver com sua elevação (em tempos bem mais recentes) acima de outros deuses dos Hyksos como El (grande parte das cidades e Canaã leva o nome do “senhor dos leões”), Baal (deus da tempestade, também muito comum nos nomes das cidades de Canaã) e YHW (deus dos vulcões e da guerra, em tempos mais antigos, com nome só reproduzido em cidades a leste da Síria).

Nos tempos do Novo Império, quando os Semitas recuaram e o poder de Thebas transcendeu o Egito, os comerciantes Cananeus foram repelidos para a terra de Sharuhen (no sudoeste da Judéia), onde ergueram uma cidade fortificada e mais tarde, segundo Manetho, acabaram fugindo para fundar uma cidade chamada … Jerusalém! Sharuhen é citada muito tempo depois, como um dos limites de terras no livro de Josué (Josué 19.6). A cidade foi cercada pelas tropas do neto de Seqenenre Tao por 3 anos, até que os Egípcios a destruíram. Algumas teorias sobre o desaparecimento das referências aos reis Hyksos após esse evento são de que a linhagem real foi exterminada pelo ataque Egípcio a Sharuhen ou de que o poder passou a linhagens nativas de Canaã, como Her e Onã, filhos de Judá. Também, Gad e Rúben, filhos de Jacó/Israel que são relatados no Egito com José, são compelidos a apoiar os exércitos de Josué, como se não fossem parte do exército, mas senhores fixos na terra por onde o exército passa.

“Se podemos contar com o favor de vocês, deixem que essa terra seja dada a estes seus servos como nossa herança. Não nos façam atravessar o Jordão". Moisés respondeu aos homens de Gade e de Rúben: "E os seus compatriotas irão à guerra enquanto vocês ficam aqui? Por que vocês desencorajam os israelitas de entrar na terra que o Senhor lhes deu?” (Números 32.5-7)

NÃO É UMA VISÃO ORTODOXA
Apesar do desvio do entendimento que o Êxodo propõe da história, algumas partes da trajetória dos Israelitas são documentalmente muito fictícias. Muitas cidades citadas como sendo edificadas pelos clãs dos Israelitas são (hoje sabemos) lugares habitados desde a pré-história. Os Horreus, um povo cuja destruição também é citada, são referidos em outros momentos como se fundindo com os filhos de Esaú nas montanhas de Seir (Gênesis 36). Essa inconsistência histórica, em geral, se deve à redação de um texto em épocas bem posteriores aos eventos que ele descreve.

Em seu célebre estudo sobre Moisés, Freud atentou para um fato pouco discutido, que era a prática de circuncisão entre os Egípcios. O historiador grego Heródoto (450 a.C.), em seus passeios pelo mundo antigo, guardou esse fato. A inscrição mais antiga mencionando a circuncisão é a tumba do Egípcio Uha, em Saqqara, de 2400 a.C., bem antes da presença Semita no Egito. Mesmo que os Israelitas não praticassem a circuncisão antes do Egito (apesar do que falam os escritos sobre Abraão), com certeza compartilharam esse costume com os Egípcios. Ao retornarem para Canaã, talvez a coisa mais improvável fosse que esquecessem tal costume (o próprio culto de Ápis, que não era tão significativo no Egito, foi levado pelos Israelitas). Dois eventos muito curiosos quanto a isso são a circuncisão de um dos filhos de Moisés (Gérson ou Eliézer, o texto não deixa evidente) no caminho entre Madiã e o Egito (Êxodo 4.24-26); e também a circuncisão por Josué dos que nasceram no caminho entre o Egito e Canaã (Josué 5.2-9).

O primeiro evento é uma lembrança clara a Moisés do pacto de Abraão, sobre um povo do qual ele supostamente fazia parte apenas pela via biológica. O segundo evento já fala da retomada de um costume esquecido nos tempos de Moisés como líder e retomado por seu sucessor. Não há como ambos serem verdadeiros, no sentido literal. Se a circuncisão foi tomada como pacto religioso-social, talvez Freud tivesse razão ao pensar que tanto um evento como outro sinalizasse a junção de outros povos aos Israelitas; primeiro um secto dos Madianitas e depois um secto dos Egípcios. Entre uma coisa e outra, o segundo evento marca a chegada em Canaã, com a sucessão de líderes: Moisés, depois Josué, depois os líderes das famílias que receberam terras. Essa sucessão de 3 lideranças levaria, pelo menos, 40 anos! Isso pode indicar que o tempo do Êxodo, ao invés de uma simples peregrinação de poucos quilômetros pelo deserto, poderia ser uma sucessão de lideranças de clãs até a fixação da nova estrutura de poder em Canaã.

De qualquer forma, após a queda de Sharuhen, acabaram os relatos Egípcios sobre os Semitas como um povo guerreiro. Mas, 200 anos após sua saída do Egito, quando o Novo Império já sofria com disputas entre as famílias nobres de várias cidade-estado, uma carta de barro em idioma de Acádia, da cidade-estado de Biblos, no litoral, trouxe ao faraó informações sobre os Semitas:

“Rib Hadda [rei de Biblos] diz ao seu senhor, rei de todos os países, grande rei: Que a Senhora de Gubla [Baalat, forma feminina de Baal] conceda poder a meu senhor. Eu caio aos pés de meu senhor, meu sol, sete vezes e sete vezes. Que o rei, meu senhor, saiba que Gubla [Biblos], a serva do rei dos tempos antigos, é segura e sã. Entretanto, a guerra dos Apiru [Hebreus] contra mim é severa. Nossos filhos, filhas e os móveis das casas se foram, vendidos na terra de Yarimuta por provisões para nos mantermos vivos. Por falta de cultivador, meu campo é como uma mulher sem marido. Eu escrevi repetidamente ao palácio [do faraó Akenathen] por causa da doença que me aflige, mas não houve quem olhasse as palavras que continuam chegando. Que o rei dê ouvidos às palavras do seu servo ... Os Apiru mataram Ad [o rei] de Irqata ... E eles continuam tomando os territórios por si mesmos. ... Eu estou com medo … ”

A carta faz pensar numa atividade militar de muitos reinos, semelhante ao descrito no livro de Josué, porém bem além de Canaã. Isso dá conta de que os Hyksos/Aaamu repelidos do Egito não eram apenas um povo comercial, mas uma estrutura política e militar que se estabeleceu de forma poderosa do sul ao norte do rio Jordão, o que se refletiria em toda história bíblica posterior.

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RESTOS DE UM PAPIRO QUEIMADO
Bernal M, Black Athena: The linguistic evidence, Rutgers University Press, 1987
Blumenthal F, The Circumcision Performed by Zipporah, Jewish Bible Quarterly 35(4):255-259, 2007
Engberg RM, The Hyksos Reconsidered, University of Chicago, 1939
Canaan- wikipedia
Manetho on the Hyksos, An introduction to the history and culture of Pharaonic Egypt, reshafim.org.il
Mark JJ, Hyksos, Ancient History Encyclopedia, fevereiro de 2017
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Rib-Hadda - wikipedia
Sharuhen - biblehub.com
Sharuhen - wikipedia
Wiener N, The expulsion of the Hyksos, biblicalarchaeology.org, novembro de 2015
Wood BG, Debunking "The Exodus Decoded", biblearchaeology.org, setembro de 2006

domingo, 26 de março de 2017

Cristãos fora da casinha


Ilustração de Gustave Doré do canto 19 da Divina Comédia, retratando a região do inferno onde habitam os que vendem dons espirituais

Certas vezes nos deparamos com alguns eventos difíceis de digerir. Foi assim com o assassinato ocorrido na Nicarágua em 21 a 28 de fevereiro desse ano. Noticiado em diversas partes do mundo, a Sra. Vilma Trujillo García, 25 anos, mãe de duas crianças (o mais velho com 5 anos) foi queimada viva em um ritual de exorcismo, sendo depois atirada na encosta de um rio, de onde foi socorrida e levada a um hospital, morrendo 7 dias depois. Não seria chocante saber que isso aconteceu num período de guerras, quando a brutalidade humana aflora, mas espanta saber que ocorreu esse ano, promovido por um pastor evangélico e quatro seguidores. Espanta mais ainda saber que, ao invés de impedir tal ato, os membros da igreja local se voltaram contra os familiares da vítima, ameaçando-os de morte.

A Sra. Garcia estava desde 15 de fevereiro na casa pastoral, onde delirava por alguma enfermidade, identificada como possessão demoníaca por haver adulterado. No dia do ritual, o pastor da igreja havia se trancado na igreja com ela e mais 11 membros a orar por ela, quando uma fiel recebe a revelação de acender uma fogueira, para que o demônio saísse de seu corpo e se lançasse ao fogo. Nalguns depoimentos à polícia, o pastor teria dado ordens de queimar a mulher para expulsar o demônio, noutros ela havia se jogado sozinha na fogueira. Como ela estava amarrada e a família passou a sofrer perseguições, parece claro qual é a versão correta.

Sempre penso se, fora do círculo religioso, longe da influência coletiva e da situação ritual, as pessoas racionalizam sobre o que fazem. Embora seja comum pensarmos em delírio religioso, frenesi, revelações feitas em transe, Paulo continuamente nos adverte sobre um culto racional a Deus, que significa mais ao que pensamos e fazemos do que à situação do culto em si. Paulo, apesar disso, afirmava que seu conhecimento (validado pelos que estiveram lado a lado com Jesus) fora dado por revelação. Jesus, mais ainda, dificilmente pode ser associado a uma situação de transe e revelação mística, fora da racionalidade. Pelo contrário, quem dormia e se entregava a simplesmente seguir o coletivo eram seus discípulos, frequentemente repreendidos. Jesus simplesmente sabia e punha em prática.

Os episódios mais místicos da vida de Jesus provavelmente foram o aparecimento de Moisés e Elias num monte (não identificado), quando ele estava em companhia de Pedro, Tiago e João e as revelações da última ceia, à qual seguiu-se um discurso no olival de Getsêmani (Gat -Shmanê, em aramaico, significa “prensa de azeite”). O aparecimento de Moisés e Elias, apesar disso, não é relatado pelo próprio João, um Judeu extremamente ciente do valor que Moisés e Elias tinham para seu povo. A descrição da última ceia segundo Mateus, Marcos, Lucas e Paulo é a revelação de que o pão e o vinho simbolizariam Jesus até seu retorno; segundo João, é uma lavagem dos pés dos discípulos como sinal de humildade. O discurso no Getsêmani é, segundo os sinóticos, um desabafo sofrido de Jesus ao Pai; segundo João, é uma longa oração encomendando ao Pai seus seguidores. Em outras palavras, os momentos em que Jesus revela o mundo espiritual e suas ligações com os homens são bem menos místicos na fala daquele discípulo que não apenas participou deles, mas também era o preferido do Messias. Nessa visão do ensino de Jesus, da qual obviamente compartilho, Ele não apresenta enigmas ou conhecimentos secretos, mas ações simples que poderiam ser imitadas.

O demônio, segundo João, não se encarcera nas pessoas para sacudi-las, fazer que esbravejem ou que rosnem. O próprio Jesus é chamado de possuído, por estar desafiando a autoridade dos Fariseus... O demônio de João inspira as pessoas a realizarem ações egoístas, em favor próprio e contra seus semelhantes.

Por que a minha linguagem não é clara para vocês? Porque são incapazes de ouvir o que eu digo. Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira. No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade! (João 8.43-45)

Não vemos Jesus matando ou tentando se sobressair aos demais. De fato, isso iria bem contra a idéia de lavar os pés dos próprios seguidores. Tomando o caso da Sra. Garcia, vem, claro, a pergunta sobre como um seguidor de Jesus poderia ordenar que se queime alguém vivo, especialmente para expulsar o demônio. Ou que se ameace de morte uma família em ruínas. Escapando desse caso em particular, como Jesus poderia apoiar discriminações dentro de um grupo de fiéis? Como veria o favorecimento de uns (mais ricos ou influentes) em detrimento de outros (que não tem riquezas a oferecer)? Ou como veria grupos religiosos que centram seu tempo em práticas rituais e místicas ao invés de prover a mais simples ajuda material e social aos que carecem dela?

Jesus também não fez milagres dentro de templos. Sua realização sobrenatural mais “entre paredes” talvez tenha sido produzir vinho a partir de água em uma festa de casamento (também, apenas João registra isso). No templo e nas sinagogas que frequentou (pois sim, Ele era Judeu), Jesus se prestava a ensinar sobre as escrituras. Nada de purificação dos fiéis, êxtases de cheios de revelações estranhas ou mesmo curas impossíveis para seu tempo. As curas Ele fazia e era famoso por isso, mas fazia em qualquer lugar onde as pessoas estavam, ou mesmo à distância. Como disse Padre Beto, “o extraordinário, o milagroso, a presença de Deus se fazia de uma forma muito mais cotidiana do que a imaginação humana desejava”.

Por mais estranho que possa parecer, o “modelo John Wesley de culto”, com diversas demonstrações chamativas e estranhas de ação do Espírito Santo sairiam bem estranhas aos 1os discípulos se andassem pelo mundo de hoje. Essas demonstrações estão mais próximas de uma interpretação particularmente difundida da escritura de Paulo (1ª Coríntios 12.8-11), dirigida a um povo grego que tinha como base religiosa os oráculos e sacerdotisas/pitonisas. Esse modelo de culto ainda se apoia em chamar de divino tudo aquilo que a própria razão esconde, e encontra espelhos em tradições nativas da Ásia e das Américas, às vezes empregando o uso de álcool, alucinógenos, etc para atingir o êxtase necessário ao contato dos homens com o sagrado. Isso certamente contribuiu muito para sua disseminação... Apesar da alta popularidade dessa forma no culto Cristão pelo menos desde o séc. 4, não encontramos nada semelhante a isso nos relatos bíblicos sobre Jesus. 

Também não há nada condenando tal forma, que pode até ser a fonte do texto de Apocalipse. Mas podem haver resultados concretos e catastróficos dessa “suspensão da racionalidade” sobre as pessoas. Algumas vezes, fiéis são estimulados a distorcer muito o “amor ao próximo” pregado por Jesus, fazendo um "eu te amo forçando você a ser como eu". Noutras situações, os fiéis são levados obedecer cegamente revelações ou instruções questionáveis, tais como queimar viva uma mulher. Ou ainda, pessoas simples podem se reconhecer profetas de um Cristianismo totalmente novo, do que levam pouco mais que o nome.

Quem poderá dizer: "Purifiquei o coração; estou livre do meu pecado?" (Provérbios 20.9)

Que ainda sejamos capazes de agir na simplicidade de ajudar ao próximo naquilo que ele nos pede ajuda, sem esquecer que estamos aqui como "cartas de Deus aos homens", e não para governar ou fazê-los tomar o rumo desgovernado da nossa própria imaginação.

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NOTÍCIAS ALARMANTES

Pe Beto, O milagre está fora das igrejas, Caros Amigos, 22/mar/2017

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A dúvida de Moisés

Christian Bale (2014) interpretou um Moisés recrutado quando Deus precisava de um general

Esse artigo foi construído sobre o modelo de Mark JJ, na bibliografia. Os recheios e confeitarias são obra minha.

Moisés é considerado um dos líderes religiosos mais importantes da história. Ele é reivindicado pelas religiões Judaísmo, Cristianismo, Islamismo e Bahai como um importante profeta e o fundador do monoteísmo. A história de Moisés é contada nos livros bíblicos de Êxodo, Levítico, Deuteronômio e Números, mas ele continua sendo referenciado em toda a Bíblia e é o profeta mais citado no Novo Testamento. No Alcorão, também é uma figura que alternadamente representa a natureza divina ou humana, sendo a pessoa mais citada: 115 vezes, enquanto Maomé é referido por nome apenas 4 vezes.

Moisés é mais conhecido pelo Êxodo e o Alcorão como o legislador que encontrou Deus cara a cara no monte Sinai para receber os 10 Mandamentos, depois de liderar os Hebreus desde a escravidão no Egito para a "terra prometida" de Canaã. A história do Êxodo só é encontrada no Pentateuco (os 5 primeiros livros da Bíblia) e no Alcorão, que foi escrito mais tarde. Nenhuma outra fonte antiga corrobora a história e nenhuma evidência arqueológica segura existe. Isso levou muitos estudiosos a concluir que Moisés era uma figura lendária - como Hércules, para os gregos - e a história do Êxodo, um mito cultural.

Moisés é mencionado por uma série de escritores clássicos, todos baseados nas histórias da Bíblia ou similares. Ele pode ter sido um personagem mitológico, com sua lenda contada e recontada, ou pode ter sido uma pessoa real ligada a eventos sobrenaturais, precisamente como retratado no Pentateuco e no Alcorão. Datar a vida de Moisés e o Êxodo é difícil, sempre havendo necessidade de fazer isso em conjunto com outros livros da Bíblia construídos sobre o próprio Pentateuco, o que cria uma pesquisa circular! É perfeitamente possível que a história do Êxodo tenha sido escrita por um escriba hebreu em Canaã, que desejava fazer uma distinção clara entre seu povo e os assentamentos antigos dos Amorreus na região. A história de um povo liderado até Canaã desde o deserto serviria bem a esse propósito.

MOISÉS NA BÍBLIA

O Livro do Êxodo parte da narrativa do Gênesis (capítulos 37-50) sobre José, filho de Jacó, que foi vendido como escravo por seus irmãos ciumentos e se tornou autoridade no Egito. José interpretou com precisão o sonho do faraó prevendo uma fome que se aproximava. Ele comandou os preparativos para os tempos de fome, sucedeu brilhantemente e trouxe sua família para o Egito. O Êxodo inicia-se com os descendentes de José tornando-se numerosos a tal ponto que o faraó, temendo uma tentativa de tomar o poder, resolveu escravizá-los.

Moisés aparece no 2º capítulo do livro, depois que o faraó (não identificado), preocupado com a crescente população dos israelitas, decreta que todo filho homem fosse morto. A mãe de Moisés o esconde por 3 meses, mas depois, com medo de ser descoberta, o deixa à deriva numa cesta de papiro no Nilo, onde ele flutua para o lugar em que a filha do faraó se banhava. A criança é tirada do rio pela princesa que o chama de "Moisés", alegando que ela escolheu o nome porque "o tirou da água" (Êxodo 2.10), pois "Moisés" significa "tirar". Mas desde o séc. 19, com a decifração da língua egípcia, sabemos que "Moisés" na verdade significa "filho de", o que mostra que o autor de Êxodo (supostamente o próprio Moisés) desconhecia tal idioma.

Moisés foge do Egito para a terra de Midiã. Lá ele resgata as filhas do sumo sacerdote Reuel - o nome aparece em Êxodo 2.18, depois sendo substituído por Jetro, que significa “excelência”. Reuel casa Moisés com sua filha Zípora e ele vive em Midiã como um pastor, até o dia em que encontra um arbusto em chamas, mas que não era consumido. O fogo era um anjo de Deus dizendo que ele deveria retornar ao Egito para libertar seu povo. Moisés não estava interessado e, sem rodeios, diz a Deus "Por favor, envie outro" (Êxodo 4.13). Deus não aceita ser questionado e deixa claro que Moisés retornaria ao Egito. Deus também garante que tudo ficaria bem, que o irmão hebreu Arão o ajudaria a falar e que poderes sobrenaturais que o capacitariam a convencer o faraó. Em uma passagem perturbadora para os intérpretes, Deus também avisa que "endureceria o coração do faraó" contra a mensagem. Noutra passagem tão estranha quanto, Deus vai ao encontro de Moisés em algum ponto do caminho até o Egito para matá-lo por não ter circuncidado o filho, mas Zípora apazígua o Senhor reconhecendo sua descendência hebraica (Êxodo 4.24-26).

Após as 10 pragas e dividir o mar para que seu povo escapasse do Egito, Moisés encontra Deus face a face e recebe os 10 Mandamentos, as leis de Deus para seu povo. No monte, Moisés recebe também instruções para a arca da aliança e o tabernáculo, uma tenda elaborada. Lá embaixo, seus seguidores pedem a Arão para forjar um ídolo, derretem os tesouros que trouxeram do Egito e fazem um bezerro de ouro. Quando Moisés desce a montanha, ele se enfurece e destrói as tábuas dos 10 Mandamentos. Ele chama todos os que permaneceram fiéis (incluindo Arão!) e manda matar aqueles que forçaram Arão a fazer o ídolo. Êxodo 32.27,28 afirma que cerca de 3000 foram mortos pelos levitas de Moisés.

Moisés e os anciãos fazem uma nova aliança com Deus, que re-escreve os Dez Mandamentos em outras tábuas e estas são colocadas na arca da aliança, dentro do tabernáculo. O povo não poderia mais questionar Sua existência nem perguntar Seus desejos, pois através dos Mandamentos e outras instruções, tudo já estava bem claro. Além disso, Ele mesmo estaria no tabernáculo. Mas o povo ainda duvida e é decretado que aquela geração vagaria pelo deserto até morrer; a próxima geração veria a terra prometida. O próprio Moisés é proibido de entrar e apenas vislumbra a terra do outro lado do rio Jordão. Ele morre e é sucedido no comando por Josué, filho de Nun. As provações e os desafios de Moisés mediando entre seu povo e Deus, assim como suas leis, são descritos nos livros de Números, Levítico e Deuteronômio. Junto com Gênesis e Êxodo (supostamente escritos por Moisés) esses livros compõem o Pentateuco, presente na Torá Judaica e herdado pela Bíblia Cristã, em sinal de uma continuidade da relação com o deus Javé/Jeová através de Jesus.

ENTEÓGENOS À PARTE

Uma visão inédita de Moisés foi apresentada em 2008 por Benny Shanon. Estudioso dos efeitos de enteógenos (alucinógenos usadas em rituais religiosos) sobre a consciência humana, ele fez um estudo comparativo da experiência de Moisés no Sinai e dos rituais associados à Ayahuasca, uma combinação de infusões preparadas da trepadeira Banisteriopsis caapi com as folhas, do arbusto Psychotria viridis. Sua proposta é de que a fundação do monoteísmo por Moisés teria grandes similaridades com os cultos ameríndios baseados na Ayahuasca (como o Santo-daime).

Enquanto a P. viridis é rica no alucinógeno DMT (um dos mais poderosos conhecidos), a B. caapi bloqueia o processo digestivo para que tal substância seja absorvida. No cérebro, o DMT não apenas produz visões que a maioria das pessoas chamaria de sobrenaturais, mas cria uma sensação de religiosidade poderosa o suficiente para induzir conversões. Shanon encontrou um mecanismo semelhante na combinação da seiva rica em DMT da árvore Acácia (mais precisamente Acacia albida, A. lactea, A. tortilis, A. seyal e A. nilotica) com as folhas do arbusto Peganum harmala (harmal em árabe, significando "sagrado"), ricos harmina e harmalina, que bloqueiam a digestão do DMT. Ambas as plantas são encontradas no Oriente Médio, utilizadas pelo beduínos como plantas medicinais e a Acácia, em especial, foi escolhida como a madeira mais preciosa por Moisés, usada para fazer a Arca da Aliança e partes do tabernáculo (Êxodo 25.2-9). A Acácia também sagrada no Egito, de onde Moisés saiu. Shanon ainda compara a estrutura das descrições visuais de Moisés a respeito de Deus (Êxodo 24.9-11Êxodo 33.12-23) com relatos de usuários de Ayahuasca e suas próprias experiências com o P. harmala, apontando grandes semelhanças como a visão de luzes, um ser soberano sem rosto e a sensação de passagem acelerada do tempo que, para Moisés, seria o equivalente de um arbusto queimando sem ser consumido.

Eu vi uma criatura. Era uma mulher, mas não uma pessoa normal, nem um ser humano normal. Vi ela claramente, mas não vi seu rosto. Eu queria tanto ver seu rosto que implorei "por favor, por favor, mostre seu rosto para mim". Ela caminhou para frente, para longe, de costas para mim. Continuei implorando. Muito rapidamente ela virou a cabeça para trás. Foi tão rápido que eu mal pude ver, a única coisa que detectei foi um sorriso. Ela tinha sorrido de uma forma que era ao mesmo tempo benevolente e zombeteira, como se para indicar o quão pequeno eu era como um ser humano. E então ela continuou caminhando de costas para mim. (Shanon B, p. 61)

Deixando claro que seria muito improvável comprovar historicamente sua tese, pois a Bíblia não é clara quanto à definição de plantas e rituais antigos, ele também descreve propriedades provavelmente alucinógenas do ktoret ou ktoret ha-samim, o incenso usado no Templo, segundo o Talmude. Essa mistura de resinas do Oriente Médio é citada outras vezes no Antigo Testamento em associação com Moisés (Levítico 10.1,2, Números 16.16,17), possuindo tanto propriedades curativas quanto letais. Sem dúvida, a importância do incenso como conector com o divino é mostrada quando Jesus recebe tal oferta em Seu nascimento.

Segundo Shanon, alguns enteógenos (cujo uso religioso se perdeu e não foi devidamente registrado) podem ter sido envolvidos nas experiências de Moisés com Deus.

MOISÉS NO ALCORÃO

Moisés é mencionado muitas vezes no Alcorão como um homem justo, um profeta e um sábio. No Êxodo do Alcorão, Moisés é um servo devoto de Allah confiando na sabedoria divina. Em Sura 18.60-82, no entanto, uma história de cunho educativo mostra como mesmo um grande e justo ainda tem muito a aprender de Deus.

Depois que Moisés fez um sermão particularmente brilhante, um membro da platéia pergunta se há outro na terra entendido nos caminhos de Allah como ele; Moisés responde que não. Allah informa que sempre haverá aqueles que sabem mais em qualquer coisa, especialmente em relação ao divino. Moisés pergunta a Allah onde ele pode encontrar tal homem e Allah o instrui como chegar até Al-Khidr, a quem Moisés pergunta se ele poderia segui-lo e aprender dele. Al-Khidr responde que Moisés não entenderia nada que ele dissesse ou fizesse e não teria paciência. Após muita insistência, ambos saem juntos. No caminho, Al-Khidr encontra um barco à beira-mar, chuta-o e abre um buraco no fundo. Moisés protesta, clamando que os proprietários do barco não serão mais capazes de ganhar seu sustento. Al-Khidr lembra-o que prometera não fazer perguntas. Pouco depois, eles encontram um jovem na estrada e Al-Khidr o mata. Moisés pergunta por que um jovem tão bonito deveria morrer e Al-Khidr lembra-lhe de novo a promessa. No caminho novamente, passam por um muro de pedra que está caindo e Al-Khidr pára para reparar a construção. Moisés reclama que, como pagamento por aquilo, poderiam ter algo para comer.

Nisto, Al-Khidr diz a Moisés que ele violou seu acordo pela última vez e seguiriam caminhos diferentes. Mas explica: ele destruíra o barco porque havia um rei capturando todos os barcos no mar e escravizando a tripulação. Se as pessoas boas que possuíam o barco tivessem saído com ele, teriam um fim ruim. Ele matara o jovem porque ele era mau e traria grande dor para seus pais e comunidade. Allah já preparara outro filho para seus pais. Ele consertara o muro porque havia um tesouro escondido debaixo dele, que dois órfãos deveriam encontrar. Se o muro tivesse ruído, o tesouro apareceria e seria roubado. Al-Khidr termina dizendo: "Essa é a interpretação das coisas sobre as quais você não mostrou paciência" e Moisés entende a lição.

Como com o Moisés bíblico, o Moisés do Alcorão tem forças e fraquezas de qualquer pessoa. Na Bíblia, a humildade de Moisés é enfatizada, mas seu orgulho em golpear (ao invés de ouvir a Deus) levam-no a ser punido. No Alcorão, sua fé em si mesmo o torna incapaz de confiar no mensageiro de Allah. Ambas as histórias ensinam que Deus tem um propósito para os seres humanos, o qual não deve ser desafiado, mesmo que nem um sábio possa entendê-lo.

O CAMINHO DO HERÓI

Estudiosos bíblicos sustentam que o Pentateuco foi escrito por diferentes pessoas em épocas diversas. A história de Moisés como relatada no Êxodo é a história do herói, como elaborada por Joseph Campbell em obras como “O herói com mil faces” ou “Transformações de mito através do tempo”. Embora Moisés tenha nascido Hebreu, ele é separado do seu povo pouco depois do nascimento e perde sua herança cultural. Ao descobrir quem realmente é, ele deixa a vida a que estava acostumado e viaja em busca do seu propósito de vida. Ele tem medo de aceitar o que deve fazer, mas o faz e realiza seu propósito. A história do Êxodo ressoa em todos nós porque toca em temas e símbolos universais de identidade pessoal, propósito e envolvimento do divino nos assuntos humanos.

A história de Moisés emprega o motivo da criança nascida de pais humildes que se torna (ou é sem saber) um príncipe. Bem antes do Êxodo, esta história já era conhecida no Oriente Médio e Oriente Próximo através da lenda de Sargão de Acádia. Sargão (2334-2279 a.C.) foi o fundador do império Acadiano, o primeiro império multinacional do mundo. Sua lenda (talvez ainda mais antiga) foi usada por ele mesmo, em vida, para alcançar seus objetivos. Em uma tabuleta de barro encontrada em Nínive, o antigo rei relata:

Minha mãe era sagrada [possivelmente uma sacerdotisa], meu pai eu não conheci;
O irmão de meu pai amava as colinas;
Minha casa era nas terras altas, onde as ervas crescem;
Minha mãe me concebeu em segredo, ela me deu à luz em oculto;
Ela me colocou em uma cesta de juncos;
Ela selou a tampa com betume;
Ela me lançou no rio, mas ele não se elevou sobre mim;
A água me levou até Akki, o carregador de água;
Ele levantou-me quando mergulhou seu jarro no rio;
Ele me tomou como seu filho, ele me criou;
Ele me fez seu jardineiro.

Sargão tornou-se o preferido do rei Ur-Zababa, senhor da mesma cidade-estado de onde saiu Abraão. Ele cresceu, ganhou respeito como líder militar (inclusive tomando a esposa de um rei poderoso da região) e depois derrubou o rei (assim como os reis vizinhos) para unir toda a Mesopotâmia sob seu governo. O conto de Sargão e sua origem humilde como jardineiro atraiu a classe trabalhadora, que o viu como um libertador e reformador. A elite, entretanto, só o aceitou como rei através da força militar.

A lenda de Sargão permanece até hoje, sendo re-encenada ocasionalmente em festividades do Iraque e região. A semelhança com Moisés é clara; o escritor de Êxodo também queria seu herói associado com Sargão. Outros estudiosos, como Rosalie David ou Susan Wise Bauer, aceitam a história do Êxodo como autêntica e sugerem que os personagens dele conheciam a lenda de Sargão, usando meios semelhantes para colocar o bebê Moisés no mesmo rumo de acontecimentos. Para esses estudiosos, a falta de registros do Êxodo e nenhuma evidência arqueológica para apoiá-lo pode ser explicado pelo embaraço que a partida dos israelitas teria causado ao faraó do Egito. As pragas demonstraram a impotência do panteão egípcio; o Nilo, sangue de Osíris, foi transformado em sangue sujo e venenoso; os sapos sagrados de Osíris tornaram-se pestes; o sol de Rá e Aton foi apagado pela escuridão. Estes não eram eventos que os egípcios iriam querer lembrar.

O ÊXODO COMO HISTÓRIA

Uma explicação mais simples, no entanto, é que os eventos descritos no livro do Êxodo não ocorreram - ou, pelo menos, não como descrito - e, portanto, não foram feitas inscrições relacionadas a eles. Os egípcios são famosos por seu registro e ainda não foram encontradas quaisquer referências à partida 600 mil homens a pé, além de mulheres e crianças (Êxodo 12.37, Êxodo 38.26). Mesmo que os egípcios escondessem o constrangimento de seus deuses, algum registro existiria de um movimento tão grande de uma população tão vasta, mesmo que esse registro fosse simplesmente uma mudança física da região. Há acampamentos sazonais da Era Paleolítica na Escócia e outras áreas que datam de 12.000 a.C. (como a fazenda Howburn) e estes locais não ficaram em uso tanto tempo como os 40 anos de acampamentos dos Hebreus em sua viagem à terra prometida.

Detalhes históricos contrariando a narrativa bíblica dessa grande migração não faltam. Por exemplo, entre 2000 e 700 a.C. (uma larga faixa de tempo de 13 séculos na qual supomos que o Êxodo teria acontecido) a terra de Canaã estava sob controle egípcio. Fugir do Egito para Canaã, mesmo atravessando o Mar Vermelho, significaria escapar das celas para o pátio da prisão. Ainda, apesar de o Êxodo dar a idéia de fatos muito antigos, entre 2000 e 1400 a.C., a origem (bíblica) mais apurada desses textos é do tempo dos profetas Ezequiel, Isaías e Jeremias (~ 700 a.C.) e não antes disso. Até então, tais estórias foram passadas boca a boca e não na forma de escrituras como conhecemos.

Estudiosos como David Rohl argumentam que o problema com as evidências do Êxodo são simplesmente uma divergência quanto a sua datação. O Êxodo sempre foi tradicionalmente colocado no reinado de Ramsés II (1279-1213 a.C.) baseado na passagem de Êxodo 1.11, onde afirma-se que os escravos Hebreus trabalharam nas cidades de Pithom e Ramsés, duas cidades que Ramsés II construiu. Rohl afirma que os eventos realmente ocorreram muito antes (ver O príncipe do Egito). O problema com a teoria de Rohl é que as evidências do período do Médio Império (2040-1782 a.C.) não substanciam fortemente a história do Êxodo.

Uma das evidências históricas mais citadas por Rohl é o Papiro de Ipuwer, encontrado no início do século 19 e datando do final do Médio Império. O papiro (com aproximadamente 50% das palavras ainda legíveis) é um pronunciamento ou carta ao rei, escrito por um egípcio chamado Ipuwer. Ele era provavelmente um sacerdote, descrevendo grandes sofrimentos no Egito, fome, seca, etc e morte em toda a terra. Ipuwer, ao final do que permanece legível, invoca o deus Rá como libertador do povo e destruidor de toda maldade humana. Rohl encontrou paralelos entre as desgraças pelas quais Ipuwer clama ao rei e as pragas descritas no Livro do Êxodo.

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Os paralelos do papiro de Ipuwer, segundo Rohl.
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Entretanto, uma leitura mais atenta do papiro dá a entender que o sangue, morte, etc se referem à guerra. Ipuwer fala da invasão do delta do Nilo por um povo do Oriente que desestruturou o poder do rei e gerou guerra civil, empobrecimento dos nobres e privação do Alto Egito dos mantimentos e produtos que chegavam de veleiros pelo rio. Sua preocupação com os nobres, o que pode revelar sua condição social favorecida, se revela em frases como “Os príncipes vivem em depósitos … Os ricos estão em luto. O homem pobre está cheio de alegria. Toda cidade diz: vamos suprimir os poderosos de entre nós.” A catástrofe agrícola parece real, mas pode ser um efeito climático e ela mesma ser a razão de um povo da Ásia se aventurar no Nilo. Bons candidatos para isso são os Fariseus, que já habitavam a área costeira do Sinai. Os semitas que Rohl afirma que viviam em grande número em Avaris dificilmente poderiam ser os Hebreus e, por fim, não há nenhuma evidência arqueológica ou literária de Moisés retirando seu povo do Egito; a única fonte continua sendo a narrativa bíblica.

O SACERDOTE EGÍPCIO

O historiador egípcio Manetho (século 3 a.C.) conta a história de um sacerdote egípcio chamado Osarsiph, que liderou um grupo de leprosos numa rebelião contra os desejos do rei que queria bani-los. Osarsiph rejeitou o politeísmo egípcio em favor de um monoteísmo e mudou seu nome para Moisés. Ele não teria atribuído nenhum nome ao seu deus, daí Moisés (filho de) ao invés de algo como Ramsés (Rá-moisés; filho de Rá). Ao que parece, ele se dizia filho de um deus vivo cujo nome os seres humanos nunca poderiam - ou deveriam - proferir.

O relato de Manetho foi perdido, mas é citado extensamente pelo historiador romano-judeu Flavius ​​Josephus (37-100 d.C.) e pelo romano Tacitus (56-117 d.C.). De acordo com Josephus, o faraó Amenophis III (1386-1353 a.C.) queria "ver os deuses", mas foi dito por um oráculo que ele não poderia, a menos que purificasse o Egito dos leprosos. Ele baniu os leprosos para a cidade de Avaris, onde foram unidos sob a liderança de um sacerdote monoteísta chamado Osarsiph. Osarsiph se rebelou contra Amenophis, instituiu o monoteísmo e convidou os Hiksos (provavelmente um nome para os Amorreus) de volta ao Egito. Na versão de Tacitus, o rei egípcio é chamado Bocchoris (o nome grego para o rei Bakenranef, 725-720 a.C.) e ele exila um segmento de sua população afligida com lepra para o deserto. Os exilados permanecem no deserto "em um estupor de dor", até que um deles, Moisés, os reúne e conduz a outra terra. Tacitus prossegue dizendo que Moisés ensinou ao povo uma nova crença em um deus supremo e "deu-lhes uma nova forma de adoração, oposta a tudo o que é praticado por outros homens".

Na verdade, sabemos que os Hiksos foram expulsos do Egito em 1570 a.C. pelo faraó Ahmose I, de Thebas, e nada indica que voltaram. Apesar dessa incongruência de Manetho, sua história é um relato muito antigo e levou estudiosos (entre eles Sigmund Freud e Joseph Campbell) a afirmarem que o Moisés da Bíblia não era um Hebreu criado em palácio egípcio, mas um sacerdote egípcio envolvido na revolução religiosa do faraó Amenophis IV (1353-1336 a.C.). Essa faraó mudou seu nome para Akhenaton e estabeleceu o monoteísmo do deus Aton, sua própria divindade. Tal movimento pode ter sido um impulso religioso genuíno ou uma reação contra os sacerdotes do deus Amon, ricos e poderosos. Ao estabelecer o monoteísmo e proibir todos os velhos deuses do Egito, Akhenaton efetivamente eliminou qualquer ameaça à coroa por parte dos sacerdotes. A teoria de Campbell e outros é que Moisés era um sacerdote de Akhenaton que liderou os seguidores de Aton para fora do Egito após a morte do faraó, quando seu filho Tutancâmon (1336-1327 a.C.) restaurou os antigos cultos. Outros estudiosos comparam Moisés com o próprio Akhenaton e vêem a história do Êxodo como uma representação mitológica da tentativa de Akhenaton de reformar a religião.

Freud escreve "Muitos autores reconheceram Moisés como um nome egípcio; podia-se esperar que pelo alguém considerasse a possibilidade de o portador de um nome egípcio ser, ele mesmo, um egípcio. … Eu me arrisco agora a tirar a seguinte conclusão: se Moisés era egípcio e se ele transmitiu aos judeus sua religião, então essa era a religião de Akhenaton”. Segundo Freud, Moisés foi assassinado por seu povo e a memória desse ato criou uma culpa comunitária que infundiu a religião do Judaísmo e caracteriza esse sistema de crenças, bem como das fés monoteístas que vieram depois. Tão interessante quanto a teoria de Freud, assim como outras dele mesmo, é que ela se baseia numa suposição nunca provada, mas sobre a qual ele continua a construir seus argumentos. Susan Wise Bauer escreve: “Isso não tem absolutamente nenhuma base histórica e na verdade é incrivelmente difícil de parear com qualquer data mais provável do Êxodo. A teoria parece ter-se originado com Freud, que certamente não era um estudioso imparcial em seu desejo de explicar as origens do monoteísmo, negando ao Judaísmo sua singularidade.”

Bauer trabalha com uma "data provável" para o Êxodo em torno de 1446 a.C. baseada em uma leitura direta de 1ª Reis 6.1 alegando que 480 anos se passaram entre o Êxodo e a construção do templo de Salomão. Mas essa datação bíblica se complica pela passagem de Êxodo 7.7 que afirma que Moisés tinha 80 anos quando se encontrou pela primeira vez com faraó; o nascimento de Moisés é dado pelo Judaísmo rabínico como 1391 a.C., levando ao Êxodo por volta de 1300 a.C. E existem várias outras possibilidades.

O ÊXODO COMO LITERATURA NARU

O problema com todas as especulações sobre o Êxodo decorre da tentativa de ler a Bíblia como uma história retilínea, em vez do que é: literatura e, especificamente, escritura. Os escritores antigos não estavam tão preocupados com os fatos como modernos, mas certamente estavam interessados ​​no efeito de seus textos. Isso é exemplificado pelo antigo gênero da literatura Mesopotâmica conhecido como Naru. Nesse tipo de estória, uma figura, geralmente alguém famoso, desempenha um papel importante em uma aventura da qual eles realmente não participaram.

Os melhores exemplos da literatura Naru referem-se a Sargão de Acádia e seu neto Naram-Sin (2262-2224 a.C.). Na famosa história "A Maldição de Acádia", o deus Enlil cansa-se da cidade de Acádia e passa a ignorá-la, proibindo outros deuses de agirem em seu favor. Naram-Sin ora repetidamente a Enlil e, ignorado, destrói seu templo. Este ataque, claro, provoca a ira não só de Enlil, mas dos outros deuses que enviar os Gutianos, "um povo que sem inibição, com os instintos humanos, inteligência canina e civilidade de macacos" para invadir Acádia. Há fome generalizada, os mortos apodrecem nas nas ruas e casas, a cidade fica em ruínas. De acordo com a lenda, a cidade e o império eternos terminam como vítimas da arrogância de um rei perante os deuses. Mas não há registro de Naram-Sin fazendo qualquer coisa assim, enquanto há uma grande quantidade de provas de que ele era um rei piedoso que honrou Enlil e os outros deuses. Neste caso, Naram-Sin teria sido escolhido como personagem principal por causa de sua fama e usado para transmitir uma verdade sobre o relacionamento da humanidade com os deuses; em especial, a atitude apropriada do rei em relação ao divino. É o equivalente antigo das fábulas com animais (tipo a famosa “O lobo e o cordeiro”) de La Fontaine.

Da mesma forma, o Livro do Êxodo e as outras narrativas sobre Moisés contam uma história de libertação física e espiritual usando Moisés - uma figura previamente desconhecida na literatura - como mediador entre o homem e Deus. Os escritores bíblicos firmam seu relato na história, para mostrar Deus trabalhando através de eventos reais, da mesma forma que os autores da literatura Naru escolheram grandes reis para transmitir sua mensagem. Pelo menos no caso dos textos Naru, sabemos que não é história, mas isso não tira seu valor. Insistir em histórias como o Livro do Êxodo como histórico nega ao leitor uma experiência mais ampla do texto, a de transmitir seu ensino sapiencial e cultural.

Ao longo da narrativa bíblica, Moisés medeia entre Deus e o povo, mas não é completamente santo nem secular. Ele aceita a ordem de Deus relutantemente e constantemente questiona Deus, mas tenta fazer detalhadamente a vontade do Senhor até que golpeia uma pedra para produzir água em vez de falar com ela como Deus havia instruído (Números 20.7-11). Deus já havia dito a Moisés que golpeasse a rocha para obter água (Êxodo 17.6). O local era o mesmo: Meribá (tentação), onde haviam fontes no deserto. As ações de Moisés aqui (mas não um homem que ele matou no Egito) impedem-no de entrar na terra prometida de Canaã, pois comprometeu seu relacionamento com Deus. Seria possível que as mesmas pessoas, no mesmo local, fossem reprovadas duas vezes? Além de uma estória parecer eco da outra (como várias passagens bíblicas, incluindo a escritas dos Mandamentos), é possível que servissem a um propósito comum: ensinar a fidelidade a Deus, apresentando o erro de antepassados. E voltamos à contenda de Naram-Sin com o deus Enlil; o que importa, no fim, é ensinar o relacionamento adequado dos homens para com o divino.

CONCLUSÃO

Ao longo do Novo Testamento, Moisés é citado mais do que qualquer outro profeta ou figura do Antigo Testamento. Moisés é visto como o Legislador e exemplifica um homem de Deus. Para citar apenas uma referência a ele, Moisés é enaltecido na famosa parábola de Jesus sobre Lázaro e o homem rico em Lucas 16.19-31. Nesta parábola, um pobre chamado Lázaro (único nomeado nas parábolas de Jesus) e um homem rico vivem na mesma cidade. Ambos morrem no mesmo dia. O homem rico acorda no submundo e vê Lázaro com Abraão no paraíso. Ele pede ajuda, mas é lembrado por Abraão que, na terra, viveu delícias enquanto Lázaro sofreu; lá, os papéis foram invertidos. O homem rico então pede a Abraão para enviar alguém para avisar sua família. Abraão responde: "Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem. Se eles não ouvirem Moisés e os profetas, tampouco ouvirão se alguém ressuscitar dos mortos". Nesta história, Moisés é apresentado como o paradigma da verdade de Deus. Se as pessoas aceitassem o exemplo e as palavras de Moisés, poderiam evitar a separação de Deus na vida após a morte. A história enfatiza como os ensinamentos de Moisés fornecem tudo o que alguém precisa saber sobre a vida e como desfrutar de um pós-vida com Deus.

Moisés também aparece na transfiguração de Jesus em Mateus 17.1-3, Marcos 9.2-4 e Lucas 9.28-30, juntamente com Elias, quando Deus anuncia que Jesus é seu filho. Nessas passagens e noutras do Novo Testamento, Moisés é apresentado como um exemplar e representante da vontade de Deus.

Não sabemos se houve um líder religioso na história chamado Moisés, que levou seu povo do Egito e iniciou uma compreensão monoteísta do divino. As crenças individuais ditarão se alguém aceita a historicidade de Moisés ou o considera como uma figura mítica mais do que qualquer evidência histórica - ou a falta dela - jamais poderá mudar. De qualquer maneira, a figura de Moisés mudou a história do mundo. O monoteísmo atribuído a ele cresceu com os professores da fé do Judaísmo, produzindo a atmosfera em que o Cristianismo surgiu e onde nasceu mais tarde o Islã. Todas as três grandes religiões monoteístas no mundo afirmam que Moisés é seu e ele continua a servir como um modelo do relacionamento da humanidade com o divino.

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ANOTADO NOS CANTOS DE UM PERGAMINHO

Gardiner AH, The admonitions of an egyptian sage, Georg Olms Verlag, 1969 (tradução do papiro de Ipuwer)
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Rabbi Becher M, The ten plagues - live from Egypt, www.ohr.edu 
Rodrigues F, Ciência e religião, O poder das religiões - edição especial temática da revista Caros Amigos, ano 18, nº 71, nov/2014.
Shanon B, Biblical entheogens: a speculative hypothesis, Time and mind: the journal of archaeology, consciousness and culture, v.1, n.1, p.51-74, 2008.