sábado, 11 de novembro de 2017

A guerra das árvores - uma nova visão da política de Canaã

À esquerda, um desenho raro de William Jenk Morgan, mostrando o profeta Aías amaldiçoando a esposa de Jeroboão. À direita, mapa de Israel dividida.

Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei, e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Porém a oliveira lhes disse: Deixaria eu o meu azeite, que Deus e os homens em mim prezam, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a figueira lhes disse: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, e iria governar as árvores? Então disseram as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós. Porém a videira lhes disse: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, e iria governar as árvores? Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. E disse o espinheiro às árvores: Se, na verdade, me ungis por rei, vinde, e confiai-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, meu fogo consumirá até aos cedros do Líbano. (Juízes 9:8-15)

Hoje, há muito deserto na região da Síria, Líbano e Israel. Mas a desertificação dessas áreas é obra humana e ocorreu principalmente na Idade Média, com a devastação de florestas para construir castelos e armas durante as Cruzadas (séc. 9-12), durante o domínio romano (séc. 1 a.C.-5 d.C) e também devido ao comércio de madeira que abastecia os navios fenícios no mundo antigo. Áreas como Israel, no período romano e ainda mais nos tempos do Velho Testamento, era uma "terra de leite e mel" repleta de grandes florestas de carvalho e pinheiros, fechadas o suficiente para que exércitos não pudessem passar por ali.

O entorno de Jerusalém, ainda mais, é um terreno montanhoso, como quase toda Judéia. Os vales eram férteis e os topos das montanhas ao norte eram rodeados de grandes árvores e abrigaram pequenas vilas, que se tornaram cidades fortificadas na Era do Bronze (3200 – 1200 a.C.) mais ou menos como a famosa Tróia dos gregos. Esse foi o período em que se organizaram as 12 tribos de Israel, como reinos dividindo espaço com as nações cananéias Moab, Amon, Filístia, Edon, Fenícia e Aram. Freqüentemente as cidades-estados guerreavam entre si ou eram subjugadas por uma nação maior. Os livros de Josué e 1ª Samuel estão cheios de narrativas dessas batalhas.

Davi estendeu seu reinado a partir do sul, na fronteira com a Filístia. Durante seu reinado (aprox. 1000 a.C.), a região de Jerusalém (Jebus-Shalim são referências ao povo e ao deus cananeu do sol poente) foi conquistada dos Jebuseus. Ao sul da montanha de Jerusalém estava a fortaleza-templo de Sião. Jerusalém era, até então, a fortaleza mais impenetrável daquela área, que resistiu aos ataques israelitas desde os tempos de Josué (1400 a.C.). Os habitantes que sobreviveram ao ataque foram finalmente feitos servos nos reinados de Davi e Salomão. Junto com Jerusalém, outras fortalezas ao redor foram tomadas:

Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. ... Assim habitou Davi na fortaleza, e a chamou a cidade de Davi; e Davi foi edificando em redor, desde Milo para dentro. (2ª Samuel 5.7-9, 1ª Crônicas 11.7-8)

No livro de Juízes, há várias referências à “casa de Milo”, formada por nobres/sacerdotes cananeus, assim como as estelas dos reis cananeus trazem lembranças de batalhas contra a “casa de Davi” (Juízes 9). Aparentemente, Davi se aproveitou das fortalezas de tijolos ao redor para erguer uma grande muralha envolta de Jerusalém, ou mais propriamente várias muralhas, que aproveitavam as muralhas mais antigas de outras fortalezas como Milo e Sião. A nova grande capital de seu reino se estendeu por vários montes vizinhos. 

Era uma época de militarismos. Não apenas Davi iniciou a construção de cidades fortificadas, mas também foi seguido por seu único herdeiro vivo, Salomão. Entre uma coisa e outra, nos anos finais do reinado de Davi, os príncipes de Israel mataram um ao outro e um deles, Absalão, até tentou tomar-lhe o trono. Salomão, filho do famoso caso extra-conjugal de Davi e Bateseba, formou escolas de sábios para gerenciar o reino (os livros de Provérbios e Salmos são frutos dessas escolas), mas usou como mão de obra para suas construções os povos conquistados. Foram criados novos tributos ao seu povo, a fim de pagar pelos materiais das muralhas, das fortalezas e pelo sustento dos trabalhadores.

E esta é a causa do tributo que impôs o rei Salomão, para edificar a casa do Senhor e a sua casa, e Milo, e o muro de Jerusalém, como também a Hasor, e a Megido, e a Gezer. Porque Faraó, rei do Egito, subiu e tomou a Gezer, e a queimou a fogo, e matou os cananeus que moravam na cidade, e a deu em dote à sua filha, mulher de Salomão. Assim edificou Salomão a Gezer, e Beth-Horom [casa de Horon], a baixa, e a Baalate, e a Tadmor, no deserto daquela terra. (1ª Reis 9.15-18)

Baalate, ou Balatah, é uma cidade antiqüíssima, citada no Gênesis e situada entre os montes Gerizin e Ebal, provavelmente a ancestral da cidade sagrada de Siquém. Seu nome é uma referência ao carvalho, árvore imensa e possivelmente sagrada para os cananeus que a fundaram. Na narrativa de Abraão (Gênesis 12.6), ele vai até o “carvalho de Moré” na terra de Baalate/Siquém, que é o nome de um lugar. Em Gênesis 33.18, seu herdeiro Jacó vai até a cidade de Siquém e compra uma terra de Hermor, o patriarca local, onde levantou um altar para El. Ambas as narrativas são bem posteriores aos eventos, possivelmente re-escritas a partir dos papiros no Templo nos tempos do rei Josias de Judá (615 a.C.), mas trazem algo sobre a ocupação humana na área, que cresceu de um povoado para uma cidade. Existem resquícios humanos ali de 5000 a 1150 a.C. , depois a área ficou desabitada até 950 a.C., quando foi re-construída. Tal obra coincide com os reinados de Davi e Salomão.

MEIO AMIGOS

De fato, os israelitas não tomaram Baalate/Siquém. Registros egípcios (as cartas de Amarna, sobre as colônias egípcias em Canaã) falam dos filhos de Lab’ayu (Labão?) entregando Siquém aos Hapiru (Hebreus) nos tempos de Josué. Provavelmente se tratava de uma cidade sagrada em ruínas ou semi-desabitada, que foi favorecida por riquezas e comércio dos israelitas. Em Gênesis 34, um filho de Hemor (chamado Siquém) estabelece tratado de paz com Jacó, sendo circuncidados ele e sua família. A narrativa também é tardia (se bem que os egípcios usassem a circuncisão), mas não há qualquer registro de batalhas entre Baalate/Siquém e os israelitas.

Seria surpreendente se a Tadmor das obras de Salomão fosse o oásis de Tadmor, na Síria. O nome é uma referência às palmeiras que crescem ali. Esse grande oásis foi mais tarde ocupado pelos romanos e transformado numa bela e importante cidade de entreposto entre Roma e a Pérsia, chamada Palmira,  cheia de aquedutos, praças e pórticos de pedra, de onde também vem o nome "palmeira". A Tadmor dos romanos era de fato no deserto, mas bem distante de Jerusalém, o que significaria que Salomão estendeu fortalezas até a 200 Km de sua capital.

Josué esteve em Siquém, sem um relato de batalha. Embora pensemos usualmente em um domínio militar e religioso dos locais no movimento de “invasão” de Canaã pelos israelitas, tudo indica que foi mais uma ocupação de governos, com estabelecimento de tratados políticos e manutenção das populações locais, como seu um certo “partido político” se tornasse influente na região. Estudos arqueológicos recentes, por exemplo, mostram uma presença de 94% do DNA cananeu antigo (extraído de esqueletos de 1700 a.C., anteriores portanto Êxodo em 1500-1400 a.C.) no DNA de populações atualmente presentes em Canaã. Isso vai completamente contra o ideal de genocídio dos cananeus apresentado no livro de Josué. Em Siquém, Josué ergueu um altar (Massebah) de pedra que pode ser visto até os dias atuais (Josué 24), simbolizando o governo israelita e seu Senhor, mas referências posteriores citam em Siquém as casas de Baal-Berith e Milo (Juízes 9.4), que são famílias de nobres e sacerdotes dos deuses cananeus. Também há sinais dos cultos cananeus mantidos por ali, conforme a nomeação “casa de seu deus” quando o texto bíblico diz que se refugiaram do governo israelita.

O texto de juízes até nomeia um templo-fortaleza do deus Berith que foi destruído pelo juiz/rei Abimeleque. As ruínas dessa estrutura foram encontradas por arqueólogos e revelaram se tratar de um imenso templo, na verdade o maior da Canaã antiga, construído por volta de 1700 a.C., antes da dominação egípcia sobre a região. A camada de cinzas relativa ao incêndio causado por Abimeleque em 1125 a.C. também estava presente, confirmando que, embora não tão ruins, as relações entre cananeus e israelitas não eram sempre pacíficas.

A mistura entre as culturas israelita e cananéia se mostra ainda no status de Siquém como cidade sagrada, que se manteve para além da destruição do grande templo na época dos Juízes (1350-1050 a.C.) e até para além do reinado de Salomão (970-930 a.C), pois seu herdeiro Roboão foi a Siquém para ser coroado e honrado pelas famílias reais da Judéia (1ª Reis 11.43, 2ª Crônicas 10.1).

REIS, NOBRES E PROFETAS

Em Israel, os profetas (ex. Balaão, Samuel, etc) tinham grande influência sobre o povo e por isso mesmo eram mantidos próximos pelos líderes. Tais profetas pareciam residir nos templos israelitas e cananeus, onde recebiam ofertas variadas como pães, bolos e mel (1ª Reis 14.3), ou mesmo casas (1ª Samuel 7.17) pelas suas consultas. Saul, por exemplo, foi eleito rei pela influência do profeta Samuel de Siló. Saul tentou manter Samuel próximo a sua corte e, quando esse se afastou (conforme sugerido pelo texto bíblico, devido a tentativas de Saul de assumir a função religiosa), apontou a Davi como novo rei. 

Continuando a militarização iniciada por Davi, Salomão havia imposto tributos mais pesados ao povo para a construção do Templo, diversas muralhas ao redor de Jerusalém e fortalezas. Além disso, nomeou contramestres e obreiros para suas obras, que presidiam sobre servos cananeus:

Dos seus filhos, que ficaram depois deles na terra, os quais os filhos de Israel não destruíram, Salomão os fez tributários, até ao dia de hoje. Porém, dos filhos de Israel, Salomão não fez servos para sua obra (mas eram homens de guerra, chefes dos seus capitães, e capitães dos seus carros e cavaleiros). Destes, pois, eram os chefes dos oficiais que o rei Salomão tinha, duzentos e cinqüenta, que presidiam sobre o povo. (2ª Crônicas 8.8-10)

Os textos de 1ª Reis e 2ª Crônicas, por outro lado, indicam que havia israelitas trabalhando (e não só presidindo) nas obras de Salomão:

E esta foi a causa por que [Jeroboão] levantou a mão contra o rei: Salomão tinha edificado a Milo, e cerrou as aberturas da cidade de Davi, seu pai. E o homem Jeroboão era forte e valente; e vendo Salomão a este jovem, que era laborioso, ele o pôs sobre todo o cargo da casa de José. (1ª reis 11.27-28)

E lhe falou [o rei Roboão]: “Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.” (1ª Reis 12.14, 2ª Crônicas 10.11)

A fim de manter a paz entre esses servos, provavelmente como seus antecessores, Salomão tolerava os templos e cultos cananeus. Os impostos pesados, no entanto, começaram a estimular revoltas populares que conseguiram o apoio de profetas como Aías de Siló. Esses movimentos populares deram autoridade a Jeroboão (Je-roboão, filho de Roboão), um dos encarregados de Salomão, que se tornou líder popular e por fim foi nomeado em 920 a.C. como novo rei pelo profeta Aías (1ª Reis 11.29-31). Ao contrário de Saul, cuja casa e exército foram derrotados pelas tropas de Davi, Roboão assumiu o trono de seu pai Salomão e manteve as tribos do sul unidas a ele.

DUAS REALEZAS

A “casa de José” era uma das famílias reais israelitas, constituída pelas tribos de Efraim e Manassés. A casa de José comandava uma faixa muito fértil de terras entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, onde estavam situadas as cidades sagradas de Siquém e Siló. Isso indica que tal casa real era extremamente rica e poderosa, o suficiente para desafiar Salomão. Josué, líder da “invasão” israelita em Canaã, pertencia à tribo de Efraim e à casa de José, o que também testemunha a favor do poder de tal família. Salomão e Roboão, por outro lado, eram da igualmente poderosa casa de Judá. A existência de duas famílias mais poderosas na região leva alguns estudiosos a acreditar que, enquanto a casa de José era formada por uma nobreza Hyckso migrando a partir do Egito da 18ª dinastia, a casa de Judá e outras tribos descendiam de famílias reais israelitas/cananéias bem mais antigas, que jamais deixaram Canaã.

Como Saul perseguiu o líder popular Davi em defesa de seu trono, Salomão perseguiu a Jeroboão (1ª Reis 12.1-2). A aliança de Davi com Moab, a tolerância de Salomão com os cananeus e depois a aliança de Jeroboão com a nobreza egípcia fortalecem a teoria de dois centros de poder em Israel. Um deles antigo, mais ao sul, e outro novo e ligado ao Egito, ao norte. Possivelmente é dessa fonte ao norte que falavam as cartas de Amarna, sobre os reinos súditos em Canaã.

Com a morte de Salomão e a ação do profeta Aías de Siló, a tensão entre os dois centros de poder aumentou e por fim Israel foi dividida em 2 reinos: Judá ao sul, com Jerusalém como capital e Roboão como rei, e Israel ao norte, com Samaria como capital e Jeroboão como rei. Diversas vezes os dois reinos entraram em guerra um com o outro.

O texto bíblico é extremamente pesado com Jeroboão, descrevendo-o como um grande pecador. Desse texto sabemos que ele fortaleceu o culto ao deus-boi egípcio Ápis (o mesmo culto contra o qual Moisés lutou), temendo que a influência do templo de Salomão em Jerusalém levasse o povo a seguir o rei Roboão, de Judá. Foram implantados ídolos dourados em forma de boi nos templos de Beth-El e Dan. Ambos eram templos cananeus antigos e, novamente, observamos a força do Egito sobre a casa de José. Em 1ª Reis 13.1, vemos que, assim como era com Salomão, o rei tinha participação nos cultos dos templos. 

Jeroboão também destituiu os sacerdotes da tribo de Levi, que historicamente estavam ligados à unificação de Israel e são sempre apontados como nobres que não possuem terras. Voltando algumas gerações, Jeroboão repetia o pecado que custou o reinado de Saul.

Também [Jeroboão] fez casas nos altos; e constituiu sacerdotes dos mais baixos do povo, que não eram dos filhos de Levi. (1ª Reis 12.31)

A qualquer que queria, [Jeroboão] consagrava sacerdote dos lugares altos. (1ª Reis 13.33)

Jeroboão ainda acabou desafiado por um profeta estranhamente sem nome, chamado diversas vezes de “homem de Deus”, que os textos judaicos fazem supor ser Ido.

Os demais atos de Salomão, tanto os primeiros como os últimos, porventura não estão escritos no livro das crônicas de Natã, o profeta, e na profecia de Aías, o silonita, e nas visões de Ido, o vidente, acerca de Jeroboão, filho de Nebate? (2ª Crônicas 9.29)

No texto bíblico, as ações de Jeroboão se traduziram em o profeta Aías de Siló amaldiçoar ele e sua descendência. Seu filho, Abias, morreu ainda menino, supostamente vítima da maldição.

Antes tu fizeste o mal, pior do que todos os que foram antes de ti; e foste, e fizeste outros deuses e imagens de fundição, para provocar-me à ira, e me lançaste para trás das tuas costas. Portanto, eis que trarei mal sobre a casa de Jeroboão; destruirei de Jeroboão todo o homem até ao menino, tanto o escravo como o livre em Israel; e lançarei fora os descendentes da casa de Jeroboão, como se lança fora o esterco, até que de todo se acabe. (1ª Reis 14.9-10)

A despeito da maldição, outro príncipe – Nadabe – assumiu o trono de Israel (reino do norte) quando Jeroboão morreu, após 22 anos de reinado. Esse tempo não pode ser considerado curto; Roboão, filho de Salomão e rei de Judá, reinou por 17 anos. Em Judá não houve mais solidez do culto a Javé do que no norte. Roboão seguiu o culto da deusa cananéia Asherah, senhora das florestas e às vezes denominada esposa de Baal, deus do trovão e das tempestades. Apesar disso e mesmo invasões do Egito (aliado do reino do norte), Judá não foi amaldiçoado. Afinal, é o texto histórico de Judá que chegou a nós. Os textos do reino do norte talvez se encontrem entre os vários livros perdidos que são citados no Velho Testamento.

FIM DA HISTÓRIA

O reino do norte foi conquistado pelo Império Assírio em 722 a.C. e grande parte da população foi substituída por colonos de outros territórios ocupados. Por isso, os samaritanos (da capital antiga, Samaria) deixaram de ser considerados israelitas pelo povo de Canaã. Eles não receberam essa terra como herança da parte de Deus! O reino do sul, aliado da Assíria e depois do Egito, foi conquistado pelo Império Babilônico (assírios + medos + persas unificados pelo pai de Nabucodonosor) em 586 a.C., quando os nobres, profetas e sacerdotes de Judá foram levados para Babilônia.

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SOBROU ISSO AQUI

A dúvida de Moisés - loungecba.blogspot.com
Jebusite - wikipedia
Jerusalem 3000 - When did King David conquer Jerusalem, Israel ministry of foreign affairs, 1993
Sechem, All about archeology, 2010
Tel Dan Stele - wikipedia
Tribe of Joseph - wikipedia

domingo, 15 de outubro de 2017

Cristãos transitando

Um dos cartões postais do mundo, o Cristo Redentor/Rio de Janeiro foi construído entre 1922-1931 e inaugurado no dia de Nossa Senhora Aparecida, simbolizando a força do Catolicismo no Brasil. Além disso, o país sedia a Basílica de Aparecida do Norte, 2º maior templo Católico no mundo.

Desde os anos 90, os censos brasileiros identificaram um fenômeno chamativo: a mobilidade de pessoas entre diversos credos. Estamos falando, mais especificamente, de um circuito religioso desenvolvido entre os 90% dos brasileiros que afirmam uma religião (67,4% católicos + 11,8% pentecostais + outros menores = 90,1%). E, mesmo entre os que não afirmam qualquer religião, somente 40,3% é totalmente ausente de cultos religiosos, quer dizer, para muitos “sem religião” ela se mostra culturalmente em rituais de batismo, casamentos, funerais, etc. Para complicar o fato, existe ainda uma tal variabilidade individual de credos no Brasil que, não muito raro, uma mesma pessoa adota práticas de diversos segmentos, como por exemplo o batismo católico junto a oferendas para entidades afro ou consultas em centros espíritas. Recentemente, despontaram entre matriz brasileira dos anos 1990 (Católicos, Protestantes históricos, Pentecostais, Espíritas, Afro-brasileiros e Sem religião) os Católicos carismáticos e os Muçulmanos. Grupos minoritários ainda incluem Esotéricos, Budistas, Xinto, etc. Por isso, algumas definições são bem necessárias, mas estão no final desse texto¹.

No Brasil, o Catolicismo ainda é a religião predominante, principalmente entre os mais velhos (56 anos ou mais), seguido pelos Pentecostais, mais presentes entre as mulheres (3 mulheres para cada 2 homens) e menos entre os mais velhos (62% da estimativa nacional). Os Sem religião (9,7%) aparecem principalmente entre os abaixo de 40 anos (120% da estimativa nacional). Os Protestantes históricos e pentecostais aparecem principalmente entre menos instruídos, enquanto os Espíritas (2,9%) e Afro-brasileiros (0,5%) despontam entre os mais instruídos. Entre os mais ricos predominam Espíritas e Sem religião, entre os mais pobres predominam Afro-brasileiros e Católicos. Respeitando sobretudo a distribuição de renda, há um “circuito religioso” que significa a transferência uma ou mais vezes do fiel de um segmento religioso para outro, o que se dá sobretudo na adolescência ou início da vida adulta e em momentos de sofrimento como doenças, luto, desemprego, revelando a não-satisfação do fiel com seu grupo original.

Mais do que isso, principalmente entre os Protestantes, é comum que as pessoas não se identifiquem com um certo segmento religioso ou até desconheçam o segmento a que pertencem, identificando-se mais propriamente com uma denominação. Apesar disso, 26,5% dos adultos afirmam pelo menos uma mudança de segmento religioso e as mudanças de denominações podem ser bem superiores. As maiores taxas de fuga de fiéis estão entre os Protestantes históricos e Pentecostais, as menores entre os Católicos. Os Protestantes evadidos alimentam principalmente os Sem religião. Os Católicos evadidos, numericamente superiores a todos, alimentam sobretudo os Pentecostais, mas também sucedem os Sem religião como maiores receptores de fiéis. Dessa forma, no vai-e-vem das pessoas, há um fluxo principal de Católicos para Pentecostais (alguns retornam ao Catolicismo), de Pentecostais para Sem religião e de Sem religião para Católicos + Protestantes históricos.

Entre as denominações Protestantes esse fluxo é ainda mais intenso, como se os religiosos evadissem do ritualismo Católico (com menores manifestações de religiosidade) para a performance de milagres dos Pentecostais e depois fizessem permutas sucessivas de denominações. Toda essa movimentação é, no entanto, amortizada por 74% dos brasileiros que se mantém talvez toda a vida no mesmo segmento religioso. Mas, nos que se evadem, como é possível que de repente as pessoas deixem sua crença em santos/Maria para entrar num segmento que os rejeita e de fato funciona muito diferente? Como é possível que seguidores dos preceitos do Evangelho, batizados adultos, venham a se declarar sem religião? Tais mudanças podem, claro, ocorrer quando a filiação religiosa é apenas nominal, é apenas ouvir esse ou aquele, ir nesse lugar ou naquele. Mas também pode mostrar uma violenta insatisfação com os modos, preceitos e recursos dentro de um grupo.

Migrações mais drásticas são explicadas pela similaridade dos sistemas de valores de grupos aparentemente muito distintos. Por exemplo, a estrutura Pentecostal é, em muitas igrejas, mais semelhante aos cultos Afro-brasileiros do que ao Protestantismo histórico, aparentado com o Catolicismo. A semelhança entre Pentecostais e Afro-brasileiros se dá pela performance corporal, danças e possessões, além da frequente menção/demonização de um dentro da simbologia do outro². Já entre os Católicos e Protestantes históricos, a hierarquia de religiosos e organização dos cultos é semelhante. Outros que mais recentemente apareceram na última dupla, com significativo crescimento, foram os Muçulmanos, que têm recebido principalmente Católicos, Sem religião e Pentecostais, sobretudo mulheres e negros atraídos pelas história revolucionária dos escravos malês, Malcolm X e Muhammad Ali.

Curiosamente, é mais simples alguém definir o grupo a que pertence do que definir sua própria fé. É mais ou menos como comprar um pacote pronto, da denominação X, ao invés de construir algo com base em experiências, cultura, filosofia, etc. De fato, líderes religiosos trabalham com a “normatização” dos fiéis como se fossem todos iguais, e talvez a fala de Jesus “apascenta minhas ovelhas” nunca tenha se mostrado mais clara. Ovelhas não são tratadas com individualidade, fiéis religiosos também não. Aceitar um “pacote” garante interação social, aprovação da liderança e talvez aplaque os desgostos com o secto ou denominação anterior, o que pode ser valioso num momento de fragilidade e desamparo. Assim, do ponto de vista teológico, mudar de um grupo religioso provavelmente significa um crescimento ou construção das crenças individuais, mesmo que isso signifique passar ao grupo dos Sem religião. Curiosamente, 20% desse grupo frequenta mensalmente algum serviço religioso e mais 31% frequenta anualmente, o que indica pelo menos um status social da religião na vida dessas pessoas. Cerca de 20% dos novos convertidos (em diversos segmentos) são pessoas anteriormente “Sem religião”, o que também não sugere uma aversão à religiosidade nesse grupo.

Mas, então, há oposições dentro dos grupos religiosos quanto a tais mudanças? As oposições são recomendações pelos líderes de que as mobilidades não transfiram o fiel de um grupo a outro (ex. de Católico para Protestante), desvalorizações dos demais grupos e até a proscrição do fiel por parte de amigos e familiares que permaneceram no grupo. Não há base bíblica alguma para esse comportamento, especialmente considerando que o Novo Testamento foi escrito num tempo de difusão do Cristianismo entre povos não judeus. Falava-se da necessidade de introduzir os valores Cristãos, afastar-se da libertinagem, sensualidade, bebedeiras, orgias, farras e idolatria dos cultos pagãos (1ª Pedro 4.3), assim como combater a falta de devoção, riqueza e magias (Apocalipse 2). Tais falhas eram e ainda são encontradas dentro de qualquer denominação Cristã, pois são defeitos muito humanos. Biblicamente falando, as divisões entre Cristãos já existiam e eram combatidas:

Porque, visto que há inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo como mundanos? Pois quando alguém diz: "Eu sou de Paulo", e outro: "Eu sou de Apolo", não estão sendo mundanos? Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho. (1ª Coríntios 3.3-8)

Os principais pilares do Cristianismo - amor a Deus e ao próximo - não são combatidos sequer por não Cristãos. Desse modo, o fiel abandonando a denominação X não é um anti-cristão. Ele não encontrou tais poucos valores lá dentro; ao contrário, achou muito mais valores do que esses instituídos por Jesus (valores humanos, mundanos, de homens, como explicou Paulo) ou tem uma simples necessidade pessoal de crescimento que envolve outros grupos, idéias e experiências. Como explicitou a revista Isto É, hoje existem muitos Cristãos que não se filiam a uma denominação. O escritor Tuco Egg explorou esse segmento em seu livro. Ele mostra que, em muitos aspectos, a filiação religiosa até pode atrapalhar a fé de alguém. Ela pode impor-lhe demonstrações públicas e rituais que de fato não são exigidos por Cristo (tido, claro, como base do Cristianismo) e podem enganar o fiel e todos ao seu redor de que ele está próximo de Jesus, participando de alguma Graça que não passa de aprovação coletiva. Uma ovelha tida como boa, por um rebanho problemático.

Acho que vale refletir sobre isso.

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¹Segue uma descrição bem resumida dos segmentos religiosos citados no texto:

Católicos: fundamentam-se no credo de Nicéia romano (325 d.C.), afirmando o Deus criador descrito na Torá judaica, seu filho Jesus, crucificado pelo perdão da Humanidade e o Espírito Santo. Jesus teria ascendido para o lado de Deus em 30 d.C. deixando o Espírito Santo entre os homens e estaria esperando para ressuscitar e julgar os mortos em Seu prometido retorno. Praticam o batismo ao nascimento como “inclusão na fé”. Com base na tradição histórico-religiosa, os católicos exaltam a Maria (mãe de Jesus) como principal intercessora, seguida de santos (pessoas-receptáculo da Graça de Deus) que poderiam modificar os destinos dos homens em resposta à oração ou petição de sacerdotes, tidos eles mesmos como entre homens e santos. Objetos também podem ser mediadores da Graça, por meio de bênçãos ou sua associação com os santos. Os cultos/missas enfatizam rituais como a Ceia e orações coletivas escritas por oficiais da igreja. Os Carismáticos adotam também a incorporação do Espírito Santo, pregação em línguas desconhecidas (glossolalia) e a promoção de milagres. Trabalham com congregações entre 100 a 200 membros, mas podendo chegar a milhares em alguns templos históricos.

Protestantes históricos: fundamentam-se na Reforma Protestante, marcada pelas 95 teses de Martinho Lutero, em 1517. Adotam um Bíblia traduzida do hebraico/grego e não do latim (como a dos Católicos) e sem os livros apócrifos, rejeitam a divindade de quaisquer outras figuras além do Deus criador, Jesus e o Espírito Santo - as demais figuras são tidas como inspiradas pelo Espírito Santo. Há rejeição também a imagens/objetos associados com a Graça divina, de forma que os templos geralmente são pobres em decoração. Dão especial ênfase ao texto bíblico, praticando o batismo de adultos posterior a uma exposição pública da fé em Jesus como salvador. As igrejas protestantes baseiam fortemente sua arrecadação nas doações de Dízimos (literalmente 10% do salário) de fiéis batizados. As igrejas Batista, Luterana, Metodista e Presbiteriana fazem parte desse segmento. Os cultos enfatizam a transposição de textos bíblicos para o mundo moderno, cantos coletivos e orações individuais. trabalham geralmente com congregações entre 100-200 membros, mas podendo chegar a 600 ou mais (Igreja Batista).

Protestantes pentecostais: fundamentam-se nos eventos do dia de Pentecostes (50º após a Páscoa) descritos em Atos 2, quando os apóstolos pregaram em Jerusalém para os gentios, em muitas línguas, com labaredas aparecendo sobre suas cabeças. São historicamente marcados pelos êxtases e curas milagrosas de John Wesley em Londres, em 1738, e William J. Seymour em Los Angeles, em 1906. Praticam o batismo de adultos posterior a uma exposição pública da fé em Jesus como salvador, mas adotam por vezes um “2º batismo” com a incorporação do Espírito Santo no fiel, a promoção de êxtases e/ou milagres (dons espirituais). Além de basear sua arrecadação nas doações de Dízimos, algumas igrejas pregam doações como demonstrações de fé. As igrejas Assembléia de Deus, Batista da Lagoinha, Congregação Cristã, Deus é Amor, Evangelho Quadrangular e Universal do Reino de Deus fazem parte desse segmento. Os cultos enfatizam cantos/danças coletivos, orações individuais em voz alta, testemunhos de milagres e a invocação do Espírito Santo. Junto com os Protestantes históricos, formam o segmento Evangélico. Trabalham com congregações muito pequenas (30-40 membros, ex. Igreja Pentecostal Deus é Amor e Assembléia de Deus) mas também médias (ex. 260 membros, Igreja Universal do Reino de Deus).

Espíritas: fundamentam-se no Livro dos Espíritos, de Hippolyte L. D. Rivail (Allan Kardec), em 1857, que reuniu suas experiências pessoais com os trabalhos filosóficos de Mesmer e Swedenborg. Acreditam em um mundo físico e um espiritual entrelaçados, de forma que os espíritos dos mortos poderiam, num contínuo, involuir para uma espécie de inferno (onde mendigam restos de matéria e são escravizados por demônios) ou evoluir para uma espécie de paraíso (onde habitam e interagem com santos, Maria, Jesus, etc). Jesus é um exemplo moral máximo e Lúcifer/Satanás um espírito desencaminhado. Os mais “humanos” afetariam a ocorrência de doenças e as decisões dos homens. Em sua evolução, os espíritos re-nasceriam como humanos para tempos de aprendizado. No Brasil, esse segmento compreende grupos afro (onde os santos e “perdidos” são Pretos velhos, Exus, Índios, etc) e também os grupos kardecistas (onde os santos e “perdidos” são pessoas mortas). Aceitam a ligação de espíritos com locais e objetos, valorizam obras de caridade e filantropia, praticam palestras e cursos. Os cultos enfatizam orações coletivas e a invocação de espíritos por médiuns para consulta e curas, sendo quase sempre feitos à noite em congregações pequenas (até 30 membros).

Afro-brasileiros: fundamentam-se na tradição oral e cultural dos escravos Yoruba, Fon e Bantu. Aqui se reúnem o Candomblé e a Umbanda. O Candomblé é um culto politeísta, cujo deus criador é Oludumaré, servido por Orixás associados às tempestades, matas, rios, disputas, etc. Os Orixás não são humanos, mas um fiel pode se associar a um Orixá (que se torna seu protetor), exigindo dele vestimentas e comportamentos específicos, além de oferendas. Os cultos são noturnos, marcados por danças e os Orixás incorporam nalguns servos para consultas, curas ou até para enfeitiçar outras pessoas. Os líderes são sagrados e passam tempos reclusos, dedicados a seu Orixá. A Umbanda mistura em proporções variadas elementos do Candomblé, Catolicismo e Espiritismo, se associando à prática de magia. O deus africano é Oxalá na forma de Jesus, assim como os santos católicos são embutidos dos poderes de entidades do Candombé e recebem oferendas. Fazem largo uso de velas e estátuas, como no Catolicismo, os cultos são noturnos, misturam danças e incorporações, mas as entidades são mortos do séc. 19: pretos e pretas velhos, crianças, índios, etc que dão consultas, promovem curas ou prejudicam inimigos. Embora vários sejam “médiuns”, apenas os sacerdotes estão vinculados formalmente a uma entidade.

Muçulmanos: oficialmente, o nome significa seguidores do Islã (submissos a Deus). Fundamentam-se na revelação de Deus (Allah) para Muhammad/Maomé em 607 d.C. O Profeta foi levado à presença de Allah e passou a ditar textos inspirados que foram reunidos no Al-Quran, Corão ou Alcorão (recitação). Eventos de sua vida foram registrados no Hadith. No Alcorão, Allah instrui os homens sobre assuntos variados, expõe uma continuidade entre os judeus/israelitas do Velho Testamento, os Cristãos e os Muçulmanos e alerta continuamente sobre o Dia do Julgamento. Embora os muçulmanos não usem a Torá judaica ou o Novo Testamento cristão, o Alcorão assume conhecimento de ambos e cita eventos nas Escrituras hebraica e cristã que são considerados apócrifos. Rejeitam qualquer culto que não a Allah, mesmo a reprodução artística de animais e plantas. Como os judeus, a iniciação se dá 8 dias após o nascimento com a Circuncisão. Têm o árabe como língua sagrada, enfatizam os preceitos do Alcorão (de forma a produzir pureza) e do Hadith, a prática individual de oração, jejum e caridade. Têm preceitos rígidos quanto ao público (que pode ser exposto) e o privado (dos membros de uma família). Os cultos são orações coletivas e leituras/recitação de partes do Alcorão.

²Apresento abaixo um vídeo comparativo de um culto Pentecostal e outro de Umbanda, estruturalmente bem parecidos. Há variedades grandes nos cultos de um segmento e de outro, sendo essa comparação feita, aqui, apenas para mostrar que as diferenças não são tão grandes quanto suas bases de fé.

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Referências que significaram alguma coisa

Almeida R, Montero P, Trânsito religioso no Brasil, São Paulo em Perspectiva 15(3):92-101, 2001.
Ribeiro, L. M. P. (2012). A implantação e o crescimento do islã no Brasil. Estudos de Religião, 26(43), 106-135.
Azusa Street Revival - wikipedia
Candomblé - wikipedia
Cardoso R, O Novo Retrato da Fé no Brasil, revista Isto É, ed. 2180, 24/out/2011.
Egg T, Igreja Entre Aspas, ed. Grafar, 2011.
Hadith - wikipedia
Islam - wikipedia
John Wesley - wikipedia
Pentecostalismo (site brasileiro) - wikipedia
Pentecostalism - wikipedia
Spiritism - wikipedia

domingo, 10 de setembro de 2017

Como escapamos a Cristo

Quatro ensinamentos de Jesus que seus seguidores (quase) nunca tomam seriamente



Publicado originalmente em 19 de Junho de 2014, por Brandan Robertson em

Não é nenhum segredo que aqueles dentre nós que afirmam seguir Jesus continuamente não conseguem viver o modo de vida de nosso Rabi. Ser um discípulo de Jesus é uma jornada vitalícia para nos conformarmos na imagem e modo de vida que Jesus ensinou. No entanto, com muita frequência, os seguidores de Jesus escolhem ignorar descaradamente algumas das instruções mais claras de nosso rabino e obscurecer elas com teologia vaga para que possam sair do alcance Dele. Outras vezes, os seguidores de Jesus são ensinados com idéias explicitamente contrárias às palavras simples de Jesus e depois passam suas vidas obedecendo as instruções que receberam em vez dos mandamentos de Jesus.

Embora acabemos num lugar de desobediência, todos nós que afirmamos ser seguidores de Jesus lutamos para obedecer os mandamentos de nosso Senhor. Um dos períodos mais transformadores da minha fé foi quando gastei um tempo para reler os Evangelhos do Novo Testamento e me reencontrar com o próprio Jesus, nas suas próprias palavras. Ao estudar as palavras de Jesus, descobri que muito do que Ele pediu a nós como seus discípulos é incrivelmente claro e, no entanto, era muito novo para mim. Eu nunca tinha ouvido isso na igreja ou na escola dominical. Até realmente ouvi alguém ensinar exatamente o oposto das palavras de Cristo. Foi durante aquela estação da minha vida que eu fiz um inventário de como eu vivi, o que eu acreditava e alinhava com a pessoa e os ensinamentos de Cristo. Minha fé se transformou radicalmente para melhor.

Abaixo, criei uma pequena lista de 4 ensinamentos claros de Jesus que a maioria de nós evangélicos nunca ouviu, se recusa a reconhecer ou acredita exatamente no oposto. Espero que, relançando esses ensinamentos de Cristo, você se inspire, como eu, a retornar aos Evangelhos e remodelar sua fé e vida. Prepare-se e medite, porque o que Jesus diz é bastante ousado e potente. Isso abalará sua fé!

1. Jesus, não a Bíblia, é a Palavra viva e ativa de Deus que traz a vida*

Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida. (João 5.39)

A vida cristã está fundamentalmente enraizada na realidade de que Jesus Cristo está vivo e ativo. Ele interage conosco no dia-a-dia e deseja que cultivemos um relacionamento íntimo com ele. Quanto mais em comunhão com o Espírito de Cristo, mais estamos expostos à vida e verdade, e mais somos capazes de compreender. No entanto, para muitos evangélicos, confiamos mais na Bíblia do que no Espírito vivo de Deus dentro de nós. Tememos que seguir o Espírito possa levar a confusão e subjetividade, e por isso arraigamos nossa fé na Bíblia. O problema é que uma fé que está enraizada somente na Escritura não é sustentável. Ele vai secar e murchar. Enquanto a Bíblia é um guia importante e autêntico para a fé e a prática cristãs, não é o fundamento ou o centro da nossa fé - Jesus é. E se realmente acreditamos que ele está vivo, também devemos ter fé de que interagir com ele produza a vida espiritual dentro de nós. Ele é a Palavra Viva a quem podemos pedir a qualquer coisa e esperar, na fé, para receber e ser respondido. Às vezes ele falará através da Escritura. Outras vezes ele falará através de nossos amigos e familiares. Outras vezes, ele encontrará formas únicas e especiais para se revelar a nós mesmos. Mas, para manter uma fé viva, não devemos fazer da Bíblia o nosso substituto da comunhão com a Palavra de Deus Viva. Estudar a Escritura é valioso, mas nada é tão valioso como cultivar um dia a dia com o Deus encarnado.

2. A única maneira de entrar no Reino dos Céus é realizando a vontade de Deus.

Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. (Mateus 7.21)

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: "Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna? " "O que está escrito na Lei? ", respondeu Jesus. "Como você a lê? " Ele respondeu: " ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’". Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá". (Lucas 10.25-28)

"Nós somos salvos pela fé sozinha, não os trabalhos!" Esta é uma frase protestante muito popular. A doutrina da sola fide foi desenvolvida pelos Reformadores em resposta aos ensinamentos corrompidos das Igrejas Católicas Romanas que surgiram no século 16, de que se poderia ganhar o favor de Deus e diminuir os anos no Inferno ou Purgatório, dando dinheiro para a Igreja ou fazendo atos de penitência.

A intenção da sola fide era muito boa - corrigir o erro de que nossa salvação poderia ser obtida ou que a graça de Deus poderia ser manipulada. Mas, como a maioria das doutrinas formuladas em resposta à doutrina de outro grupo, ela foi muito longe. Um dos ensinamentos mais claros em todos os quatro evangelhos é que o caminho para entrar no Reino de Deus é através da vida em obediência à Lei de Cristo. Jesus faz declarações muito claras que condenam aqueles que pensam que serão salvos porque acreditam nas coisas certas ou fazem os rituais religiosos certos. Ele responde a pessoas que acreditam que são religiosas e merecem o céu ao dizer que a religiosidade externa é detestável para Deus e a única coisa que Deus deseja é que eles exercitem sua fé obedecendo o mandamento de Deus - fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente (Miquéias 6.8).

Jesus diz que se alguém afirma estar certo com Deus, mas não serve os pobres, os necessitados, os oprimidos, os marginalizados, os doentes e os pecadores, então não tem relação com Deus. Não importa o que eles proclamem com seus lábios. Não importa o quão religiosos eles possam aparecer. Jesus diz que aqueles que não obedecem não terão parte em seu Reino. Ele deixa muito claro que o caminho para "herdar a vida eterna" é através do amor a Deus e ao próximo. Não é surpreendente, então, quantos cristãos de hoje foram ensinados que a salvação vem através da crença correta em vez da prática correta? Esta é uma mensagem fundamentalmente contrária às palavras de Jesus. E ainda mais para o seu irmão Tiago, que diz: "Você vê que uma pessoa é justificada pelas obras e não apenas pela fé" (Tiago 2.24).

3. A condenação não é o estilo de Jesus.

"Eu não venho para condenar o mundo, mas para salvá-lo." (João 3.17)

"Eu também não te condeno. Vá e não peques mais." (João 8.11)

Vários pregadores evangélicos modernos passam muito tempo falando sobre as pessoas a quem Deus se opõe e quem Ele condena. Eles falam sobre mudar de uma posição de condenação para uma posição de Graça através da crença nas coisas certas sobre Jesus. Muitas vezes falam sobre aqueles que discordam ou vivem contrários à sua compreensão do que é "justo" como aqueles que Deus condena. Mas examinamos os ensinamentos e a vida de Jesus, encontramos que Ele não só levou amizade, mas amor e afirmação para algumas das pessoas mais vis e desprezadas pela sociedade. Ele até ofendia os líderes religiosos que as condenavam por seus pecados.

Na conversa de Jesus com o rabi Nicodemos em João 3, Cristo explica que é sua missão resgatar o mundo e não condenar. No caso em que uma mulher é pega no ato de adultério e é levada afora para ser apedrejada por oficiais religiosos (como a lei exigia), Jesus pára a condenação e proclama liberdade e perdão à mulher. É claro que Jesus não age através de condenação. Em vez disso, parece que Cristo se esforça para restaurar a humanidade das pessoas mais quebradas e perversas; que sua paixão é ver os fracos, doentes e quebrados se tornam fortes, saudáveis e inteiros em seu Reino. Ele gasta muito pouco tempo (quase nenhum) dizendo aos pecadores por que eles estão errados ou falando palavras de condenação, mas praticamente sempre mostra amor e estende Sua graça aos mais prejudicados.

Talvez nós evangélicos, conhecidos pela condenação de grupos dos quais discordamos, pudéssemos aprender algo de Jesus.

4. Você deveria se sacrificar e falar palavras de bênçãos para aqueles que não concordam com você. 

"Ame seus inimigos e abençoe aqueles que o perseguem" (Mateus 5.44)

Parece que toda semana há uma nova grande controvérsia dentro da Igreja. Na maioria das vezes, a situação gira em torno de um grupo de cristãos em desacordo com outro e, em seguida, estes vão à Internet para escrever mensagens caluniosas sobre o outro. Quando não há brigas declaradas, os Cristãos se envolvem em guerras culturais, trabalhando para derrotar aqueles de quem discordamos política e socialmente, pintando-os como monstros sem almas.

Mas essa resposta é absolutamente contrária ao caminho de Jesus. Ele chama Seus seguidores a amar as pessoas de quem eles discordam, a abençoar eles quando tudo o que realmente queremos fazer é maldizê-los. Não importa qual seja a situação ou o tipo de inimigo, os Cristãos são chamados a abençoar as pessoas que mais nos feriram. Isso inclui batalhas teológicas, desentendimentos políticos, guerras nacionais e conflitos pessoais. Os Cristãos são chamados a uma posição radical de não-violência e perdão, graça e até benção aos inimigos. Não há como contornar isso.

Quando os cristãos optam por ignorar esses ensinamentos claros, nossa hipocrisia é óbvia para o mundo todo. O famoso comediante ateu Bill Maher, certa vez, satirizou bem a recusa dos Cristãos em obedecer os ensinamentos de Jesus:

“Agora, por quase dois mil anos, os Cristãos folheiam a Bíblia para tentar descobrir como amar ao próximo pode significar odiar seu vizinho e como dar a outra face pode significar comprar armas, até lasers espaciais. ... Jesus tem falas como não pagar o mal com o mal e não se vingar de quem te incomoda. Realmente, está escrito nesse livro que você segura enquanto grita contra as pessoas gays.”

Pode ser difícil de digerir, mas Bill Maher está 100% correto. "Se você ignora todas as coisas que Jesus lhe mandou fazer, você não é cristão".

O objetivo deste texto é encorajar aqueles dentre nós que afirmam ser seguidores de Jesus a reexaminar como vivemos nossas vidas e praticamos nossa fé. É fácil ficar atrapalhado no fluxo dos acontecimentos e não reconhecer o quão longe estamos da praia, para onde nós fomos carregados. As palavras de Jesus são bastante claras, mas, muitas vezes, em nosso zelo por nossa fé, nos afastamos do básico. Eventualmente, acabamos vivendo de uma maneira que acreditamos que é honrar a Deus, mas é realmente contraditório com tudo o que Ele nos ensinou.

Nesta publicação, ofereci apenas quatro exemplos. Há centenas de ensinamentos contidos nos 4 Evangelhos. Ensinamentos que, se os observássemos, colocariam nossas vidas e o mundo de cabeça para baixo, para a glória de Deus e para o bem de todas as pessoas. O que a Igreja como um todo e os evangélicos em particular necessitam desesperadamente nesta Era é um retorno aos ensinamentos simples de Jesus. Precisamos estar dispostos a deixar de lado os debates teológicos e os meandros, nos concentrar em simplesmente ler, conformar e obedecer a vontade de Cristo, tanto como revelado nas Escrituras quanto como conduzido pelo seu Espírito. O mundo está desejando ansiosamente encontrar Jesus através de nós e por muito tempo nós estamos dando-lhes um truque barato que fazemos sob Seu nome. Mas é claro para todos que o Cristianismo hoje é quase totalmente separado dos ensinamentos de Jesus Cristo.**

Minha oração é que todos nos voltemos para o nosso Salvador ressuscitado e busquemos seguir de forma autônoma seus mandamentos. Estou convencido de que o caminho de Jesus é a única maneira de curar nosso mundo quebrado. Estou convencido de que toda a terra está gemendo enquanto espera que homens e mulheres tomem suas cruzes e sigam o caminho da redenção. Estou convencido de que quando aqueles de nós que nos chamamos de "Cristãos" se reorientarem em Jesus, o poder de Deus fluirá através de nós de uma maneira sem precedentes e milagrosa que trará a salvação até os confins da terra. Ah, como anseio por esse dia!

"Aqueles que não estão seguindo Jesus não são seus seguidores. É simples assim. Seguidores seguem, e aqueles que não seguem não são seguidores. Seguir Jesus significa seguir Jesus em uma sociedade onde a justiça governa, onde o amor forma tudo. Seguir Jesus significa tomar seu sonho e trabalhar para isso". (Scot McKnight)

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* Muitas críticas a esse texto surgiram depois que foi publicado. O cerne delas está em que ele aparentemente separa as Escrituras da Palavra de Deus ou de Jesus. De fato, uma fé baseada no Livro é uma filosofia de vida, não uma religião! Como ter uma vida religiosa trata-se de um debate teológico antigo e pertinente pois, rigorosamente falando, Jesus tratou de problemas ocorridos por volta de 30 d.C. Não somos mais chamados a apedrejar mulheres adúlteras, ou para escolher a quem pagar nossos impostos. As acusações de não-Cristãos não são mais infundadas. Temos mais de 2000 anos de história desde então, com acontecimentos lindos e pavorosos ligados à fé. Há os Cristãos que tentam achar formas de encaixar os acontecimentos relatados na Bíblia nos dias atuais, mas há também os que atentam para essa história as pessoas nela e usam ela como base para suas decisões. Não são menos Cristãos por isso! E se pensarmos que os 1os Cristãos não tinham de fato Escrituras além da Torá judaica, eles se baseavam muito em sonhos, visões e profecias para suas ações. Também não são menos Cristãos por isso! Embora os 3 grupos (vou chamá-los aqui de Escritura, História e Visionários) obviamente vejam problemas sérios uns nos outros e até não considerem Cristãos os dos outros grupos, o Cristianismo não pode se separar de Jesus a ponto de que nem ao menos levemos em conta aquele famoso dito “o que Jesus faria?”.

Todos os grupos têm pontos positivos e negativos quanto a isso. Os Escritura têm a base do que aconteceu com Jesus presente, mas noutra situação, noutro tempo. A Bíblia é útil se pudermos fazer extrapolações a partir dela, mas são extrapolações. Os História têm as autoridades eclesiásticas atuais para se apoiar, que possivelmente são pessoas sábias. Mas possivelmente também defendem interesses humanos, com visões humanas enviesadas. Os Visionários têm supostamente uma comunhão pessoal com o Espírito Santo e Ele dirá o que fazer. Acreditamos no Espírito Santo! Mas nada prova que ouvem a Ele e não qualquer outro Espírito, ou a si mesmos. Mártires e heróis foram guiados por visões, assim como loucos homicidas.

Não há uma solução simples. Nesse ponto, se nos dermos um tempo para examinar as Escrituras, a História e ouvir o que muitos chamam de Espírito-Santo-Em-Nós, é provável que tomemos boas decisões. Jesus, pelo menos, conhecia todas os três valores.

** Nós tendemos a ver a Igreja Primitiva ou Fundamental como algo puro, próxima de Jesus, algo ideal do qual estamos muito distantes. De fato, sempre houve essa imagem depreciatória da Igreja quanto a si mesma, e ela movimentou muitas revoluções internas. Mas a Igreja ideal, a igreja perfeita, é de fato ideal no sentido em que existe na idéia, no pensamento das pessoas. Jesus travou muitos embates “didáticos” com seus seguidores. Paulo, Pedro, Silas, Lucas, Barnabé, João e João Marcos estiveram envolvidos em milagres, mas não eram exatamente afinados quanto ao que punham em prática acerca da fé. A não ser pela força e violência, nunca houve tanta unidade assim dentro do Cristianismo, o que talvez revele que há muitas formas de proceder ainda dentro do que Jesus espera de nós.

domingo, 23 de julho de 2017

Sobre o ensino dos apóstolos

Reunião dos 12 apóstolos - Rússia, século 14

Esse texto faz parte de um material que aparece também em

A palavra Didache, Didaquê ou Didaqué significa literalmente “ensino”. Esse também é o nome de um dos livros mais antigos do Cristianismo. Faz muito tempo que quero escrever sobre essa e outras obras... No entanto, é um trabalho detalhista e demorado estudar cada uma. Após o texto, nas referências, há um link para quem se convenceu a ler esse pequeno e importante livro. Espero que gostem!

O livro “Ensino dos doze apóstolos”, “Ensino do Senhor para os gentios pelos doze apóstolos” ou simplesmente Didache representa uma das primeiras elaborações do Cristianismo. Diversos estudiosos pensam que seja uma obra contemporânea dos Evangelhos ou até anterior a eles. O livro assume-se Cristão desde o título e traz basicamente instruções a comunidades Cristãs. Assim como os livros do Novo Testamento (NT), ele não traz a mínima referência à destruição de Jerusalém em 70 d.C. sendo, portanto anterior a esse ano.

A organização dos Evangelhos só ocorreu no 2º século, com o vínculo com Jerusalém drasticamente cortado (pela destruição da cidade e pela perseguição aos Cristãos) e quando as comunidades iniciaram um movimento de compilação e colagem dos vários manuscritos atribuídos aos apóstolos. Antes disso, havia diversas comunidades Cristãs nas proximidades de Jerusalém, Síria, Grécia e Roma que eram visitadas ocasionalmente pelos apóstolos (incluindo Paulo) e formavam novos líderes itinerantes (como Barnabé e Silas). O ensino nas comunidades (e também o funcionamento delas) era organizado a partir de cartas longas trocadas entre elas, algumas das quais alcançaram o status de epístolas (pequenos livros), mas também através de conhecimentos visionários supostamente fornecidos pelo Espírito Santo ou pelo Cristo.

Um ponto importantíssimo quanto à Didache é que as instruções práticas/rituais encontradas ali não são tão claras na Bíblia, como se ela fosse um manual ou guia de consulta. Quase todos os detalhes da vida Cristã que ela apresenta tornaram-se a práticas padrão nas igrejas. Mesmo que a Didache tenha sido abandonada como material de ensino no século 4, seu conteúdo já havia sido absorvido em documentos e práticas litúrgicas.

Quando o Edito de Milão institucionalizou o Cristianismo em Roma (313 d.C.), as comunidades Cristãs haviam crescido regidas por textos muito variados. A instituição Igreja, então, começou um movimento de descobrir quais desses textos eram “válidos”, “reais” ou canônicos. A Didache era um dos textos que haviam orientado as comunidades dos 1º e 2º séculos, entretanto foi considerada incompatível com os textos canônicos, pois não se podia afirmar que a Didache fosse obra autoral de um dos apóstolos ou de alguém que conviveu com Jesus. De fato, como mostraremos a seguir, o texto indica que esse julgamento é verdadeiro. Desde o século 4, por esse motivo, a Didache desapareceu do ensino religioso.

Existem muitas dúvidas sobre a autoria da Didache. Desde que foi considerada inapropriada, a obra ficou relegada aos manuscritos contando a história da Igreja, sendo citada em partes por historiadores como Eusebius de Cesarea¹ e o antigo texto Doctrina apostolorum. Mas a Didache re-apareceu em 1883, traduzida pelo arcebispo Bryennios a partir de um manuscrito do séc. 11, contendo este e outros textos antigos. A sua origem provavelmente é Antioquia, na Síria, assim como o livro de Mateus. O texto não é assinado por alguém, mas leva o nome conhecido dos Doze. Como em bem poucos momentos desde a Ressurreição os Doze estiveram reunidos, acredita-se que o autor (ou os autores) na verdade usaram um nome conhecido para dar visibilidade à obra. Tal prática era comum na Antiguidade. Por outro lado, havia figuras célebres dentro da Igreja como Paulo, Barnabé, Silas, Pedro, João Marcos, etc a quem a Didache poderia ter sido atribuída. A referência simples aos Doze sugere que se trata de um texto forjado por uma ou mais comunidades Cristãs onde não havia um Profeta ou líder de influência. Tais autores provavelmente tiveram apenas um contato indireto com os Apóstolos. Esse na verdade foi o motivo para que a Didache não fosse aceita como parte dos livros bíblicos.

Um ponto interessante da Didache é a estrutura de evangelismo que ela revela. O NT aparentemente apresenta Paulo como o apóstolo dos Gentios (não judeus) e os Doze como apóstolos dos Judeus (Gálatas 2.9). Como pouco mais do que as epístolas de Paulo sobreviveram até a centralização da Igreja, a teologia Cristão assumiu esse modelo. Entretanto, as histórias dos Doze revelam que apenas alguns deles permaneceram entre os Judeus após a destruição de Jerusalém e início da perseguição aos Cristãos. Na Didache, de forma diferente, os Doze são patriarcas da Igreja enviados a todas as nações, o que talvez seja uma forma mais correta de ver o movimento Cristão nos séculos 1 e 2.

Boa parte do texto trata de como a Igreja deve receber os missionários, chamados de Profetas. Essa designação combina com o que é dito no texto, de que eles são “sumo sacerdotes” em contato direto com Deus. Em outras palavras, são visionários itinerantes. O texto recomenda que sejam mantidos pela Igreja por um número pequeno de dias e então exerçam algum ofício para conseguir seu sustento. Tal atitude protetiva quanto a verdadeiros e falsos profetas que desejavam se aproveitar da hospitalidade Cristã mostra que não deviam ser incomuns esses sujeitos. O próprio Paulo, um dos cabeças da Igreja, remete a esse trabalho dos mestres itinerantes:

Ali, encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que havia chegado recentemente da Itália com Priscila, sua mulher, pois Cláudio² havia ordenado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo foi vê-los e, uma vez que tinham a mesma profissão, ficou morando e trabalhando com eles, pois eram fabricantes de tendas. (Atos 18.2,3)

O cap. 15 da Didache trata, por outro lado, da relação com bispos e diáconos. Por isso, a Didache é particularmente interessante: ela retrata a Igreja num momento em que a hierarquia centralizadora (que se fixaria em Roma, Antioquia e Alexandria) começava a existir, mas convivia com a direção descentralizada típica da Grécia. Nesse momento em especial, outras contradições eram conviventes, como a referência a um símbolo Judeu, a videira de Davi (Didache 9.3), que aparece em Isaías e no Apocalipse de João, e a referência a vários mandamentos do Deuteronômio. A importância desses elementos numa epístola destinada aos Gentios está em que, apesar da insistência de Paulo em separar os Cristãos dos Judeus, outros apóstolos (como Pedro) e líderes posteriores viam no Cristianismo uma forma de “judaizar” os Gentios.

A forma como essa “judaização” era feita seguia o modelo de Deuteronômio 30.15:

Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição. (Deuteronômio 30.15)

Na Didache, o dualismo vida/morte aparece como modos de vida e morte, bem no início do texto. Embora o “modo de vida” seja bem semelhante ao Sermão da Montanha (Mateus 5), não há indicação alguma de que essa instrução venha de Jesus. De fato, o mesmo tipo de dualismo aparece como “luz e trevas” nos manuscritos de Qumran (não Cristãos) e até com o mesmo nome – modos de vida e morte – na epístola de Barnabé e no Doctrina apostolorum. Uma vez que Lucas ordena tais mandamentos de forma diferente em sua pesquisa sobre a vida de Cristo, é bem possível que eles sejam na verdade parte de um texto (ou conjunto de textos) de ensino religioso no século 1 que ficou conhecido como “documento Q”. Há evidências da existência de tal documento pelo aparecimento de muitas partes que se encaixam em vários textos (a Didache é um deles), mas nenhum manuscrito completo que tenha sobrevivido até a atualidade.

Ainda com relação à inserção da Didache entre os livros canônicos, em Atos 19:1-5 Paulo encontra em Éfeso, por volta de 50 d.C., alguns discípulos de João Batista, que provavelmente se identificaram com o Cristianismo. É interessante que João Batista não parecia liderar um movimento como o que se seguiu a Jesus, mas Éfeso era distante o suficiente de Jerusalém para se pensar em como havia discípulos de João Batista por lá. Talvez praticassem uma espécie de Cristianismo primitivo, bem depois de João Batista e mesmo de Jesus. Tal situação é semelhante à fala de João apóstolo em Cafarnaum:

"Mestre", disse João, "vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos." (Marcos 9.38, Lucas 9.49)

Repare que este que expulsava demônios em nome de Jesus nem ao menos era conhecido dos Doze. Talvez sequer tivesse tido um contato pessoal com Jesus. Muitos estudiosos sugerem que nos 1os séculos (como hoje também) existia um Cristianismo paralelo ou popular, bastante místico e rico em elementos judaicos, não centrado nos Doze ou qualquer personagem bíblico mais relevante. Se isso for verdade, a Didache pode ter surgido dessa fonte, assim como a Doctrina Apostolorum e talvez partes do livro de Mateus.

Algumas diferenças relevantes entre a Didache e o texto bíblico são quanto a esperar para saber a quem dar esmolas, cercar-se de pessoas (santos) que pensam da mesma maneira e o pão repartido sobre as montanhas, que foi reunido como a Igreja será. Além disso, os capítulos 8 e 9 são referentes à Eucaristia, que hoje se celebra como um ritual de purificação entre os Cristãos, lembrando as cenas da ceia com pão e vinho descritas em Marcos 14.22-26 e 1ª Coríntios 11.23-25. Essa ceia é bem diferente da descrita por João, o discípulo mais próximo de Jesus, contendo a carne e o sangue, e também Jesus lavando os pés dos discípulos. A Eucaristia da Didache, semelhante à ceia com pão e vinho, é descaradamente uma bênção antes e após a refeição existente no Judaísmo (sem nenhuma referência à morte e ressurreição de Jesus), o que novamente sugere um Cristianismo paralelo ou popular que foi misturado aos relatos dos apóstolos na composição dos livros canônicos.

Paulo fazia questão de separar os Cristãos dos Judeus, enfatizando que os preceitos do Judaísmo nada tinham a ganhar quanto ao ensino de Jesus. Ele chamava tais preceitos de “escravidão”.

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão. (Gálatas 5.1)

A Didache, como um livro Cristão de forte influência judaica, por outro lado coloca a curiosa sentença:

Tenhais cuidado para que ninguém vos faca errar neste modo de Ensino, visto que é Deus que vos ensina. Pois se sois capazes de suportar o jugo do Senhor, sereis perfeitos; mas se não puderes fazer isto, façais o que sois capazes. (Didache 6.1-2)

Assim, ela mistura os preceitos divinos do Judaísmo com o ensino de Jesus (via Sermão da montanha), mas então, tendendo para o “jugo leve do Senhor” de Mateus 11:30, acrescenta que não é necessário ser estrito na observação de tais leis.

A VIDA CRISTÃ NA DIDACHE

Em seus estudos sobre os livros canônicos, Eusebius de Caesarea classificou a Didache como escritura espúria (não verdadeira). Outro estudioso do séc. 4, Methodius de Olympus considerou canônicos os 27 livros do NT atual, além do Apocalipse de Pedro, a epístola de Barnabé, a Didache e ainda o Sobre a Virgindade. Pouco depois, em 367 d.C., o bispo romano Athanasius apresentou os formatos atuais do VT e do NT. Ele agrupou os livros existentes em canônicos (os que são parte da Bíblia), rejeitados (aqueles que se averiguou serem falsos) e livros para serem proclamados, como por exemplo, instruções sobre o batismo. A Didache foi colocada nesta última categoria, com “os dois caminhos” sendo entendido como uma espécie de juramento ou contrato de batismo. De fato, na Didache, uma parte importante do texto é relativa aos preparativos para o batismo. Este deveria ser feito em água corrente (como o de João Batista), mas precedido de jejum tanto do batizador quanto do batizando. Sendo um batismo Cristão, entretanto, era feito para aqueles que jurassem quanto ao “modo de vida” e em nome do Pai, Filho e Espírito Santo.

Em seu brilhante artigo, Thomas O’Loughlin chamou a atenção para diversos elementos que deveriam estar em um livro Cristão – sobretudo para a época/local em que foi publicado - e estão ausentes da Didache. Primeiro, não há explicações doutrinárias, ao contrário das cartas de Paulo. Parece que a Didache foi escrita para leitores com um conhecimento certo do "evangelho" e de Jesus. Essa mesma certeza é aplicável aos batizandos, algo sem dúvida notável no meio do século 1 e entre uma população de Judeus, Gregos e Romanos. O batismo é até colocado como única condição para que tais pessoas participem da refeição Cristã e as bênçãos associadas com esta prática.

A vida em comum, os batismos, as refeições em grupo e as bênçãos antes/depois das refeições são destacadas na Didache como o centro da vida Cristã, ao invés de uma estrutura de cultos e reuniões sagradas eventuais. De fato, tais reuniões nem sequer são citadas.

Outro ponto importante é a relação entre os antigos e os novos na fé. A Didache cita a existência de mestres/profetas itinerantes, mas deixa claro que eles são recebidos e mantidos pelas comunidades quando ali estão, em geral por pouco tempo. Ou seja, tais mestres não são “os guias” das comunidades, como somos levados a pensar pela analogia com “o pastor de ovelhas” nas falas de Jesus. Os membros da comunidade Cristã da Didache não são ovelhas necessitadas de um mestre, ainda que os tenham como sumo-sacerdotes por um tempo. As comunidades da Didache se auto-organizam, batizam seus neófitos e, mais ainda, os colocam na mesmo posição dos mestres que os batizaram.

No livro de Mateus há uma idéia sugerida de que o discípulo jamais se iguala ao mestre:

O discípulo não está acima do seu mestre, nem o servo acima do seu senhor. (Mateus 10.24)

A Didache, por outro lado, não cita mestres além daqueles itinerantes – que são respeitados, mas não são membros da comunidade. Nem são eles quem fazem os batismos.

Nós Te agradecemos, Pai santo, por Teu santo nome porque fizeste um tabernáculo em nossos corações, e pelo conhecimento, fé e imortalidade, que modestamente nos tornou conhecidos através de Jesus, Teu Servo; a Ti seja para sempre a glória. (Didache 10.2)

O texto da Didache não era destinado a um grupo especializado de sacerdotes, mas para uso de todos os membros da nascente Igreja. Não pretendia ser "um documento de alto nível" explicando a fé ou pregando "o evangelho", mas com informações simples sobre a práxis cristã para que um indivíduo pudesse viver como discípulo dentro da comunidade. Esse membro comum poderia, com tal instrução, iniciar ele mesmo novos membros no grupo, mais ou menos como quando Filipe batizou o eunuco etíope a quem o Espírito o destinou (Atos 8).

Compartilhar um tempo comum é uma maneira fundamental de os seres humanos expressarem suas solidariedades. E se isso está ligado a estruturas de lembrança - como uma bênção em cada refeição - torna-se o meio pelo qual as pessoas absorvem a história da comunidade. Na Didache, dada sua simplicidade como livro ou epístola - é possível que a forma de o neófito aprender o que era fazer parte da igreja fosse literalmente através do tempo e eventos compartilhados. Isso coloca uma estrutura certamente diferente do que se desenvolveu no Cristianismo a partir do século 4 e após sua definição como elemento do Estado Romano.

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¹ Eusebius Pamphili foi bispo de Cesarea Maritima (norte de Israel) durante a publicação do Edito de Milão e ficou famoso por sua argumentação durante o processo de estruturação da Igreja como órgão do Estado romano.

² Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus, imperador de Roma de 41 a 64 d.C.

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LEITURA DE OUTROS TEMPOS

Didache - texto traduzido e numerado
Draper, J. A. (2006). The Apostolic Fathers: The Didache. The Expository Times, 117(5), 177-181.
O'Loughlin, T. (2011). The Missionary Strategy of the Didache. Transformation, 28(2), 77-92.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

História do nome de Deus

placa de pedra de Ur, do séc. 10 a.C., ilustrando o deus Baal

Em 1999, uma profunda discussão sobre a história hebraica surgiu quando o arqueólogo Ze’ev Herzog anunciou no jornal Ha'aretz Magazine em Tel Aviv os resultados de suas escavações. Buscando em Canaã pelos vestígios da antiguidade de seu povo, ele e seus colegas acabaram encontrando sérias divergências entre as evidências históricas e o Velho Testamento (VT). Dos tempos de Josué, Herzog não encontrou muitas das muralhas citadas no Antigo Testamento - nem sequer a fundação delas. Várias das cidades históricas tinham desaparecido e ressurgido ao longo dos últimos 1000 anos da Idade do Bronze, sem vestígios de grandes batalhas. Dos tempos de Davi e Salomão (séc. 10 a.C.), mesmo Israel não possuiu muralhas verdadeiras, que fossem capazes de resistir a um ataque. Mais bombástico ainda, Herzog só encontrou evidências de monoteísmo a partir do séc. 7 a.C., no reinado de Josias e época da destruição de Samaria pelos Assírios. Antes disso, YHWH, Baal, Asherat e até Moloch pareciam divindades quase igualmente cultuadas em Canaã. Algumas inscrições inclusive confundiam os deuses masculinos, colocando um e outro como maridos de Asherat, que parecia ser uma deusa mãe aparentada com In-nanna (Sumérios), Ishtar (Caldeus), Afrodite (Gregos) e Hathor (Egípcios).

O rei Josias se esforçou para reformar a religião hebraica, extirpando os altares e templos de outros deuses (2ª Crônicas 34.3). Segundo Herzog, o que ele fez na verdade foi unificar todos os cultos; apesar de a transformação parecer radical, talvez não fizesse muito mais do que eleger o próprio Josias como vice-rei ou governador de Deus aqui na Terra. Nessa posição, ele promoveu transformações significativas. E pelo motivo dessa unificação, provavelmente, o nome de Deus foi proibido de ser pronunciado por algumas dezenas de anos – eram vários nomes.

Na Bíblia atual, quase 2700 anos depois do rei Josias, Deus ainda aparece designado por diversos nomes. Mesmo se Herzog estiver errado, porque afinal Deus Se designou ou foi designado por tantos nomes diferentes? Seguindo a lógica de Jesus, que mudava nomes próprios como símbolo de um novo caminho da pessoa, será que Deus se modificou também enquanto o VT era registrado?

Os historiadores que se debruçaram sobre os textos bíblicos, desde a Antiguidade, em geral concordam com Herzog no sentido de que os vários nomes de Deus são sinais de re-edições dos cultos, como se uma divindade fosse lapidada para se conformar a outros tempos. Algo semelhante aconteceu com os deuses do Candomblé no Brasil e Caribe, fundidos aos santos Católicos. Na Idade Média, foram muitos os santos Católicos que nasceram de deuses pagãos da Europa. Na Cabala judaica, o panteão de anjos (não citados no Velho Testamento) também guarda fortes traços do politeísmo Europeu. No VT, chama a atenção o fato de que o nome final/oficial de Deus – Javé – é praticamente ausente dos nomes de lugares em Canaã. Se nomes teofóricos fazem referências a divindades, em Canaã a maioria deles contém El (ex. Yisra-El = El luta) ou Baal (ex. Baalbek = Senhor das fontes), justamente divindades demonificadas ao longo do VT. Como é possível que os conquistadores de Josué ou os reformadores de Josias tenham morado nesses locais? Para tentar responder algumas dessas perguntas, proponho regredirmos no tempo em busca dos antigos nomes de Deus.

PRONÚNCIA ATUAL

Num 1º passo, vamos até a Reforma Protestante (1507), quando Lutero traduziu para o alemão os textos gregos do VT e do NT. Ele usou como referência os textos sagrados dos Masoretas (do hebraico Mesorah = tradição), estudiosos da língua hebraica que iniciaram seus trabalhos no séc. 7 d.C. como copistas da Torah. YHWH (o nome usado no VT) é escrito com apenas consoantes e não tem pronúncia definida, por isso Lutero decidiu pela tradução Yeová/Jeová. Essa pronúncia se perpetuou em muitas traduções da Bíblia desde então. Se recuarmos um pouco mais nessa época de impérios, quando o Cristianismo era levado como bandeira em grandes invasões ou Cruzadas, por volta do séc. 10 os Católicos usavam uma tradução romana do VT onde Deus aparecia com os nomes Ieve, Iao, Ia até Iabe. A semelhança com Javé/Iavé, usadas no final da Idade Média, é clara. Algumas traduções em latim feitas a partir do hebraico traziam ainda Dominus (Senhor) ou o equivalente Adonai.

A ERA DAS SUBSTITUIÇÕES

Adonai e Dominus já são o que se chama de substituições, que consistem em alguém não escrever o nome de Deus, por considerá-lo sagrado demais. Essa prática nos leva para os séculos 2-4 d.C. Era o tempo da perseguição romana aos Cristãos, mas também um período crítico para os Judeus. O Novo Templo (erguido por ordem de Ciro da Pérsia a partir de 530 a.C. e reformado por Herodes, o grande, de Roma, em 20 a.C.) e a própria Jerusalém haviam sido destruídos por Roma. Os Judeus e os Cristãos estavam espalhados pelo Império, afastados de cargos políticos e organizando grupos de culto independentes. Sem seus lugares sagrados, os Fariseus e Saduceus dos tempos de Jesus foram substituídos por rabinos, estudiosos que deviam interpretar as Escrituras e orientar os homens quanto a sua aplicação. Pronunciar o nome de Deus (YHWH) foi considerado um pecado muito grave, de forma que tal nome era substituído na leitura e até na cópia dos textos por Ha Shem/Shema (O nome), Ha Magom (o Onipresente), Ha Mana (o Piedoso) ou Adonai (o Senhor). Alguns copistas simplesmente deixavam uma lacuna onde estaria o nome de Deus, por temor de escrevê-lo. Um dos mais citados rabinos, Maimonides (1135-1204), contudo, ensinava que YHWH era pronunciado abertamente na liturgia dentro do Novo Templo.

Quando Alexandre o grande invadiu o Oriente Médio (300 a.C.), um de seus generais-sucessores - Ptolomeu II - ordenou a tradução dos livros hebraicos do Pentateuco para o grego, tarefa que foi dada a 72 estudiosos. Eles produziram uma versão do VT conhecida como Septuaginta, que deu origem à versão romana dos livros, que foi utilizada pelas primeiras comunidades Cristãs na Síria, Grécia e Roma, nos séculos 2-4 d.C. Tais comunidades absorveram dos Judeus valores e tabus como a proibição quanto a escrever ou pronunciar o nome de Deus, de forma que nos livros Cristãos, assim como nos Judaicos, YHWH passou a ser substituído por Kyrios (Senhor) ou Theos (Deus). Alguns manuscritos mantiveram as letras hebraicas de YHWH.

A REFORMA DE JOSIAS

Josias foi um rei de Judá cuja referência só aparece nos textos bíblicos. Segundo as Escrituras, ele empreendeu por volta de 620 a.C. as reformas no Templo iniciadas pelo rei Joás cerca de 200 anos antes. Junto ao profeta Hilkias e profetisa Hulda, Josias recuperou textos sagrados guardados no Templo, que se referiam à história de Israel desde Moisés e os mandamentos de Deus, aparentemente esquecidos desde o reinado de Salomão. Josias ordenou a execução dos profetas de Baal, a destruição dos templos de Asherah (representada por vacas de ouro, 1ª Reis 12.28-30) em Bethel e Dan, assim como a exumação dos profetas de Baal e Asherah enterrados nos montes aos redor de Jerusalém.

As ações enérgicas de Josias mostram o quanto o culto de outros deuses (além de YHWH) era comum em Canaã, relembrando quando Moisés destruiu o bezerro de ouro forjado junto a Aarão durante sua estadia no Sinai. Por outro lado, a presença dessas divindades faz pensar que se passou muito tempo desde uma monarquia monoteísta como é relatado para Davi e Salomão. Na verdade, mal haviam se passado 200 anos, com o Templo em plena atividade. As mudanças aparentemente sérias feitas por Josias e as descobertas de Herzog sugerem que Josias fez mais do que uma reforma religiosa: ele contratou escribas para unir estórias e tecer o passado de Judá, mesmo que fossem bastante imaginativos quanto a isso, assim como Heródoto - o 1º historiador - foi em relação aos povos que visitou. A semelhança textual entre passagens do livro de Josué e os textos sobre Josias levaram vários historiadores a desconfiar seriamente que os autores de um e outro eram os mesmos escribas.

Josias morreu tentando impedir que os exércitos Egípcios cruzassem Canaã para chegar até a Assíria.

A CONSOLIDAÇÃO DOS REINOS DE CANAÃ

No séc. 9 a.C, logo após Salomão, quando as 12 tribos foram divididas entre os príncipes Judeus, Judá (reino do Sul) e Israel (reino do Norte) aproveitaram o vácuo de poder entre as retrações do Egito e da Assíria para estender as fronteira de seus reinos sobre os demais povos de Canaã. Isso significava estender também o deus de Judá e Israel (YHWH) sobre os deuses de outros povos, como Qemosh, de Moab. O rei Mesa/Mesha de Moab mandou inscrever uma estela de pedra com seus feitos militares e as batalhas que travou com Israel, referindo claramente YHWH como a divindade de seus adversários.

O VT refere a esse período como contaminante sobre os cultos de Judá e Israel, pois os empreendimentos militares também misturavam as populações dos Judeus com os demais habitantes de Canaã, levando para os Judeus deuses estranhos e abomináveis. Baal, por exemplo, era um deus da tempestade e da agricultura, costumeiramente adorado ao redor de postes (ou para-raios?) no alto dos montes. Outra figura introduzida foi Asherat/Asserá, uma deusa-mãe associada com os bosques, florestas e árvores sagradas. Enquanto alguns reis Judeus perseguiram tais cultos, outros como Akab/Ahab foram coniventes e até envolvidos com eles, a ponto de fixarem imagens e gravuras deles no Templo. YHWH, referido como a principal divindade dos Judeus e citado pelo menos 6800 vezes na Bíblia, era nomeado por uma palavra de pronúncia duvidosa ou inexistente, que significa supostamente “Eu sou” e não define nada sobre Deus em termos humanos.

Mesmo na época de Davi e Salomão (séc. 10 a.C.), algumas curiosas referências a Deus aparecem:

[YHWH] subiu sobre um querubim e voou; e foi visto sobre as asas do vento. E por tendas pôs as trevas ao redor de Si, das águas e nuvens dos céus. Pelo resplendor da Sua presença brasas de fogo se acenderam. Trovejou desde os céus [YHWH]; e [Elyon] fez soar a sua voz. Disparou flechas e raios. (2ª Samuel 22.11-15)

[Elohim] está na congregação de [El]; Ele julga no meio dos [Elohim]. ... Eu disse: Vós sois [Elohim], e todos vós filhos do [Elyon]. Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer um dos príncipes. (Salmo 82)

Elohim era uma palavra usada para designar Deus, terminada em –im como poucas outras palavras do hebraico no singular (ex. Efraim). Na Bíblia, Elohim é a 2ª forma mais comum do nome de Deus, aparecendo mais de 2500 vezes. Tal palavra não deixou de atrair a atenção de muitos estudiosos pois, oficialmente falando, Elohim significa “deuses”. Mais ainda, havia um deus da terra de Ur (de onde veio Abraão) chamado El/Elyon, senhor dos raios, que se reunia com os deuses menores (Elohim) e os enviava para a Terra, para habitar em meio aos homens. Para completar, muitos lugares sagrados em Canaã levam a terminação –El, como se pertencessem a um deus com esse nome. Esse deus era chamado de senhor dos leões; e a figura do “leão de Judá” não poderia trazer uma história mais curiosa. Para completar, El era casado com Asherat, a divindade perseguida pelo rei Josias. Segundo a mitologia dos Sumérios de Ur, os deuses El e Asherat tiveram 70 filhos, enviados para reinar entre os homens DE ACORDO COM OS NÚMEROS DE CADA NAÇÃO. Alguns nomes que aparecem entre tais filhos, em especial recebendo as terras de Canaã, são Baal e Yaweh!

Quando [Elyon] deu às nações a sua herança, quando dividiu toda a humanidade, estabeleceu fronteiras para os povos de acordo com o número dos filhos de Israel. (Deuteronômio 32.8)

As especulações sobre Abraão ter trazido de Ur as divindades locais não podiam faltar. No meio do caminho, entre Ur e Canaã, mais próximo dessa última, na terra que já foi chamada de Madiã e hoje sedia a Arábia Saudita, Elohim ainda derivou as palavras Elaha (idioma Arameu, séc. 5 a.C.), Alaha (idioma Sírio, séc. 2 d.C.) e depois Allah (idioma Persa/Árabe, séc. 5 d.C.). Se o parentesco dos nomes é o que parece ser, El/Elyon é também Allah, de alguma forma pai/ancestral de Baal e Yaweh, que são deuses irmãos, ambos “senhores dos exércitos”.

ENTRE OS FILHOS DE RÁ

Em termos de Quem era o deus dos Israelitas no início de Canaã, podemos pensar em duas épocas: antes e depois do estabelecimento da monarquia. Antes dos juízes e reis iniciando com Saul, havia cidades-estado com deuses locais, derivados principalmente da cultura de Ur (Suméria). Com a chegada dos Hyksos, valores do Egito foram misturados aos deuses de Canaã, favorecendo divindades regionais e até nacionais. Em nossa proposta de ir rumo aos tempos mais remotos, vamos primeiramente falar da influência Egípcia em Canaã, ou seja, da época do início da monarquia.

A primeira referência Egípcia em Canaã evidentemente é o controverso Moisés. Como já discutido em outro texto, o Moisés bíblico parece ser uma fusão de vários personagens, o que de fato seria esperado se as estórias sobre ele tivessem sido reunidas ou costuradas nos tempos de Josias (648-609 a.C.) e não na época dele mesmo.

O Moisés mais antigo (aprox. 1500 a.C.), líder de um grupo Hykso que partiu do Egito após perder batalhas contra os faraós de Thebas, certamente era seguidor de Baal. Esse deus aparece nas inscrições dos palácios e templos Hyksos, lá no Egito. O segundo Moisés, sacerdote da 18ª dinastia do Egito (aprox. 1350 a.C.), adorava o deus-sol Aten e deixou sua terra em busca dos territórios aliados mais distantes, pois os sacerdotes Egípcios reestabeleceram o politeísmo e extirparam todos os traços do culto de Aten. Os sacerdotes eram ligados à realeza e esse talvez seja o Moisés (seu nome era justamente Moshe) associado com as riquezas registradas no livro do Êxodo, bem estranhas para um povo de escravos que foge pelo deserto.

Tomai do que tendes, uma oferta para o Senhor; cada um, cujo coração é voluntariamente disposto, a trará por oferta alçada ao Senhor: ouro, prata e cobre, azul, púrpura, carmesim, linho fino, pelos de cabras, peles de carneiros, tintas de vermelho, peles de texugos, madeira de acácia, azeite para a luminária, especiarias para o azeite da unção e para o incenso aromático. E pedras de ônix e pedras de engaste para o éfode e para o peitoral. (Êxodo 35.5-9)

Além disso, Moisés era um líder militar. Essa atuação provavelmente se deve ao general Mermoses (= filho de Mer), enviado na mesma época de Moshe para pôr fim a uma rebelião na terra de Kush/Núbia ao sul do Egito. Lá estavam as minas de ouro que forneceram à 18ª dinastia seus grandes tesouros. Há vestígios do exército de Mermoses perto dali, na Etiópia, onde o general Egípcio casou-se com a princesa da poderosa cidade-estado de Sabá. Com a expulsão dos sacerdotes de Aten, Mermoses certamente tornou-se inimigo da nobreza de Thebas e não é impossível que a Etiópia tenha fortalecido relações com reinos mais distantes, como Canaã. Talvez até Mermoses e sua família tenham migrado de uma terra a outra. Na Bíblia, encontramos passagens que de repente se conectam:

Miriã e Arão começaram a criticar Moisés porque ele havia se casado com uma mulher cuxita. (Números 12.1)

A rainha de Sabá soube da fama que Salomão tinha alcançado, graças ao nome do Senhor, e foi a Jerusalém ... Disse ela então ao rei: "... Bendito seja o Senhor, o teu Deus” ... E ela deu ao rei quatro toneladas e duzentos quilos de ouro e grande quantidade de especiarias e pedras preciosas. E nunca mais foram trazidas tantas especiarias quanto as que a rainha de Sabá deu ao rei Salomão. (1ª Reis 10)

Num tempo de guerras entre impérios, seria bem improvável uma rainha viajar tão longe levando uma considerável riqueza e em direção a um reino desconhecido. A influência da cultura Egípcia sobre Israel, supostamente levada pelos vários Moisés, faz-se notar na grande semelhança entre os 10 Mandamentos e um trecho do Livro dos Mortos, conjunto de orações escritas em tumbas para encomendar os espíritos ao Outro Mundo:

Eu não cometi pecado. Não cometi assaltos com violência. Não roubei. Não matei homens e mulheres. Não roubei grãos. Não tirei ofertas. Não roubei as propriedades dos deuses. Não menti. Não levei comida embora. Não proferi maldições. Não cometi adultério. Não me dediquei aos homens. Não fiz ninguém chorar. Não comi o coração. Não ataquei nenhum homem. Não sou um enganador. Não roubei terras cultivadas. Não fui um espião. Não caluniei ninguém. Não fiquei bravo sem justa causa. Não descartei a esposa de nenhum homem. Não me poluí. Não aterrorizei ninguém. Não transgredi a lei. Não fiquei irritado. Não fechei os ouvidos às palavras da verdade. Não blasfemei. Não fui violento. Não agitei de conflitos. Não agi com pressa indevida. Não criei discussões. Não multipliquei minhas palavras ao falar. Não errei. Não fiz nenhum mal. Não fiz feitiçaria contra o rei. Nunca parei o fluxo da água. Nunca levantei a minha voz. Não amaldiçoei os deuses. Não agi com arrogância. Não roubei o pão dos deuses. Não tomei os bolos khenfu dos espíritos dos mortos. Não arruinei o pão de crianças, nem tratei com desprezo o deus da minha cidade. Não matei o gado pertencente a um deus.

Mesmo pensando-se nos tempos de Davi e Salomão, principais figuras da monarquia de Israel, não demorou que os historiadores também reparassem numa incrível semelhança entre o Salmo 104 e o Hino a Aten, do tempo do faraó Akhenaten, do sacerdote Moshe e do general Mermose, cerca de 150 anos após o Êxodo (veja as referências, no final do texto). Basicamente, o Salmo apenas re-nomeia o Deus do hino como YHWH.

ENTRE OS FILHOS DE UR DOS CALDEUS

Falemos agora sobre o longo período pré-monarquia. Para começar, a nomeação de “Ur dos Caldeus” no texto do Gênesis é um sinal de que os autores do texto não eram tão antigos assim. A cidade-estado de Ur, próxima à foz dos rios Tigre e Eufrates, existe desde aprox. 3800 a.C., sendo uma das mais antigas conhecidas. Lá reinou o poderoso Sargão em 2000 a.C., de quem derivou a estória sobre o nascimento de Moisés. Os Caldeus, por outro lado, são um povo que somente se organizou na região de Ur por volta de 1000 a.C., bem depois do Êxodo. Os Caldeus ficaram especialmente conhecidos por seu notório rei Nabucodonosor, que comandou a invasão de Israel em 600 a.C.

O Gênesis nos conta que Abraão chegou em Canaã sob o comando de Deus, saído de Ur. A mitologia de Ur, assim, é a referência mais antiga que temos sobre o(s) deus(es) Israelitas em Canaã. Essa mitologia traz, inclusive, uma versão do Dilúvio. A principal divindade de Ur era El, o Criador, nascido quando o Céu e a Terra se separaram. Furioso, o Céu começou a destruir seus filhos (deuses) sobre a Terra, mais ou menos como El Shaddai exterminando os filhos dos anjos com os humanos (Gênesis 6). Entre esses deuses estavam El e Asherat/Baalat. El atacou o Céu com uma lança e castrou seu pai, ao mesmo tempo afugentando-o. Ele teve então 70 filhos com Asherat, destinados a comandar as nações na Terra. Entre tais filhos estavam Yam (senhor do mar), Mot (a morte), Baal (senhor dos relâmpagos) e Yaweh (senhor do fogo). Reparemos que, no Pentateuco, Yaweh/YHWH faz sua aparição a Moisés num arbusto em chamas, solicita depois que os sacrifícios sejam queimados e finalmente incendeia o altar feito por Elias. Isso para não falar das "línguas de fogo" sobre os apóstolos, no livro de Atos. Tanto Baal quanto Yaweh receberam Canaã como reino, e talvez isso explique Sua forçosa convivência e as intermináveis disputas dos sacerdotes de um de outro nos tempos das monarquias de Israel.

Yam e Baal duelaram pela sucessão de El na hierarquia dos Elohim (deuses). Exército divino contra exército divino, Baal venceu e cortou Yam em pedaços, espalhando-o pelo mundo. Assim surgiram os diversos mares. Baal então casou-se com a própria mãe Asherat e sua mãe/esposa convenceu El a erguer-lhe um palácio. Com seu castelo pronto, Baal começou a tomar todas as cidades humanas e chamou Mot para aterrorizar os que ficassem contra ele. Mot se ofendeu com a ordem e ameaçou devorar Baal, mas o deus-sol transfigurou um jovem humano para a semelhança de Baal, de forma que Mot aniquilou o ser errado.

El interveio pelo filho, mas Mot afirmou que não sabia onde a alma de Baal estava. Asherat, furiosa, lutou com Mot e o destruiu. Quando Baal reapareceu, El refez Mot e requisitou a paz entre os irmãos. Baal ofereceu seus próprios súditos (humanos) a Mot, que novamente se enfureceu, mas foi advertido por El que não deveria tocar no Seu sucessor. Yaweh e os outros deuses somente são citados na mitologia quanto às terras que herdaram.

El se tornou um deus-patrono de Canaã, citado nos nomes de grande parte das cidades, especialmente as mais antigas. Baal e Asherat, também nomeadores de cidade antigas como Byblos, foram cultuados como o deus das tempestade e a deusa dos bosques, respectivamente. O nome de Yaweh, por volta de 3000 a.C., era associado à rota das caravanas de Madiã que passavam pela região vulcânica do oeste da Arábia, onde haviam minas de ouro (a terra de Ofir citada no Gênesis).

O DEUS DAS MONTANHAS

Quando Deus se apresenta a Abraão, pouco depois de 2000 a.C., Ele chama um habitante ou nobre de Ur bem no tempo do poderoso rei Sargão e quando Ur era apontada pelas lendas Sumérias como o ponto de contato entre a Terra e o mundo celestial. Para esse fundador afortunado, Ele se apresenta como El Shaddai. O mesmo nome é usado no livro de Jó, considerado o mais antigo de toda Bíblia.

El claramente é uma referência ao patrono de Ur. Shaddai é uma palavra derivada da língua de Ur, vinda de Shadu (montanha), aparentada com o hebraico Shadé (área selvagem) e o árabe Shaddid (forte). Uma antiga cidade da Síria, entre duas montanhas, usava o nome Shaddai. A palavra era usada no hebraico antigo para especificar fronteiras ou limites, e mais tarde o deus que impunha limites ou delimitava a terra, o céu e as águas, ordenando o caos do mundo. Na Babilônia de Nabucodonosor, um esquema parecido colocava o deus Marduk lutando contra o dragão Tiamat, símbolo do caos. Também Baal combatia Yam, o mar. A referência ao "deus da(s) montanha(s)" reaparece depois inúmeras vezes, no Zeus (também chamado Jove!) dos gregos, com Moisés no Sinai, na recitação do Alcorão, nos deuses Incas, etc.

RESUMO DA VIAGEM

Shaddai provavelmente é o nome mais antigo de deus, associado a uma força ordenadora do mundo que reside nas montanhas sagradas. El criador se tornou El Shaddai, o ordenador e Elyon, aquele que está acima dos deuses. Futuramente, se tornaria o Allah dos Muçulmanos. Dele vieram Baal e Yaweh, guerreiros dos raios e do fogo, que foram misturados pelos vários Moisés ao Aten senhor/criador do Egito. Josias fez a opção por manter o nome YHWH, mas de fato uniu os cultos de El, Aten, Baal e Yaweh, extirpando o nome de Asherat. YHWH (pronúncia Javé) permaneceu, por muitos séculos, como a forma do nome de Deus. Finalmente, Jesus introduziu Abba (pai), que baseou o Cristianismo com Ele mesmo sendo representante e parte de Deus. Mais tarde, temendo pronunciar o nome divino, apareceram formas de substituição como Adonai, Shema, Ha Shem, Kyrios, Theos e Dominus. Longe de desafiar o monoteísmo, essa “linhagem” talvez nos torne mais humildes ao ver que Deus se mostrou ou foi visto de formas bem diferentes pelos homens ao longo do tempo.

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PAPÉIS AMARELADOS

Bethel – wikipedia
Budge EAW, Egyptian book of the dead, The papyrus of Ani – holybooks.com
El (deity) – wikipedia
El Shaddai – wikipedia
Elohim – wikipedia
Elyon – wikipedia
Herzog Z, Deconstructing the walls of Jericho, Ha'aretz Magazine, Oct 29, 1999.
I am that I am – wikipedia
Josiah – wikipedia
Masoretic text – wikipedia
Tetragrammaton – wikipedia
The hidden history of Jehovah – hiddenmisteries.org, 2004
Ur - wikipedia
Yaweh – wikipedia